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Einstein e a Cidade: criações mútuas

"Uma sintaxe poderosa legitimou a história, o conhecimento, a prece e o fluxo articulado da introspecção. O futuro possui sua gramática específica." ( George Steiner )

A cidade de Berna não deixou por menos. Sobre o ingresso à exposição do seu filho adotivo ilustre, Albert Einstein, fez imprimir a fórmula inesquecível: bErn=mc². Massa e energia tanto para entender a teoria do seu cidadão de 1905 quanto a prática da gestão urbana daquele tempo. No museu da cidade, às margens do gelado Aare, a mostra iniciada em 15 de abril de 2005 está sendo prorrogada até outubro, na certeza de público e divulgação crescentes. A capital suíça não somente sente-se no direito de juntar documentos fundamentais sobre e do físico-politécnico e jovem trabalhador da seção municipal de propriedade intelectual quanto explicita uma importante referência urbana, isto é, seus cidadãos e cidadãs, ilustres ou não, inventam-se e se reinventam na dinâmica urbana. Do mesmo modo, poderiam estagnar-se na cidade esquecida e desgovernada.

A vida e a obra de Einstein, primorosamente abertas para o olhar, as mãos e o coração em seu movimento de imagens, se mescla à urbanidade bernesa em torno do annus mirabilis de 1905. No mesmo andar do Museu em que se detalha a sua vida de estudante, amigo e amante, um amplo painel de mulheres trabalhadoras e suas crianças na Berna de fins do século XIX sinaliza as transformações urbanas. Einstein vive na cidade em mutação. Nela elabora textos básicos sobre a teoria da relatividade restrita e prepara os movimentos do espírito inquieto que levam a Berlim, ao Nobel de 1922 e ao polêmico retiro americano.

A sociedade multicultural de cem anos atrás, dotada de educação liberal e estímulo ao saber e ao trabalho, revive-se na memória do físico humanista. A recente exposição espalha pelos jardins e por vários andares do edifício localizado na Helvetiaplaz equipamentos, material documental e geringonças para a invenção e a imaginação das pessoas, principalmente crianças e adolescentes. Do mesmo modo, faz ver que o jovem estudante que busca o primeiro emprego em Berna o faz porque acredita na cidade. Entre 1890 e 1910 Berna passa de 48 para 117 mil habitantes. Constrói pontes, organiza projetos habitacionais, amplia a educação pública e inova no binômio ciência-tecnologia. O próprio museu da cidade foi construído entre 1892 e 1894. Costuma-se dizer que nessa época o jovem Estado helvético atraiu muitos intelectuais do norte e muitos trabalhadores braçais do sul. Na interseção desses atores sociais definiu sua dinâmica urbana. A exposição sugere que não se esqueça do modo classista de organização da cidade, visto que apresenta o salário de Einsten e o compara ao dos trabalhadores braçais. O jovem cientista ganhava 3.500 francos por mês, enquanto um casal de trabalhadores da construção civil recebia, conjuntamente, bem menos de 2.000. Anota-se em curiosa descrição que para comprar um quilo de açúcar Einsten trabalhava 17 minutos; do seu lado, o casal de trabalhadores dispendia 38 minutos de sua força de trabalho para adquirir o açúcar. Portanto, as questões de física e o jogo do tempo-espaço devem ter muito a ver com o açúcar de cada dia, que tem a ver com o duro trabalho humano. Como sabemos, no inicio do século 20 o jovem Albert Einstein dava pareceres na Prefeitura local sobre propostas de estabelecimento de patentes de invenções no campo da física. Naquele tempo era casado com a cientista Mileva Maric´. Embora reservado e de amizades limitadas, em torno da mesa de salsicha, chá, queijo e frutas reunia a pequena galera de aficcionados por física, música e filosofia. O grupo, denominado Academia Olímpia, a par de noites inteiras de divagações, chegou a construir um potenciômetro, consta que jamais usado.

De fato, a Suíça de Einstein vem de estabelecer-se como Estado moderno a partir da Constituição Federativa de 1874. A apologia em torno da suposta neutralidade faz esquecer efetivos valores da confederação no quadro europeu do tempo: espaço intercultural, com educação diferenciada, formas plurais de religiosidade e capacidade de atração de inovações. Por isso, a família Einstein se move de Ulm, Alemanha, onde nasceu - 1879 - o menino que a mãe considerava muito grande e desajeitado, para Munique, depois Itália e Aarau, Suíça. Albert, tido como problemático e questionador na escola católica de Munique, por vezes pouco brilhante na ótica da escola rígida e conteudista, sofre insucesso na primeira tentativa mas entra para o famoso Instituto Politécnico de Zurique em 1896. Seguem-se outros insucessos na tentativa de ser professor. Cidadão suíço, torna-se técnico e daí ajuda decisivamente a recriar o nosso mundo físico e político.

A exposição enche os olhos das crianças, adolescentes e adultos, pois cria relações entre as teorias e o cotidiano do cidadão. Uma mostra para as famílias da cidade. Na qual a cidade também é sujeito histórico. O que se vê na inteireza da mostra é o cenário da cidade transfigurada em memória e fenômenos do cotidiano. A vida do cientista, do trabalhador, do cidadão, que cruzava a ponte de Kirchenfeld a pé e seguia para o trabalho, que gastava 18 minutos de tempo para levar à casa o quilo de açúcar, que usou o dinheiro do Prêmio Nobel para comprar algumas casas em Zurique e providenciar pagamento mensal aos filhos que teve com Mileva. Que se formou humanista na observação do perigoso quadro europeu que rumava para as duas guerras. Que assumiu a integridade política da fama e afirmou com todas as letras o seu horror à construção crescente da violência. Que imortalizou discursos sobre a igualdade de direitos e oportunidades, a par da proteção econômica das pessoas. Einstein, na ótica de Berna, reinventa-se na cidade modernizada. Entre luz, velocidade, tempo-espaço, filosofia e música o cientista patrocinou o que de algum modo Walter Benjamin queria dizer com a habitação da cidade em nós. Os frutos do habitar e ser habitado somente podem servir ao mundo na medida em que se ajustam ao destino do que é local, do que é político, polis. A partir daí poderemos discutir e questionar a globalização.

Luiz Roberto Alves, professor da pós-graduação em Administração da FCA, Universidade Metodista de S. Paulo, membro do comitê técnico da Cátedra de Gestão de Cidades, professor da ECA - USP. Atualmente pesquisador visitante na Universidade de Florença, com o apoio do CNPq.

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