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Palestina - A fortaleza de Massada

Marcelo Conceição Araújo e Antônio Silva Neto

O domínio romano sobre a Palestina que data-se do ano 63 a. C, não foi aceito de forma passiva. Algumas rebeliões foram surgindo ao longo do processo, entretanto, todas foram debeladas pelos romanos e suas forças de ocupação. A resistência judaica ao domínio romano só assumiu uma forma mais universal no ano de 66 d. C., tornando-se uma guerra de grandes escalas, que foi sufocada no ano 70, após um longo cerco a Jerusalém. O saldo final foi a destruição completa da cidade e do Templo de Herodes e, por conseguinte, a deportação de grande parte da população.

De todo esse conflito, positivo para os romanos, restou ainda um foco de resistência judaico na fortaleza de Massada, que fora tomada no ano 66 d. C. por um grupo de zelotas,[1] persistindo até o ano 73[2].

1 - Localização geográfica

Massada está localizada na margem leste do deserto de Judá, cortando mais de mil e trezentos pés (396, 24 m) da costa oeste do Mar Morto. Sua conformação parece um tosco rombóide[3], como um navio de norte muito estreito, com o sul um pouco menos e o meio largo. De norte a sul a rocha mede uns 1900 pés (579,12 m) e, de leste a oeste, 650 pés (198,12 m).

Salvo o extremo norte, toda a rocha estava cercada por uma muralha de parede dupla dividida em casamatas[4]. As construções se concentravam na metade norte do cimo, enquanto a parte sul, mais baixa, carecia de edificações. Observando a formação geral da rocha, à esquerda se vê a trilha da serpente e a rampa (do assalto romano) á direita. Na margem oeste observa-se, em primeiro plano o palácio de degraus e sobre este tem-se o núcleo principal de edificações (armazéns e outras estruturas). Ao centro e à direita da margem oeste de Massada encontramos o maior edifício. As edificações menores se distribuíam aproveitando a topografia irregular do terreno.

2 - Histórico

Quanto aos primeiros ocupantes de Massada, ainda é algo obscuro. Para Flávio Josefo, o seu grande construtor foi Herodes, todavia antes dele havia passado por ali, o Sumo Sacerdote Yonathan, que alguns identificam com Judas Macabeu (metade do século II a. C.) e, outros, com Alexandre Janeu (103-73 a. C.).

Todos concordam com Josefo, de que as principais edificações foram obras do gênio de Herodes[5], mas nunca chegaram a um acordo quanto a sua função: refúgio em caso de revoltas[6] ou domínio estrangeiro, ou obra incorporada à defesa geral do reino.

Outra dúvida que pairava antes das escavações, era quanto ao período dos zelotas. Flávio Josefo afirmara que após a morte de Herodes, a fortaleza havia sido ocupada por uma guarnição romana, posteriormente expulsa em 66 por Menaém e seus sequazes, cedendo lugar a um grupo de zelotas. Em 73, após derrotar os zelotas, Silva deixou aí estabelecida outra guarnição. Após o domínio romano, Massada passou por um período de desocupação, tornando-se, mais tarde, morada de monges bizantinos entre os séculos V e VI, depois do qual nunca mais foi ocupada sistematicamente.

Impressões gerais

A vista de Massada a oeste, permite ver o norte com seus três terraços e à direita o profundo Wadi Massada. Por essa via é possível avistar a direita os restos do ambicioso projeto de Herodes para a condução de água: duas filas de buracos escuros, correspondentes às bocas de imensas cisternas cavadas na rocha, com capacidade para 140.000 pés cúbicos de água (42.672 m³) cada, chegando a um montante de aproximadamente 1.400.000 (426.720 m³). O projeto baseava-se na existência de pequenos vaus, nos quais foram construídos diques, sobre os quais foram instalados canais abertos para as duas séries de cisternas: do vau sul até a fila superior, e o segundo aqueduto, do vau norte até a fila interior. As cisternas na parte superior da rocha de Massada eram abastecidas de água pelo trabalho de milhares de escravos e de bestas de carga. Mesmo sendo uma região muito seca, esse sistema de abastecimento conseguia captar a água dos temporais de inverno, bastando algumas horas para encher as cisternas.[7]

3 - As construções

a. Terraço inferior: A rocha de Massada afila-se ao norte, atingindo poucos metros de largura, ali onde estava localizado o terraço inferior, para cuja construção necessitou-se de uma plataforma artificial e de um muro de contenção de uns oitenta pés (24,38m). Aí foram encontradas peças importantes do palácio e pinturas murais no estilo romano.

