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Há humanos menos humanos do que outros?

10/03/2016 16h04

 

Quero pedir licença para trazer à memória uma canção cuja letra foi escrita pelo Rev. João Dias de Araújo em 1967. Sim, queridas e queridos leitores, uma canção escrita na década de 1960 e que ainda é pungente e se atualiza todos os dias. Estou falando do cântico “Que estou fazendo se sou cristão”. Talvez algumas pessoas que me leem já tenham cantado essa canção ou pelo menos já a tenham ouvido, outras porém, provavelmente nunca tiveram a oportunidade de conhecer esse hino ao compromisso cristão, cuja letra reproduzo logo abaixo.

 

 

 

Que estou fazendo se sou cristão?

Se Cristo deu-me o seu perdão!

Há muitos pobres sem lar, sem pão,

Há muitas vidas sem salvação.

Meu Cristo veio prá nos remir:

O homem todo sem dividir.

Não só a alma do mal salvar,

Também o corpo ressuscitar.

 

Há muita fome em meu país,

Há tanta gente que é infeliz,

Há criancinhas que vão morrer,

Há tantos velhos a padecer.

Milhões não sabem como escrever,

Milhões de olhos não sabem ler

Nas trevas vivem sem perceber

Que são escravos de outro ser.

 

Aos poderosos eu vou pregar

Aos homens ricos vou proclamar

Que a injustiça é contra Deus

E a vil miséria insulta aos céus.

 

 

Você deve estar se perguntando por que trazer um cântico como esse para tratar do DiaInternacional da Mulher. Pois é, talvez porque se prestarmos atenção aos dados sobre a pobreza, a fome, o analfabetismo e a violência denunciados no cântico acima, vamos perceber que a desigualdade tem sexo. Um breve levantamento sobre a situação das mulheres no mundo a partir de dados disponibilizados por organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas - ONU, a Organização Mundial da Saúde - OMS e a Organização Internacional do Trabalho - OIT, pode nos ajudar a justificar a pergunta que intitula essa breve reflexão: há humanos menos humanos do que outros?

 

Nós mulheres constituímos a maioria dos pobres do mundo, sendo consequentemente a maioria dos famintos da terra, estando mais expostas a doenças e epidemias. Temos menos acesso ao direito à terra e ao crédito. No campo da educação, a maioria das pessoas não alfabetizadas do mundo são mulheres. O mercado formal de trabalho é menos permeável à presença feminina do que à masculina, obrigando as mulheres a se submeterem a subempregos e a salários inferiores aos dos homens. A violência doméstica acomete majoritariamente meninas e mulheres adultas, e o feminicídio é realidade no mundo todo. Também somos as que estão mais expostas ao assédio e a abusos sexuais. Anualmente milhões de mulheres de distintas idades são traficadas e submetidas ao trabalho escravo e à prostituição. Menos de 20% das mulheres do mundo são legisladoras, e isso tem implicações diretas sobre a afirmação e garantia de nossos direitos. Estes dados podem ser ainda mais problematizados se considerarmos também o dado da raça/etnia, da regionalidade, da idade e muitos outros. No Brasil, por exemplo, uma mulher negra ou indígena, pobre e idosa, tem menos probabilidade de acessar direitos básicos se comparada a uma mulher branca. Daí a importância de pensarmos as mulheres no plural, pois plurais são as nossas condições.

 

Poderíamos nos estender muito mais nessa lista da exclusão das mulheres para fundamentarmos o por quê da pergunta por uma hierarquia entre os humanos, mas o que queremos indicar é que sim, na lógica antropofágica da nossa sociedade, parece haver humanos considerados menos humanos do que outros, menos importantes, menos dignos de direitos, e esses subumanos seriam as mulheres. Essa condição de subumanidade e opressão das mulheres foi denunciada e repudiada por Jesus, que  anunciou a sua humanidade plena. É o que podemos ler em Lc 13,10-17, quando o mestre curou a mulher encurvada; ou em Jo 4, 6-30, quando conversou longamente com a mulher samaritana; ou em Mt 9,20-22, quando curou a mulher que vivia há anos com hemorragia; ou então em Lucas Lc 7,11-17, quando devolveu à vida o filho da viúva da cidade de Naim. Essas e tantas outras passagens dos Evangelhos indicam o empenho de Jesus na luta contra a opressão das mulheres. Mais do que a cura física, Jesus devolveu a elas a humanidade e a dignidade. De sua parte, as mulheres não ficaram paradas. Elas inquiriram o mestre. Elas o tocaram. Elas confrontaram os padrões sociais estabelecidos. Elas se autorreconheceram como humanas, como sujeitos de direitos, como imagem e semelhança de Deus.

 

As palavras do Evangelho estão gritando para serem proclamadas. Quem as proclamará? Afinal, como bem nos lembra João Dias de Araújo, “a vil miséria insulta os céus”.

 

Sandra Duarte de Souza

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