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Identidade, Memória e Narrativa no Cristianismo primitivo: dos Atos dos Apóstolos aos Atos Apostólicos Apócrifo

Responsável: Paulo Augusto de Souza Nogueira

Este projeto tem por objetivo estudar a construção da memória das primeiras comunidades cristãs sobre suas próprias origens tal como desenvolvidas narrativamente nos Atos dos Apóstolos e nos Atos Apostólicos Apócrifos. O cristianismo primitivo se constitui num rico e polissêmico sistema de linguagem desde a primeira geração.

Enquanto alguns grupos religiosos no Mediterrâneo fossem grupos mistéricos, cujas doutrinas fossem guardadas a sete chaves (no caso dos mistérios de Eleusis ou do culto de Mitra), o cristianismo se constituiu um religião missionária, de articulação de disseminação de memória, de transmissão de prescrições e instruções para a vivência diária. Não é sem motivo que o cristianismo já no século II tenha produzido uma quantidade imensa de testemunhos escritos, dos mais variados graus. Neste sistema de linguagem destaca-se a construção da memória das origens por meio de narrativas de caráter ficcional. Encontramos estas memórias construídas em dois gêneros narrativos: o gênero evangelho e o gênero acta (prakseis). O primeiro se refere à origem do movimento da pregação e missão de Jesus, culminando na sua execução pelos romanos e nas visões do Cristo ressuscitado. O segundo gênero se refere à história das primeiras comunidades em torno das personagens históricas dos apóstolos, tidas como fundamentos da existência e do modo de ser das comunidades. A primeira obra deste gênero foi os Atos dos Apóstolos, produzida pelo cristianismo gentílico no final do primeiro século. Ainda que este livro seja o primeiro do seu gênero em toda a literatura cristã, ele já é configurado como narrativa ficcional. Com ficção não nos referimos a narrativas falsificadas ou a uma contraposição entre fatos históricos e as narrativas inventadas, conforme a historiografia tradicional positivista. Nós nos referimos, no entanto, ao processo de narrativa que organiza eventos, cria relações, estabelece realidades, as considera prenhes de sentido e assim as organiza na própria ação do narrar. Este elemento ficcional determinado pelo modo narrativo faz parte da própria historiografia científica e, num nível elementar, da ação de narrar, como modo cognitivo primário da cultura humana. Nos processos de construção narrativa de memória os fatos, personagens, cenários, enredos, e o cronotópos (o tempo/espaço narrativo) são organizados pelos valores vigentes do grupo e nos permitem reconstruir a noção de sujeito subjacente nos textos. Estudar a construção narrativa ficcional das primeiras comunidades cristãs nos dá um acesso privilegiado a seus valores culturais e sociais, à suas percepções de mundo, e à dimensão interna de seu discurso.

Os textos que nós analisaremos - principalmente os Atos dos Apóstolos, Atos de Pedro, Atos de Paulo, Atos de Paulo e Tecla, Atos de João, Atos de André, Atos de Tomé, e algumas das Atas dos Mártires - nos defrontarão com uma narrativa que oferece a autoimagem, a identidade que estes grupos têm de si mesmos. Em nossa análise destacaremos os seguintes aspectos:

a) Os apóstolos e seus seguidores nas narrativas são intrépidos pregadores e milagreiros. A dimensão dos milagres é acentuada nestes textos: eles são públicos e mais fantásticos que os da tradição sinótica. Há também um contexto de disputa entre os taumaturgos, um contexto compreensível de disputa entre os primeiros cristãos e seus concorrentes da religião mágica e popular helenística.

b) Os apóstolos são pregadores intrépidos em meio ao poder e na presença das autoridades. Eles frequentam pretórios, casas de senadores e atuam no Forum Romano. Isto nos parece evidenciar um cristianismo que ser se apresentar à sociedade e confrontar narrativamente o poder, ainda que com fortes adaptações.

c) Um tema central nestes textos é o chamado ao celibato e à renúncia sexual. O corpo é um espaço onde são travadas lutas simbólicas fundamentais. Desta forma lemos sobre os apóstolos adentrando nas casas e convencendo as esposas a se afastarem dos seus leitos conjugais, adotando uma relação idealizada com o apóstolo, uma relação edênica, na qual a sexualidade não desempenha qualquer função positiva. O cristianismo, do dizer de Peter Brown, usa o corpo, principalmente o corpo da mulher, para pensar o mundo.

d) Os apóstolos pregam uma cristologia que não tem nada que ver com o que será definido pelos dogmas no século IV. Nestes textos predomina o que se convencionou chamar de cristologia polimórfica. Esta cristologia enfatiza uma imagem do Cristo que assume muitas formas, que pode ser reconhecido em todas elas e não é redutível e uma única e exclusiva. Seria esta cristologia uma forma de resistência às tentativas incipientes de reduzir o Cristo a definições dogmáticas?

e) Os Atos Apócrifos têm parentesco com a forma de narrativa dos romances helenísticos, o chamado romance de aventura. Nele dois amantes idealizados são separados pelo destino e submetidos a aventuras perigosas e, após muitas idas e vindas, se reencontram para sua união amorosa. Estes elementos aparecem deslocados nos Atos Apócrifos: o apóstolo tem uma seguidora casta, que é sua contrapartida, passa por viagens, naufrágios e aventuras perigosas, e o elemento teriomórfico, caro ao romance helenista, está presente aqui também. 

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