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PósCom quer aprofundar o entendimento da sociedade da mídia digital

Novo coordenador, professor Luiz Alberto, teme as fake news e o que chama de “incomunicação”

08/03/2018 17h20 - última modificação 08/03/2018 20h19

Prof. Luiz quer que as três linhas do PósCOM façam estudos conjuntos (Foto Stefanie Araújo)

Aproveitar o oxigênio novo trazido pela renovação permanente de temas e de fontes de saber é uma provocação que o Programa de Pós-graduação em Comunicação Social vai enfatizar diante da grande transformação por que passam as mídias e os comunicadores. Segundo o novo coordenador do PósCOM da Universidade Metodista de São Paulo, professor Luiz Alberto de Farias, o próprio entendimento de uma sociedade que lê menos, fala mais e se comunica por múltiplas plataformas digitais é hoje uma das principais preocupações dos pesquisadores em comunicação.

“Como essa interação ocorre num mundo em que as pessoas veem menos TV, ouvem menos rádio, entendem que tudo está embarcado em pequenos gadgets de celulares, seja o entretenimento, seja a socialização, seja o trabalho e até mesmo questões monetárias? Fico me perguntando qual será o destino do rádio, da televisão, do cinema, se agora todos querem tudo sob demanda”, contextualiza o docente, que vê nas três linhas de pesquisa do mestrado e doutorado da Metodista um leque sólido para estudar cientificamente a contemporaneidade.

Luiz Farias é graduado em jornalismo e relações públicas, pós-doutorado em Comunicação, doutor em Comunicação e Cultura e mestre em Comunicação e Mercado. Presidiu a Abrapcorp e a ABPR-SP, além de ter dirigido a Intercom.

Acompanhe a entrevista que concedeu ao Portal da Metodista:

Na chamada Era da competividade, que demanda múltiplas competências, o stricto sensu pode ajudar a formar profissionais mais multitarefas?

R - O stricto de modo geral passa por diversas transformações, talvez até fazendo uma releitura do seu papel na sociedade. A existência de alguns mestrados profissionais já prova que novas experiências estão sendo feitas no sentido de formar pesquisadores mais voltados para as realidades organizacionais, empresariais, para situações mais práticas do dia a dia.

Para pessoas que não são pesquisadoras, porém, muitas vezes é difícil entender o timing de um stricto sensu. Por mais que no mundo corporativo se pense que dois anos de mestrado sejam muitos meses, ou quatro anos de doutorado muito mais tempo ainda, a verdade é que desenvolver pesquisas em caráter científico é algo bem difícil, porque nem todo o período é dedicado à investigação. Há outras atividades necessárias e uma série de cumprimento de regras como publicação de artigos, participação em eventos e o próprio desenvolvimento de créditos por meio da realização das disciplinas.

Diria que o mestrado é um processo importante para o amadurecimento do pesquisador e que o doutorado é um processo essencial para o aprofundamento de uma pesquisa. O doutorado é o momento em que a pessoa faz sua assinatura acadêmica, quando define exatamente o que vai ser academicamente para o resto da vida – se me permite um certo exagero, pois claro que tudo pode ser revisto.

A sociedade tem dificuldade em entender pesquisas na área de Humanas, onde se insere a Comunicação?

R - É diferente de áreas como Saúde ou Exatas, em que alguns produtos são palpáveis. Por exemplo, o desenvolvimento de uma vacina e a criação de um drone são mais fáceis de se ver. Mas mesmo em Saúde e Exatas há pesquisas complexas que não são necessariamente revertidas em produtos materializados.

Na Comunicação também há muitas pesquisas em contato com as organizações, com a sociedade, sejam voltadas para comunicação pública, para comunicação organizacional ou para comunicações midiáticas. Eu particularmente pesquiso opinião pública, um processo em permanente construção que afeta não apenas a vida e a percepção das pessoas, mas impacta essencialmente a maneira como essas pessoas interagem e reagem e, a partir disso, como é o processo de convivência. Quando nós, de alguma maneira, queremos segurança, abdicamos um pouco da própria liberdade – um processo que deve ser estudado na sociedade por pesquisadores em nível de mestrado e doutorado.

Qual é o perfil do comunicador do século 21?

R – O mundo sempre foi transformado pela tecnologia, que fica obsoleta com rapidez assustadora. Há poucas décadas não havia celulares nem internet, os primeiros computadores que enviaram o homem à Lua eram infinitamente inferiores aos smartphones que hoje carregamos nos bolsos e estão nas mãos das crianças. Então, a comunicação e o comunicador passam por um processo de transformação muito grande.

O próprio entendimento de uma sociedade que lê menos e fala mais e dos processos de troca de significados talvez seja hoje um dos principais pontos de preocupação dos pesquisadores em comunicação. Afinal, todas as pessoas são comunicadoras em alguma medida, desde uma criança até um pesquisador sênior.

Como essa interação ocorre num mundo em que as pessoas veem menos TV, ouvem menos rádio, que entendem que tudo está embarcado em pequenos gadgets de celulares, seja o entretenimento, seja a socialização, seja o trabalho e até mesmo questões monetárias? Fico me perguntando qual será o destino do rádio, da TV, do cinema, se agora todos querem tudo sob demanda. E a própria comunicação está hoje sob demanda.