A parte inferior das paredes (internas e externas) era revestida de gesso à imitação de mármore. Toda a construção era sustentada por pilares compostos de blocos de pedras superpostos com aparência de colunas monolíticas, coroadas com capitéis coríntios, pintados e recobertos de ouro. Após a eliminação dos escombros, descobriu-se também uma casa de banhos privada, cujo luxo e arquitetura remontam a mais refinada tradição romana.[8] Nas escadas que davam acesso à piscina de água fria , foram encontrados três esqueletos: de um homem de cerca de 20 anos, de uma mulher jovem e de uma criança[9], possivelmente restos de alguns dos defensores de Massada.

b. Terraço central: Apresentava muros concêntricos com espessas paredes niveladas e a presença de pilares quadrangulares separados por nichos. Era uma construção fechada, em cuja parte anterior dos lados leste e oeste havia habitações e no sul, pilastras de sustentação do teto. A parte circular e seu vazio central serviam para melhor distribuição do peso e sustentação da cobertura. Na parte inferior, mais ao sul, havia pinturas murais. O acesso a ele era feito por uma escada ao Sudoeste.

c. Terraço superior: Subdividia-se em duas partes: a do norte de forma semi-circular com paredes duplas, como o terraço central e, a parte sul, com habitações do período bizantino (século V). Na época de Herodes parece ter havido apenas 4 habitações e vários corredores. As decorações aí encontradas, eram mais suntuosas que a dos anteriores, com pisos em mosaico[10] e paredes e teto fartamente decorados. Com a retirada da terra chegou-se a uma parede branca em ótimo estado de conservação e blocos que indicavam que aí também houve pilares compostos de diversas pedras.[11] A entrada original do palácio ficava a leste. Nas escadarias foram encontrados restos arquitetônicos adicionais: capitéis jônicos e restos de uma pequena casa de banho, cuja construção fora interrompida, dificultando sua datação. Embora, as escavações revelem a precisão de Flávio Josefo, esse não era o palácio oficial rei.

d. Casa de banho: Grande construção ao sul do terraço superior e a oeste dos armazéns, com paredes recobertas de gesso, nas quais havia tubulação condutora de calor (caldarium) e, sob o chão, estavam pilares que compunham o hipocausto que aquecia o caldarium. O ar quente era conduzido por tubos que se comunicavam com um forno adjacente ao caldarium. Em sua parte norte, havia uma banheira de quartzo, num nicho semicircular, abastecida de água fria e no outro lado uma banheira para banho quente. No complexo, a construção menor e mais simples correspondia ao frigidarium, piscina de água fria. Entre o caldarium e o frigidarium estava o tepidarium de temperatura ambiente, mais luxuoso. O vestuário (apoditerium) era também decorado luxuosamente. A entrada consistia num amplo pátio, cujo solo de mosaico branco e preto era igual ao do terraço superior.

e. Armazéns: Porta noroeste, ao sul da vila palácio. Eram estruturas retangulares, que serviam para estocar alimentos por muito tempo.[12] As construções seguiam os padrões arquitetônicos da época, sendo compostas por dois blocos principais (sul e leste), cujas paredes chegavam a uma altura original de aproximadamente 11 pés (3,35 m). Foram encontradas aí centenas de recipientes quebrados, muitos dos quais tinham as inscrições T (do hebraico truma: merecimentos dos sacerdotes) e ma’aser kohen (dízimo sacerdotal). Foram achadas também, cerca de cem moedas dos 2° e 3° anos da revolta e fragmentos de estanho e outros metais.

f. Conjunto residencial: Ao lado sul dos armazéns, encontramos um edifício quadrado com uma boa quantidade de quartos. As unidades de vivenda se compunham de uma grande estância, um pátio fechado e pequenas habitações adjacentes. Sob o piso original foi encontrado um monte de moedas (siclo e meio siclo) e sob a camada de cinzas, numa caixa de bronze, foram encontradas pela primeira vez moedas de siclos (seis siclos e seis meio siclos), que retratavam todos os anos da revolta

g. Capela bizantina: Ao sul desse edifício residencial, encontramos uma capela da época cristã em estilo bizantino, composta de uma grande sala, cujas paredes ainda sustinham adornos originais. No lado noroeste do grande salão, encontrava-se uma habitação para os guardiães do templo, na qual foram encontrados armários e recipientes para abluções. O achado mais importante, no entanto, foi um mosaico bizantino (século V) revestindo o piso na margem norte da construção.[13]

h. Palácio real: Estava no extremo oeste da rocha, atingindo uma área de 36.000 pés² (10.972,8m²). Compunha-se de três alas principais: Parte habitável, a sudoeste, com grandes estâncias e pequenos quartos em torno de um pátio. Foram encontrados aí vestígios do trono e de uma casa de banho privada. Ao norte, havia uma ala de serviço semelhante à anterior. Finalmente, na parte oeste, encontram-se armazéns e a parte administrativa. Os primeiros davam a esse subconjunto de construções independência em relação às outras partes. Seu sistema de abastecimento de água era independente dos demais. Próximas ao palácio havia vivendas (2 ao norte e 1 ao sul).

