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Combate ao capitalismo integrou história do golpe de 64, associa Michel Lowl

25/09/2014 23h05 - última modificação 07/10/2014 14h00

O capitalismo e seus antagonistas atravessam a história e marcaram também o golpe militar no Brasil. Uma das primeiras entidades a legitimar a ação de 1964, a igreja alinhou-se logo depois entre os principais opositores não só à ditadura política como ao modelo econômico adotado. O clero atribuiu ao capitalismo a responsabilidade pelo desemprego e empobrecimento do país à época do conhecido milagre econômico, que acabou concentrando renda. Surgiram desse movimento correntes como a “Teologia da Libertação”, do teólogo Leonardo Boff, e livros como “A Idolatria do Mercado” de Hugo Assmann e “A Idolatria do Capital e a Morte dos Pobres”, de Jung Mo Sung.

Foi com a citação dessa passagem que o diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique da França, professor Michel Löwl, fez a vinculação entre religião-capitalismo e o golpe militar brasileiro. Embora a resistência da igreja católica ao golpe tenha tomado como referência o Antigo Testamento, em que profetas denunciavam a idolatria a bezerros de ouro e deuses de estátuas, o episódio pode ser espelhado em igual crítica contra o capitalismo feita pelo filósofo Walter Benjamin, segundo Michel Löwl.

“Benjamin pregava que o capitalismo é essencialmente religioso, na medida em que promove a adoração ao dinheiro, é um culto permanente ao poder e à ostentação que esse dinheiro traz, além de ter caráter culpabilizador. Como o dinheiro leva ao endividamento, há uma culpa que deve ser punida com sofrimento”, discorreu Michel Löwl, também membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Ele encerrou com a palestra “O Capitalismo como Religião” a XVIII Semana de Estudos da Religião, que neste ano abordou o tema “Religião e Poder: Os 50 anos do Golpe Militar”, dias 23, 24 e 25 de setembro.

 

Expiação europeia          


Professor Löwl centralizou sua palestra no sociólogo e filósofo alemão de visão materialista Walter Benjamim porque entende que seus escritos, datados de 1921, são bastante atuais. Mencionou o que ocorre com a União Europeia, onde Grécia, Itália, Portugal e Espanha sofrem com miséria e alto desemprego porque precisam pagar dívidas de empréstimos que fizeram para seus ajustes fiscais. Essa penalização orçamentária é imposta por organismos internacionais de crédito como ajuste de contas de períodos em que esbanjaram dinheiro público, na visão de Michel Löwl – vindo daí o traço da culpabilidade e punição do capitalismo como religião.

O filósofo Walter Benjamin não aceita o fatalismo apregoado pelo conterrâneo alemão Max Weber, um dos fundadores da Sociologia, segundo quem não há uma reforma para o capitalismo (“é um deus poderoso e onipresente”). Tão pouco concorda com o comunista Karl Marx, porque acha que uma S/A (sociedade por ações) é praticamente um socialismo. Benjamin prefere a saída dada pelo teórico anarquista Gustav Landauer, de que só se combate o capitalismo distanciando-se dele.

“A saída seria ir embora das grandes cidades e afastar-se do mundo industrial moderno, para viver em comunas rurais produzindo artesanato”, citou professor Michel Löwl.

O encerramento da Semana de Estudos da Religião de 2014 também contou pela manhã com a exposição “Questionamentos e articulações do poder na Bíblia”, sob responsabilidade dos professores doutores Haroldo Reimer (UEG) e Tércio Machado Siqueira (Metodista).

 

Diáspora africana e a raça inferior         

 

Na segunda noite da SER, a profª drª Dianne Marie Stewart, da Universidade Emory, dos Estados Unidos, explicou a luta dos negros para reescrever estudos que durante séculos prevaleceram sobre teologia envolvendo povos africanos que se deslocaram para as Américas e Caribe. Ela própria dedicada há anos ao tema, Dianne lamentou o preconceito arraigado pelos brancos de que negros eram canibais e constituíam raças inferiores, além de suas crenças e costumes não passarem de selvagerias e bruxarias.

“Tivemos que reteorizar essas abordagens racistas, colonialistas e escravocratas de que os negros eram um fardo e só praticavam magia e paganismo”, expôs a professora de Emory, que entre 2006 e 2007 realizou pesquisa de campo na República Democrática do Congo, onde trabalhou com História Religiosa na África Central.

Segundo ela, a difamação dos negros como indolentes, antiintelectuais e libidinosos era disseminada por políticos pró-escravidão e pró-segregação como forma de manter controle sobre a mão-de-obra dos escravos.  Com isso, prevaleciam sobre a defesa dos pró-abolicionistas de que os africanos eram éticos, sensíveis e com religiosidade nata. A religião, por sinal, foi forte impulsionadora da rebelião social que resultou no movimento de reconhecimento civil “black power”, lembrou a professora, que falou sobre “Religião e Poder na Diáspora Africana”

Somente no século XXI cientistas cognitivos conseguiram derrubar rótulos pejorativos do Ocidente cristão associados aos negros, sobretudo o que sempre substituiu as ações espirituais dos africanos pela palavra magia.

“Os cientistas descobriram que religião é uma ação humana associada às funções cerebrais. Ou seja, o hardware cerebral é igual em todas as raças. Não adianta perguntar a um cientista cognitivo se é Deus, santo ou ancestral, pois as mesmas estruturas intuitivas e cerebrais atuam nas mais diferentes mentes quando se trata de espiritualidade”, professou a pesquisadora da Emory University.    

Na palestra da manhã de 24 de setembro o tema em destaque foi “Religião, Poder e Cultura Popular, com o prof. dr. Paulo Augusto Souza Nogueira.

 A Semana de Estudos da Religião é um congresso científico anual, de caráter internacional, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo. Foi criada em 1997 para ser um fórum de debates acadêmicos sobre temas importantes no universo das religiões no Brasil e no mundo e de questões teóricas e metodológicas. Desde a primeira edição, traz pesquisadores de destaque no Brasil e no exterior.

 

 

 

 

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