Até que ponto pessoas e organizações de fato dizem o que precisa ser dito ou dizem apenas o que quer ser ouvido? É uma sociedade que se transforma e o faz por meio da comunicação ou da ‘incomunicação’. Muitas vezes, a falta de comunicação ou da capacidade de saber se comunicar faz com que diversos problemas aconteçam.

Então, a comunicação aborda desde questões básicas como manter pessoas informadas até questões complexas de saúde pública. Com a crise da dengue e da febre amarela, por exemplo, a comunicação é um dos elementos, ao lado de políticas de saúde pública, que podem fazer com que esse quadro diminua. A comunicação é responsável por dizer às pessoas como praticar regras básicas de higiene, bem como a maneira certa de se cuidar. Se não for usada uma comunicação correta, o processo pode se inverter.

É preciso informar e formar.

R - Exatamente. Comunicação é antes de tudo educação, educação para relacionamentos mais eficientes.

Dentro das linhas de pesquisa desenvolvidas na Metodista, que novos temas é possível agregar ou enfatizar?  

R – O PósCOm é um programa muito sólido, que chega aos 40 anos em 2018 e pelo qual passaram significativos pesquisadores. Trabalha com três linhas fundamentais: uma voltada especificamente para a Comunicação Midiática, que procura estudar as mensagens que acontecem nas diversas mídias, entendendo que cada vez mais o conceito de mídia se popularizou e também se tornou complexo. Afinal, sempre imaginamos as mídias tradicionais (jornal, rádio, TV) e aí começou-se a pensar em mídias digitais. Isso tem crescido de maneira tão grande que alguns pesquisadores já falam do “EuMídia”, conceito segundo o qual cada pessoa se tornou uma mídia pela capacidade de se expressar em variadas plataformas.

Isso é um grande perigo, porque pessoas fazem fotos, colocam uma legenda e postam sem verificar ou fundamentar uma informação ou uma imagem.

R – Exatamente. Se por um lado há capacidade de se disseminar qualquer coisa, não necessariamente há capacidade crítica, formativa e de pesquisa para avaliar o que se diz ou o que uma imagem postada vai representar. Os riscos são muito grandes. E isso é papel do profissional de comunicação investigar.

Temos tido uma “incontinência enunciativa”, uma afoiteza com a qual muitas vezes falamos ou endossamos às cegas o que nos chega, sejam mensagens sobre vidas pessoais, sejam informações absolutamente falsas, as famosas fake news que têm crescido e que muitas vezes têm uma intencionalidade, uma orquestração por trás que pode derrubar uma mensagem verdadeira e elevar outra falsa.

Se por um lado há fragilidade no processo comunicativo, há também no processo receptivo. Precisamos formar as pessoas para o que dizem e para o que ouvem e para terem capacidade de fazer esse diálogo. Essa linha de pesquisa é bem promissora.

O que acha da outra linha que aborda Comunicação Institucional e Mercadológica?

R - Ela tem um pé em aspectos muito importantes, porque afinal a imensa maioria de nós trabalha em organizações, com recepções e mensagens institucionais ou de mercado. São as organizações que geram empregos, prestam serviço, movimentam o mercado, é o mundo do qual fazemos parte, estejamos empregados ou desempregados, estejamos na condição de fornecedores ou clientes, todos temos uma inter-relação muito séria.

Há a preocupação ética, a preocupação de capacidade comunicativa, assim como uma preocupação voltada para a responsabilidade que essas organizações têm para com a sociedade. Então, é um processo relacional de grande importância.

A terceira linha, de Comunicação Comunitária, Territórios de Cidadania e Desenvolvimento Social, é bastante tradicional na Metodista.

R – É igualmente um ponto importante porque, afinal de contas, traz a ideia de fazer parte da comunidade e de desenvolver-se a partir do interesse coletivo. Há pesquisas tanto de estudantes quanto de professores de grande relevância, como por exemplo sobre aspectos relacionados a desastres, à fome, a pessoas à margem da sociedade vivendo como párias. Isso tanto do ponto de vista dos deslocamentos internacionais como locais, com pessoas em condições de miséria ou de risco à própria vida.

O PósCOM é um programa criático (tem a criatividade como matéria-prima) e, com essas três possibilidades de investigação, conseguimos enxergar uma comunicação que dialoga. Há preocupação de que essas três linhas de pesquisa façam projetos coletivos. É perfeitamente possível fazermos uma análise de como a mídia trabalha no sentido de formação e informação, de como as organizações se posicionam e de como isso está representado de forma cultural e comunitariamente.

As três linhas serão mantidas ou novos grupos serão criados?

R – É um programa bastante sólido. O que se renova permanentemente são os projetos de pesquisas. A cada dois anos professores renovam seus projetos ou buscam novos temas de estudos. Os grupos de pesquisa estão em revisão, dentro da própria ideia de que não podem ser pétreos, precisam se renovar permanentemente. Portanto, alguns grupos continuarão como são e enfatizaremos novas fontes de saber e novas fontes de críticas à sociedade onde vivemos. A cada semestre entram novas pesquisas e esse oxigênio novo, de alguma maneira, é uma provocação científica que o programa, seus professores e estudantes têm que resolver juntos.

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