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A Igreja e a desigualdade de gênero¹

03/10/2017 21h41

O que se experimenta na sociedade é fruto de uma cultura que produz e naturaliza as hierarquias de gênero, que se estrutura no âmbito da família, da escola, do Estado, da mídia e da religião, dentre outros. O estatuto social diferenciado de homens e mulheres se materializa nas desigualdades de gênero observadas no Brasil. Essa desigualdade está presente também em muitos outros lugares do mundo.

Os avanços tecnológicos, a industrialização, as mudanças políticas, não foram suficientes para erradicar o abismo existente entre os sexos. As mulheres experimentam a desigualdade nas mais diferentes facetas de seu cotidiano, seja no campo econômico, político e religioso. As diferenças se agravam ainda mais se considerarmos também o dado da raça/etnia, da regionalidade, da idade e muitos outros. Existe uma explícita articulação e integração das diferentes formas de dominação.

 

O que a Igreja tem a ver com isso? 

A sociedade da época de Jesus, negava às mulheres o tratamento digno por não as reconhecer como humanas e, portanto, como sujeitos de direitos. A igualdade social não se apresentava como possibilidade para as meninas e mulheres. Jesus devolveu às mulheres a sua dignidade, a sua condição de filhas de Deus. Se fizermos uma autocrítica, constataremos vários aspectos da negação da igualdade feminina no contexto da nossa igreja. Duncan Reily afirma que o metodismo surgiu como movimento de contestação e transformação social, e desde o seu início contou com a participação de mulheres, que já em 1759 eram maioria no grupo (57,8%). Essa participação, porém, não foi tranquila. Desde o início as mulheres tiveram que lidar com o preconceito do seu tempo. Elas tiveram que lutar por representação nas estruturas eclesiásticas e na sociedade como um todo. Tiveram que fazer valer a sua voz em um contexto de negação da igualdade, de desrespeito, de não reconhecimento de sua legitimidade como líderes.

A Igreja Metodista no Brasil só reconheceu o ministério ordenado feminino na década de 1970, e ainda hoje, muitas igrejas não aceitam receber pastoras. Apesar das mulheres comporem a maioria dos membros da igreja, elas são minoria em todas as instâncias de liderança, seja em termos nacionais, regionais e locais. Raras igrejas metodistas se debruçam sobre temas como o enfrentamento da violência contra as mulheres; a participação política das mulheres; as diferenças entre a inserção masculina e feminina na educação; as desigualdades econômicas entre homens e mulheres; a desigualdade da regulação social e religiosa dos corpos de homens e mulheres etc. Isso é intrigante, se considerarmos que Jesus não se omitiu a denunciar o mal contra as mulheres e anunciar a sua libertação do jugo de uma sociedade extremamente opressora como a sociedade de seu tempo.

 

Desafios à ação missionária

Assim como a voz de Jesus denunciou a opressão das mulheres, é importante que nossas vozes se unam numa só voz missionária para denunciar toda forma de opressão.

A pergunta por caminhos a serem traçados e trilhados nas igrejas locais para estabelecimento de relações mais justas entre mulheres e homens, não quer calar. Em que medida a Igreja pode ser subsidiada e subsidiar pessoas e grupos para a promoção da igualdade de gênero, para a afirmação da dignidade de mulheres e homens, e para a denúncia da injustiça de gênero?

A Igreja ao invés de calar as mulheres precisa amplificar suas vozes. Precisa dar voz à sua experiência cotidiana de exclusão, de silenciamento e de subordinação, atuando profeticamente na denúncia de tal situação.

A Igreja também pode oferecer caminhos pelos quais ela própria e outras comunidades possam discutir as questões de gênero e promover mudanças substanciais na maneira como se desenvolvem as relações entre homens e mulheres, buscando alcançar o ideal da igualdade entre todos os seres humanos. Esse é um pressuposto básico do cristianismo. Para tanto, é necessário que a Igreja seja um espaço de denúncia do mal, bem como um espaço de solidariedade, de cumplicidade, de efetivo amor ao próximo.

Como afirmam as mulheres da Igreja Metodista Unida nos Estados Unidos, o esforço missionário da Igreja, de mulheres e de homens, deve buscar transformar as relações desiguais e romper a discriminação de gênero:

Fazemos isso porque Jesus nos chamou para apoiar as mulheres tal como Ele fez. (...) Jesus deu o exemplo. Como pessoas seguidoras de Jesus, não podemos fazer menos. Se a Igreja não está rompendo a discriminação de gênero, ela não está sendo Igreja. Somos todas [e todos] parte da herança das mulheres que trabalham pela transformação. Vamos abraçar esse legado e encorajar outras mulheres a juntarem-se a nós enquanto lutamos com as questões de gênero que afetam a todas [e a todos] nós.” (In: Gênero e Igreja, p.5)

Sandra Duarte de Souza

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¹ Uma versão ampliada desse texto encontra-se no livro Direitos Humanos: introdução e perspectivas metodistas, sob o título “Direitos Humanos, questão de gênero e intersecções com o Cristianismo”, a ser publicado pela Assessoria de Direitos Humanos da Igreja Metodista (3ª RE) em novembro de 2017.

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