h. Columbário: Na parte sul do cume, observa-se uma estrutura circular dividida por duas paredes com orifícios e um espaço central, à semelhança de um columbário. Com efeito, é provável que aí fossem encerrados os restos das incinerações dos membros não judeus da corte.

i. Muralha de casamatas: Cobria todo o cume estava cercado, exceto o norte, e entre suas parede haviam tabiques, que serviam de armazéns e vivendas para as tropas. Eram cerca de 110 estâncias, que no tempo da revolta foram ampliadas para abrigar os rebeldes. No lado do Caminho da Serpente, foram encontradas pedras redondas (45,3 kg) para serem lançadas nos inimigos, das quais nenhuma fora lançada.

j. Banho ritual (ao sul da muralha): Série de 3 piscinas (grande, média e pequena). As duas maiores eram escalonadas e se comunicavam por tubulações. Essa estrutura correspondia a um mikave, banho ritual de imersão do período do segundo templo. A primeira piscina recolhia a água da chuva e, a segunda, servia para o banho, tendo suas águas purificadas pela água que jorrava da primeira através do tubo de comunicação. A piscina menor não comunicava com as outras e servia para limpeza, ou seja, purificação das mãos e dos pés (medidas rituais).

k. Sinagoga: No setor noroeste da muralha, havia restos de uma sinagoga com bancos recobertos de argila e pilares em seções. Era uma construção retangular com bancos em fila ao redor das paredes, com um vão a oeste e, tendo ao centro três pilares ao sul e 2 ao norte. Aí foram encontradas moedas da época da revolução, um óstraco com a inscrição “dízimo dos sacerdotes (levitas), inscrições com o nome do sacerdote “Hezekiah”.

l. Esqueletos: Restos de esqueletos de 14 homens entre 22 a 26 anos ( um de mais de 60), seis de mulheres de 15 a 25 anos e 12 crianças (inclusive de um feto), foram encontrados na menor cova do extremo sul da muralha.

No quadro abaixo, sintetizamos as descobertas dos fragmentos escritos encontrados em Massada:

Local Objeto
Muralha (habitação 1039) Frag. dos Salmos 81-85 Frag. do Levítico
Rincão Sudoeste Frag. do 6 Cântico do Sacrifício Sabático (Qumram)
Setor Leste ao N do C. da Serpente Frag. em pele branca do Salmo 150
Muralha (habitação 1109) Frag. em Hebraico de Ben Sirá
Torre da Muralha: oeste do Palácio oeste Livro dos jubileus
Oeste do Pátio Frag. de Lv 8-12
Sinagoga (Genizá) Frag. capítulos finais de Deuteronômio e extratos do cap.37 de Ezequiel

Períodos de ocupação de Massada:

PERÍODO DATA ACHADOS
Calcolítico 4 Milênio Covas nos acantilados
Primeiro Tempo Do século X ao VII (a. C.) Fragmentos de cerâmica disseminados
Asmoneu De 103 a 40 (a. C.) Moedas de Alexandre Janeu
Herodes, o Grande De 40 (a. C) a 4 Fortaleza, palácios, armazéns, casa de banhos, cisternas, moedas.
Dinastia de Herodes e os procuradores de 4 a 66 Centenas de moedas, adições aos edifícios.
A Grande Rebelião de 66 a 73 Vivendas, banhos rituais, sinagoga, rolo de pergaminho, ostracos, moedas e objetos de uso diário.
Depois da Rebelião séculos V e VI Moedas da guarnição romana, alguns edifícios adicionais.
Bizantino. Capela, celas dos monges

Bibliografia

FITTIPALDI, Mário, Seleções de Flávio Josefo, São Paulo, Edaméris, 1974, 319p.

JOSEFO, Flávio, História dos hebreus, Rio de Janeiro, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 1992, 1ª edição, 782p.

NOTH, Martin, Historia de Israel, Barcelona, Ediciones Garriga, 1966, 429p.

YADIM, Yigael, Masada, Barcelona, Ediciones Destino, 1986, 3ª edição, 271p.


Notas

[1] “Pouco tempo depois alguns, mais proclives à guerra, atacaram de surpresa a fortaleza de Massada, degolaram toda a guarnição romana e lá puseram uma, da sua nação.” Veja em JOSEFO, Flávio. História dos hebreus, Rio de Janeiro, Casa Publicadora da Assembléia de Deus, 1992.

