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Estudos de Israel Norte recontam a história da Bíblia, mostra livro de professor da Metodista

Segundo volume de ‘Arqueologia das Terras da Bíblia’ expõe que o norte era mais desenvolvido na economia e política

09/05/2016 20h56

A cidade de Rehov foi um grande apiário, fato desconhecido até então. Ou seja, não se sabia que já por volta do ano 840 a.C. a apicultura era bastante desenvolvida em Israel Norte, o que recuperou a expressão de que Canaã era realmente a terra do leite e mel.

Passagens como essa compõem o novo livro do professor da Universidade Metodista de São Paulo José Ademar Kaefer, ‘Arqueologia das Terras da Bíblia II’, que relê a história de Israel a partir do Norte. Isso leva à revisão de várias datas apontadas na Bíblia, já que que o livro toma como base o uso da arqueologia para explorar sítios arqueológicos situados na região norte, onde hoje estão Israel e Palestina, e os sítios do além Jordão, na Jordânia.

“Estamos descobrindo um novo Israel, com nova história. Daí a importância de Israel Norte, que guarda tradições mais antigas, pois teve um desenvolvimento econômico e político bem maior e anterior a Judá, no Sul”, cita professor José Ademar, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, que também finaliza o terceiro vídeo sobre as viagens de estudos das quais participou. O livro traz também entrevistas com dois importantes arqueólogos da atualidade: Israel Finkelstein e Amihai Mazar, que apresentam um panorama dos principais avanços da arqueologia nas últimas décadas na região do Levante.

Professor José Ademar Kaefer anuncia que em julho próximo participará de escavações em Meguido e visitará alguns sítios que tem estudado em Israel, Palestina e Jordânia. Irão com ele quatro estudantes Ciências da Religião da Metodista, dois mestrandos e dois doutorandos.

“Arqueologia das terras da Bíblia II” (São Paulo: Paulus, 2016) retoma alguns dos principais sítios arqueológicos tratados em “Arqueologia das Terras da Bíblia I” e apresenta outros novos, dentre os quais Tel Jezreel, Tel Rehov, Tel Pella, Tel Dã, Kuntillet ‘Ajrud e Khirbet Qeiyafa. Na análise desses sítios, procura-se dar ênfase ao desenvolvimento de Israel Norte durante a Era do Ferro.

1 – Cite alguns avanços da arqueologia que os srs. Finkelstein e Amihai apresentam.
Prof. Ademar Kaefer - Amihai Mazar é da Universidade de Jerusalém, considerada mais tradicional que a Universidade de Tel Aviv, onde trabalha Israel Finkelstein. Contudo, os dois são arqueólogos muito renomados e respeitados pela comunidade científica. Em minha opinião, os mais sérios em todo Israel e Palestina. Mazar é um pouco mais velho, já aposentado, mas tem muita experiência. Escreveu muitos livros, entre os quais o mais importante foi traduzido para o português, “Arqueologia na terra da Bíblia, 10 000-586 a.C.”, pela Editora Paulinas. Uma de suas ênfases é que procura fazer arqueologia sem se deixar influenciar por convicções políticas ou religiosas.

Amihai Mazar conhece muito bem as escavações em Jerusalém. Além dos problemas políticos e religiosos que afetam a cidade, Jerusalém é habitada e, por isso, é muito complexo escavar ali. Ademais, Jerusalém é um morro, sua geografia é muito íngreme, por isso sofreu muita erosão com o passar do tempo. Razão pela qual é muito difícil conseguir fazer boa leitura das escavações do seu terreno.

Um dos últimos sítios arqueológicos que Mazar escavou foi Tel Rehov, em Israel Norte, onde descobriu coisas interessantes. Por exemplo, de que, provavelmente, a cidade pertencia à família de Jeú, conhecido em 2Rs 9,10 (Segundo Reis, capítulo 9, versículo 10), como aquele que restaurou o javismo em Israel. Outra coisa que Mazar encontrou em Rehov é de que ali se praticavam cultos a divindades totalmente desconhecidas até então. Por fim, Mazar encontrou em Rehov um grande apiário, fato também desconhecido até então. Ou seja, não se sabia que já por volta do ano 840 a.C. a apicultura era bastante desenvolvida em Israel Norte. Isso recuperou a expressão de que Canaã era realmente a terra do leite e mel.

Israel Finkelstein é um dos maiores arqueólogos e pesquisadores da geração mais nova. Tem sua base no sítio de Meguido, onde já escava há mais de duas décadas. Finkelstein fez de Meguido espécie de laboratório, principalmente para estabelecer com maior precisão as novas datações da história em todo Levante. Ele também coordena vários projetos, tanto em sítios no deserto do Neguev, onde procura pesquisar as mudanças climáticas que ocorreram no final da Era do Bronze e início do Ferro (1300-1100 a.C.), como no estudo do DNA, para entender as migrações que ocorreram nesse período. Faz duas semanas saiu reportagem no New York Times sobre o resultado de pesquisa que ele coordena sobre os ôstracos encontrados no sítio arqueológico de Tel Arad. A análise da escrita nesses ôstracos, com auxílio de especialistas e da tecnologia moderna, comprovou a existência de um grande corpo literário em Judá já por volta do século VII a.C.

