Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Centro de Sustentabilidade / Biomimética, a natureza dando respostas aos seus agressores

Biomimética, a natureza dando respostas aos seus agressores

13/10/2014 18h55 - última modificação 14/10/2014 14h44


Pesquisa da Metodista descobre que fungos podem decompor pneus e plásticos pets

Um fungo de Mata Atlântica é o mais recente exemplo de que a melhor esperança para encontrar soluções contra agressores do meio ambiente está no próprio meio ambiente. Pesquisa conduzida pela Universidade Metodista de São Paulo avança na comprovação de que os fungos, que também são produtores de enzimas, representam a alternativa mais sustentável para destruir produtos de difícil decomposição, como pneus e garrafas pet. Apesar de o Brasil ter adquirido tradição em recuperar materiais com alto nível de reaproveitamento, como pets (59% de reciclagem) e pneus (85%), o processo é feito por meios químicos. 

“Trabalhamos com o processo natural de decomposição por meio de fungos e das enzimas que eles secretam. As enzimas degradam tudo, inclusive celulose e lignina, que são moléculas grandes da madeira. Começaram então a surgir pesquisas indicando os fungos como degradadores de substâncias xenobióticas -- moléculas sintéticas criadas pelo homem e não pela natureza, e que são de difícil destruição. São os casos de pneu, pet, plástico, couro”, cita a professora Marta Cristina Souza, coordenadora do estudo sobre biodegradação de resíduos com utilização de fungos (foto).


Além de serem opção natural à decomposição das chamadas moléculas xenobióticas ou recalcitrantes, os fungos podem ser tomados como referência de Biomimética, ciência inspirada na natureza para criar tecnologias, produtos e soluções sustentáveis. Trata-se de uma saída emergente, e portanto de oportunidades ilimitadas, para mudar o destino de degradação do ecossistema terrestre. A Biomimética leva a aprender com a natureza suas estratégias e soluções e como utilizar esse conhecimento no mundo das ciências.

Ênfase da Engenharia Ambiental

“Estamos esgotando recursos que são essenciais para nossa sobrevivência e temos que repensar a forma como vivemos. Para diminuir essa insustentabilidade, a tecnologia tem papel muito importante. E uma das formas de criar novas tecnologias é a Biomimética”, acrescenta a coordenadora do Centro de Sustentabilidade da Metodista, professora Waverli Neuberger. A Biomimética é a área de concentração de pesquisa do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da universidade, oferecido desde 2011.

O engenheiro, explica professora Waverli, não está mudando de ramo nem de nome, mas precisa dar novo perfil à sua atuação. Deve ser um profissional que desenvolve também tecnologias, entendidas aqui não apenas como processos industriais que criam novos produtos. “As tecnologias são também sociais”, diz ela. O engenheiro ambiental moderno deve conciliar os conhecimentos necessários nas áreas de cálculos, física e química com a rica diversidade dos ecossistemas, como por exemplo de uma bacia hidrográfica.

“É possível retirar da natureza inúmeras criações. A natureza é harmônica, cria e destrói, extingue o que não dá certo. Por que não olhar para a natureza para criar processos que possam orientar um novo futuro?”, questiona a pesquisadora Marta Cristina de Souza.

O poder decompositor dos fungos começou a ser estudado há oito anos na Metodista. A primeira pesquisa ocorreu com pneus, a partir de levantamento inicial de fungos de solo. Nessa coleta foi capturado um pedaço de pneu com fungos degradando sua superfície. Um aluno também trouxe um sapato do pai com solado de borracha tomado por esses organismos, que foram isolados e identificados como de origem da Mata Atlântica.

“Começamos a trabalhar em pequena escala. Conseguimos 35% a 40% de degradação em uma mostra de 3 gramas de pneu, a princípio em 50 dias. Já baixamos para 30 dias sob testes de luminosidade, tipos de açúcar e reprodução de todas as características físicas e químicas possíveis. Agora agregamos estudos em matemática e planejamento para um trabalho em larga escala. Analisamos se a enzima secretada trabalha sozinha ou junto com o fungo. Se ela trabalha com o fungo, podemos até viabilizar sua produção com tecnologia biomolecular, por exemplo, para acelerar o processo”, conta professora Marta Cristina. A pesquisa foi depois expandida para pet, polietileno, polipropileno e várias substâncias dessa categoria.

Só 25% dos resíduos reciclados     

                                      

A natureza será a grande beneficiada com a biodegradação de resíduos com utilização de fungos, a partir da publicação e patente do estudo da Universidade Metodista. Segundo estimativas do Pnud, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o mundo vai gerar 13 bilhões de toneladas de resíduos até 2050. Atualmente, apenas 25% de todos os resíduos são recuperados ou reciclados. O restante é jogado no meio ambiente e leva anos, até séculos, para ser absorvido pelo ecossistema. “Se conseguirmos ajudar nessa degradação, será melhor”, confia a coordenadora do Centro de Sustentabilidade, Waverli Neureberger, que vê nas pesquisas da Biomimética a proposta mais ousada da Engenharia Ambiental.

“O Brasil é um dos países mais megadiversos do mundo, com grande quantidade de recursos naturais e ainda tem culturas indígenas. Os índios aprenderam diretamente da natureza e têm uma maneira sofisticada de ver a vida. Então, temos a faca, o queijo e a goiabada nas mãos. O Brasil está começando a se tornar um país que pode ser modelo de desenvolvimento sustentável e a Biomimética pode ser a linha orientadora disso”, anima-se a professora, citando que o Grande ABC é privilegiado nesse aspecto, porque ainda tem 56% de território coberto por Mata Atlântica.

Muito lixo na natureza

Segundo o Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), associação sem fins lucrativos dedicada à promoção da reciclagem, 59% das embalagens pet pós-consumo foram recicladas em 2012, totalizando 331 mil toneladas. O restante foi descartado no meio ambiente sem gerenciamento integrado do lixo. As garrafas são recuperadas quimicamente, processo pelo qual o pet é despolimerizado, recuperando a matéria-prima que lhe deu origem. Hoje é usado até pela indústria de tecidos.


Já a Associação Nacional da Indústria de Pneus desenvolve desde 2007 o Reciclanip, programa voltado à coleta e destinação de pneus. No Brasil, uma das formas de reaproveitamento de pneus inservíveis é como combustível alternativo para indústrias de cimento. Outros usos são na fabricação de solados de sapatos, borrachas de vedação, dutos pluviais, pisos para quadras poliesportivas e industriais, além de tapetes para automóveis. Mais recentemente, surgiram estudos para fabricação de manta asfáltica e asfalto-borracha. Desde 1999, quando começou a coleta gerenciada, os fabricantes estimam ter arrecadado mais de 2,68 milhões de toneladas de pneus inservíveis, o equivalente a 536 milhões de pneus de passeios. Em 2013 o índice de reciclagem de pneus no Brasil foi de 85%, ou seja, pelo menos 15% foram jogados no meio ambiente.

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
Conheça Outras.

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre: , , , , , , , , , , ,
TRABALHOS E CONGRESSOS