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Polarização ainda domina relação feminismo-religião na questão de gênero, diz indicada ao Nobel da Paz

Ex-docente da Metodista diz que maioria das religiões é patriarcal e não aceita sociedade plural

23/02/2017 20h55 - última modificação 06/03/2017 18h42

Prof. Zeca é ativista feminista e estudiosa do tema

A Igreja ainda não tomou posição política firme a favor da questão de gênero, por isso religião e feminismo continuam ocupando lados opostos. A maior dificuldade estaria na resistência à mudança, pelo temor do desconhecido. “Já havia entregue minha palestra, mas caberia colocar um ponto de interrogação no tema Feminismo, Gênero e Religião – Os Desafios de um Encontro Possível. Será que esse encontro é possível?”, questionou a professora Maria José Rosado Nunes na abertura da aula magna do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista, na tarde de 22 de fevereiro último.

Militante feminista e fundadora do grupo de pesquisa Gênero, Religião e Política da PUC-São Paulo (GREPO), professora Zeca, como é conhecida, foi contundente sobre a necessidade de desafiar religiões e pesquisadores em geral sobre a ideia de que masculino e feminino são duas realidades distintas. “Imaginem um jardim com apenas dois tipos de flores! A pluralidade, inclusive, deve ser motivo de louvor à Divindade”, afirmou.

Citando estudiosos e teóricos do ativismo feminista, a docente entende que a resistência das religiões em aceitar a identidade de gênero se deve ao fato de a maioria ser patriarcal, enxergando o homem como ente universal e supremo e a mulher, como um ser inferior. Essa “humanidade binária”, porém, já começa a ser mudada pelas novas gerações, que estariam à frente de uma mudança cultural:

“Gênero é uma construção social de diferenças. Atravessa e molda toda a sociedade, e isso assusta. Como dizia Simone de Beauvoir, não se nasce homem ou mulher, mas nos tornamos homens e mulheres”, sublinhou professora Maria José Rosado, que já foi docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Metodista e elogiou a abertura da instituição à reflexão do tema. O coordenador da pasta, professor Helmut Renders, explicou que gênero é tema disciplinar da pós em Ciências da Religião.

Espaços opressores

A palestrante enumerou que convicção, conservadorismo e comodismo pautam as relações sempre tensas dos estudos da religião sobre propostas feministas. Uma das 51 brasileiras indicadas pela Associação Mil Mulheres pela Paz para receber coletivamente o prêmio Nobel da Paz em 2005, professora Zeca afirma que propostas feministas são ignoradas ou pouco relevadas entre pesquisadores da religião e o inverso também é verdadeiro. Ou seja, feministas resistem igualmente a aceitar as religiões, tidas como espaços opressores das mulheres.

O problema é que esse cenário pode desqualificar investigações científicas tanto religiosas quanto de gênero. Ela citou que no grupo de pesquisa Gênero, Religião e Política (GREPO, da PUC) foram encontradas aproximações entre os dois lados não por afinidades, mas por conflitos, o que chamou de “aproximação negativa”.

A primeira diz respeito à suspeita de que interesses religiosos ou o ativismo feminista contaminem os resultados da pesquisa e desprestigiem os autores. A segunda é que ambos os interesses também podem comprometer a investigação por criarem “guetos” (só mulheres pesquisam feminismo, só católicos pesquisam religião).

Por fim, uma terceira “aproximação negativa” que distancia religião e feminismo se refere a quem financia a pesquisa, já que recursos não-acadêmicos são vistos como ameaça à credibilidade do estudo. “A maior parte das pesquisas sobre gênero é financiada por entidades transgênero”, lamentou professora Zeca, apresentada à plateia pela professora Sandra Duarte de Souza. A docente da PUC deixou uma provocação para esse cenário: “Podemos voar como uma águia ou caminhar com passos de elefante”.

Veja imagens do evento. 

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