[2] Diante da derrota iminente, os revoltosos optaram por um suicídio coletivo. Confira Seleções de Flávio Josefo, São Paulo, Edameris, 1974, p.317-319.

[3] Rombóide, no Aurélio: quadrilátero de ângulos não retos, de lados opostos iguais e lados contíguos diferentes; paralelogramo.

[4] Segundo o Aurélio, casamata (do italiano casamatta) significa 1. abrigo subterrâneo abobadado e blindado, 2. prisão subterrânea, 3. fortaleza. Abrigo subterrâneo de grossas paredes, para instalação de baterias ou proteção de materiais e pessoas.

[5] “Para sua conveniência pessoal fez construir uma série de fortalezas, especialmente em certos lugares quase inacessíveis do deserto de Judá e do Mar Morto. A construção mais impressionante por sua altura e suas escarpas, na orelha ocidental do mar Morto, quase em frente à Península de el-Lisan. Na superfície plana de cima da rocha, fez construir um palácio enorme, provido de amplos ‘armazéns’”. Veja em NOTH, Martin. Historia de Israel, Barcelona, Edicciones Garriga, s/d, p.369.

[6] “Herodes era o único adversário que lhe restava a Antígono. Quando Hircano e Fasael foram capturados pelos partos, pôde reunir a sua família e à de seus irmãos, refugiando-se com eles nos riscos quase inacessíveis de Massada, na orelha ocidental do Mar Morto ...” (Martin Noth, p.365).

[7] Com relação à fertilidade da terra, Flávio Josefo diz: “O rei (Herodes) reservou o cimo da colina, que era de solo mais rico e de melhor terra de cultivo que qualquer vale, para a agricultura, para que aqueles que se refugiassem nesta fortaleza não se vissem privados de alimentos em caso de alguma vez necessitarem recebê-los de fora.” Citado por Yigael YADIN, Masada, Barcelona, Ediciones Destino, 1986, p.35.

[8] Sob uma grossa camada de cinzas foram encontrados pinturas murais, restos de comida (tâmaras, caroços de azeitonas etc) e algumas moedas do tempo da revolta, com a inscrição: “A liberdade de Sião”.

[9] Ao descrever os últimos momentos Flávio Josefo disse: “e aquele que foi o último de todos, observou ao demais, por se quiçá algum dos muitos que assim se haviam sacrificado desejasse sua ajuda para terminar completamente; quando se assegurou de que todos estavam mortos pôs fogo no palácio e, com toda força de sua mão, se traspassou completamente com sua espada e caiu morto junto a sua própria família” (p.54).

[10] “Em uma delas (habitações) nos encontramos com um piso de mosaico branco formando um desenho geométrico com hexágonos negros. Este mosaico, como muito outros da mesma matéria de tempos de Herodes, figura entre os mais antigos descobertos no pais” (confira Yigael YADIN, Masada. p.63).

[11] As pedras eram enumeradas pelos construtores de Herodes com letras hebraicas, páleo-hebraicas, latinas e símbolos geométricos, que facilitavam seu encaixe na hora da montagem dos mesmos.

[12] “Enquanto as provisões se achavam dentro da fortaleza, era ainda mais maravilhoso, tendo em conta sua riqueza e sua dilatada conservação; porque aqui se guardava grão em grandes quantidades, para proporcional alimento durante muito tempo; aqui também se encontravam vinho e azeite em abundância com toda classe de legumes e tâmaras amontados; tudo isto o encontrou ali Eleazar, quando ele e seus sicários se apoderaram da fortaleza à traição. Estes frutos se achavam frescos e bem maduros, e de nenhuma maneira inferiores a frutos recentemente armazenados, mesmo que houvesse transcorrido pouco menos de cem anos desde que foram guardados. Até que foi tomada a fortaleza pelos romanos. Inclusive, então, aqueles frutos que haviam restado não se haviam corrompido em todo esse tempo: e não nos equivocaremos ao supor que o ar foi a causa de que duraram tanto, dado que esta fortaleza estão tão alta e livre, por isso, de toda partícula de terra. Encontraram-se aqui também grande quantidade de armas de todas classes, que havia guardado aquele rei como tesouros, e eram suficientes para dez mil homens; havia de ferro fundido, de cobre e de estanho, o que demonstrava que se havia preocupado de ter as coisas listadas para as grandes ocasiões” (citado por YADIN, Yigael. Masada. p.87).

[13] “Seu desenho consiste numa série de medalhões redondos, em cada um dos quais há representações de frutas e plantas, tais como romãs, figos, laranjas e uvas” (YADIM, Yigael. Masada, p112).

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