Finkelstein escreve e publica muito. No Brasil ele tem dois livros, o mais recente, “O Reino Esquecido”, traduzido por nossos alunos da Metodista (Élcio Mendonça e Silas Klein) e publicado no ano passado pela Editora Paulus. É o que temos de mais atual no campo da Bíblia e arqueologia e que irá orientar a pesquisa futura nesse campo.

2 – O que se destaca em Israel Norte para merecer a ênfase do novo livro?
Prof. Ademar Kaefer - A história do povo da Bíblia sempre foi lida a partir de Judá, mais especificamente da capital Jerusalém. Estamos invertendo esse processo. Começamos a ler a história a partir de Israel Norte. Para essa leitura, fazemos uso de importante ferramenta, a arqueologia. E o processo está sendo muito interessante, pois estamos descobrindo um novo Israel, com nova história. Um dos caminhos para essa leitura é o estudo dos sítios arqueológicos situados na região norte, do que é hoje Israel e Palestina, e os sítios do além Jordão, que ficam no atual país da Jordânia. Toda essa área foi dominada por Israel Norte durante o auge do seu desenvolvimento.

Estudamos os sítios arqueológicos com seus achados e depois buscamos abstrair possíveis informações remanescentes da Bíblia. Muitas vezes as informações não batem, pois a Bíblia foi escrita muito depois dos fatos nela narrados. Contudo, é possível encontrar muitas informações preservadas por meio de tradições que nasceram em Israel Norte e que mais tarde foram postas por escrito no Sul, Judá. Daí a importância de Israel Norte, que guarda tradições mais antigas, pois teve um desenvolvimento econômico e político bem maior e anterior a Judá. Além disso, foi ali que se originou o que mais tarde viria a ser chamado de Israel, representando tanto o sul como o norte.

3 – Em palestra na Metodista em 2015, sr. Finkelstein mostrou contradição nas datas apontadas pela Bíblia e as encontradas pela arqueologia. Isso é abordado de que forma no novo livro?
Prof. Ademar Kaefer - Abordo indiretamente, pois já foi tratado num outro livro que escrevi em 2015, “A Bíblia, a Arqueologia e a História de Israel e Judá”, também pela Editora Paulus. O exemplo mais comum são as construções encontradas em Meguido, Hazor e Guezer, que conforme 1Rs 9,15 (Primeiro Reis, capítulo 9, versículo 15) foram feitas por Salomão (970-930) e assim confirmadas pelos antigos arqueólogos, como Yigael Yadin e outros. Mas Israel Finkelstein e sua equipe, com novos métodos bem mais precisos, alocaram essas construções para cerca de 80 anos mais tarde e atribuídas ao rei Acab de Israel Norte (873-852). Essas conclusões também foram confirmadas em escavações posteriores na capital Samaria e em Jezreel, cidades de domínio exclusivo dos reis omridas, onde foram encontradas construções com a mesma arquitetura de Hazor, Meguido e Guezer.

Há outros vários exemplos de datações que precisam ser revistas, entre as quais a atribuída à história de Saul, ao surgimento da tradição do Êxodo e a do surgimento do próprio Israel. Todas precisam ser alocadas para mais tarde.

4 – Quando sairá o 3º vídeo? Estão disponíveis onde?
Prof. Ademar Kaefer - O próximo vídeo já está pronto. Faltam alguns ajustes, como incluir algumas imagens que colhi em minha recente estadia em Israel. Esse vídeo é o número 3 (Arqueologia Bíblica 3). Já é quase uma série e trata basicamente do conteúdo presente no livro, só que com imagens dos sítios. Estará disponível na Verbo Filmes (www.verbofilmes.org.br) e em algumas livrarias a partir de junho. Mas, também comigo (jademarkaefer@gmail.com).

5 – Quais os próximos passos das pesquisas do Programa de Ciências da Religião da Metodista?
Prof. Ademar Kaefer - Este livro, assim como os DVDs e outros livros anteriores, é fruto do trabalho do nosso grupo de pesquisa “Arqueologia do Antigo Oriente Próximo” (portal.metodista.br/arqueologia), do Programa de Ciências da Religião aqui da Metodista. Temos um bom grupo de mestrandos e doutorandos, e agora também de pós-doutorandos, que há vários anos pesquisa os sítios arqueológicos do Levante, principalmente de Israel, Palestina e Jordânia. Temos realizado seminários e trazido gente de renome internacional, como foi o caso do Israel Finkelstein em setembro/outubro do ano passado.

Para julho próximo, aproveitando as férias, vamos participar por três semanas das escavações em Meguido e visitar alguns sítios que temos estudado, em Israel, Palestina e Jordânia. Irão participar comigo das escavações e da visita aos sítios quatro estudantes do Programa de Pós, dois mestrandos e dois doutorandos.

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
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