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PPI em face do PPC

Os desconhecidos valores de nossa criação histórico-cultural.

As diversas facetas e modos de construção do universo do crime constituem-se uma das marcas capazes de impossibilitar ao Brasil a condição de país justo, distribuidor e integralmente avançado. Pode liquidar conquistas recentes e antigas. Pensar em país integralmente avançado não implica em comparar ou desejar ser como os países atuais do G-8, ou do G-20. Para fugir dos estereótipos e supostas cópias, importa que nosso país seja integralmente avançado segundo os valores de nossa criação histórico-cultural, que continuamos a desconhecer como maioria dentre os 190 milhões.

O PPC diz, em sua organização e ação, que o país não será. Trata-se, com clareza constante, de uma etapa histórica que combina a morte da ética pública com as novas tecnologias e constrói um programa político do crime, ppc. Não adianta dizer que sempre foi assim no Brasil. Não foi. A racionalidade – e não o chute – mostra que os ciclos históricos constroem projetos segundo suas armas, cujos efeitos são muito diversos, dependendo da força dos atores dos diferentes setores e poderes da sociedade. Não confundir, pois, o tempo e a ação do ladrão Meneguetti, ou do bandido da Luz Vermelha, com este tempo. Nem adianta passar por cima, por conformismo, do que acontece neste tempo em que novas técnicas e tecnologias de fato impõem projetos. Sendo política, na sua etimologia, o governo da polis, do lugar de viver e conviver, o programa do crime deseja governar por novas competências de aliciamento, sedução, visão de história, construção de subjetividade acima de entraves éticos. Em face dele – ou deles, pois se pluralizam e constroem múltiplas facetas rapidamente – somente uma inovadora construção de PPI pode fazer o bom combate, para lembrar o combatente Saulo de Tarso, transformado em Paulo pela dolorosa conversão, que também temos de realizar como comunidade cívica. A PPI é um conjunto de projetos e ações que se denomina Política Pública Integrada, ainda estranha a muitos governantes do Brasil, mas impar na possibilidade que tem de respeitar pessoas e comunidades que desejam ser cidadãos e garantir direitos humanos e sociais.

Senão, vejamos.

A Amazônia, antigo inferno verde, purgatório dos trabalhadores pobres, começa a constituir-se paraíso das rotas de tráfico de diversas drogas. O tráfico trafega solto pelos 22 mil quilômetros de rios e outros tantos mil de “furos” e caminhos fluviais. A notícia, de veiculação recente, não deveria espantar ninguém, pois os construtores dos programas políticos do crime trabalham com nova análise da logística. Os olhos globais sobre o pulmão da Terra são opacos, virtuais e cheios de interesses diversos, dos mesquinhos aos honestos e éticos. Mas o olhar global é opaco e o problema é todo nosso, do Brasil e seus vizinhos. Além do mais, se há maior vigilância pelo ar, basta reorganizar o sistema de distribuição e o marketing das drogas para manter o fluxo contínuo das operações, com visão de longo prazo, aproveitando a imensidão do território. No entanto, a organização do sistema criminoso busca enraizar-se por meio de várias políticas junto aos habitantes das cidades amazônicas: o aliciamento, a instrução, o pagamento do silêncio, a orientação de rotas de fuga, a mensuração do território, a ajuda mútua. No campo da dignidade política, tais políticas teriam o nome de educação, transporte, assistência social, serviços de inteligência, saúde. No entanto, o outro lado, organizador de competências de governo sobre determinados territórios, ousa ressignificar suas ações pela racionalidade da política, de um novo modo de ser no espaço em processo de conquista. Não se deve aterrorizar diante disso, mas pelo menos aguçar toda a inteligência política para que não se perca a verdadeira identidade do que é político. Se o domínio da linguagem não valer mais nada, de fato nada mesmo valerá. A informação midiática desvairada já está levando nosso sistema lingüístico aos limites do não-valor, com apoio da sociedade que privatiza as consciências. Também não adianta nada dizer que o governo combate o crime num lugar e ele espirra para o outro. Não se trata de espirrar, mas de construir estratégias em face de interesses globais, amplos.

Vamos às PPI. No caso da nova política e da nova logística do crime na Amazônia (associando tráfico com roubo de madeira, fauna, flora e outras violências) não haverá minoração dos males sem a ação de políticas públicas integradas e integradoras. Integradoras de consciência e integradas de planejamento e ação. Não somente do governo central, mas também das cidades amazônicas e suas micro-físicas regionais. Trata-se de uma ação de defesa, cultura, educação, saúde, transporte, habitação, ambiente, mas o conjunto de linguagem precisa ser soldado, ligado por objetivos que não indiquem supremacia e hierarquia, pois a ação cultural é tão importante quanto o ocasional uso da arma contra o crime e não menos importante que a organização da escola e da habitação nas vilas e cidades amazônicas. Muitos saberes partilham do mesmo gesto. Ainda que haja um momento inicial de choque, ele será plenamente inóquo sem a integração não-hierárquica das políticas, que passam a constituir-se um fenômeno singular, integrador, visível, conhecido dos que planejam, dos que implementam e dos que avaliam e repropõem continuidades. Necessariamente com ampla participação dos atores locais e regionais, poderes públicos, arranjos econômicos, comunidades cívicas. Os choques causam reação e reorganização. A política integrada e contínua cria história, convivência, consciência da política como dignidade no ato de viver e conviver.

Talvez o encontro com situações assim radicais – mas o absurdo das mortes pela dengue não é menos radical – seja o melhor lugar para a exemplaridade de se integrar políticas, visto que para populações acostumadas à atomização do clientelismo ( que produz momentos de interesse, mas não história) o caminho da cidadania está na transparência do que integra, pois o que integra autonomiza e cria nova consciência.

Quem sabe a Amazônia concreta venha a ser símbolo de novos aprendizados políticos do Brasil.

*Luiz Roberto Alves é professor e pesquisador do Programa de Mestrado em Administração, coordenador da Cátedra de Gestão de Cidades da Universidade Metodista de São Paulo

 

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