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Estudos de imaginários religiosos

RENÚNCIA SEXUAL E PRONTIDÃO AO MARTÍRIO: NARRATIVA, FICÇÃO E CORPOREIDADE NO CRISTIANISMO PRIMITIVO

I - EMENTA
Estudo comparativo e histórico-antropológico de complexos imaginários religiosos com o objetivo de compreender a sua relação com diferentes formações sócio-culturais.

II – EMENTA ESPECÍFICA
O cristianismo primitivo nos apresenta um problema de difícil solução: por que um grupo religioso surgido nas bordas do Império Romano e de ampla difusão entre as camadas populares das mais diversas regiões do Mediterrâneo se apresenta em seus escritos por meio de personagens idealizados como sexualmente castos e prontos a entregar suas vidas à morte em decorrência de seu testemunho religioso? Aos olhos do leitor moderno estes temas não seriam nada atrativos em termos de propaganda religiosa. Mas a despeito disso e/ou por causa disso o cristianismo cresceu vertiginosamente.

Esta narrativa sobre homens e mulheres castos e destemidos representa de fato a configuração ética e social dos primeiros cristãos? Ou há por detrás destes escritos - nos referimos, em especial, às narrativas dos Atos dos Apóstolos, dos Atos Apostólicos Apócrifos e das Atas dos Mártires – uma construção ficcional idealizada das práticas das primeiras comunidades? E caso se trate efetivamente de idealização de comportamento, quais os motivos que levaram à escolha deste repertório e destes enredos? Chama-nos a atenção que esta insistência na pureza sexual (nos mais diferentes graus) e na disposição ao testemunho público, mesmo diante do risco da morte, nos apresenta um grupo religioso que problematiza o corpo e a sexualidade. Em relatos importantes de Martírio - seja o ficcional de Tecla ou o narrado em 1ª pessoa de Vibia Perpetua - as mulheres martirizadas são masculinizadas e apresentam relações conflitivas com os homens. Sua sexualidade é testada até os limites, da mesma forma que os limites de suas vidas. Nossas fontes oferecem um vasto corpo narrativo sobre homens e mulheres cujos espaços discursivos de construção de identidade se encontram em seus corpos, na luta quotidiana contra o desejo ou na provação pública no anfiteatro.

Sexo e martírio nos parecem coisas muito diferentes, mas ambas se articulam em torno de um espaço simbólico específico: o corpo. É nesta rediscussão narrativa dos limites do corpo – na sexualidade e na ameaça da morte – que os primeiros cristãos fazem uma profunda e desconcertante construção do sujeito e da subjetividade. Neste exercício de “pensar o corpo”, parodiando Peter Brown, e de controlar os desejos e os temores o cristianismo primitivo desenvolveu representações do self densas e que não encontram precedentes nas religiões do seu entorno: este tipo estranho de cristianismo lança os fundamentos da subjetividade ocidental de uma forma inusitada.

Neste curso pretendemos explorar textos narrativos que problematizam o corpo, a sexualidade, do homem e da mulher comum, e a violência com que eram tratados os praticantes de religiões ilícitas, como o cristianismo, até o Edito de Milão, e como neste processo se desenvolve uma noção específica e impactante de sujeito.

III – OBJETIVOS
a) Estudar textos narrativos do cristianismo primitivo que relacionem os temas da renúncia sexual e da prontidão ao martírio. b) Resenhar e discutir a bibliografia contemporânea sobre o tema. c) Delimitar e estudar conceitos teóricos - como ficção, memória, corporeidade e limite, entre outros - para a discussão da problemática.

IV – CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
1) Narrativa ficcional na religião: textualização do corpo e construção do self. 2) O problema dos limites: a relação entre pureza sexual e violência. 3) Sofrer por Cristo e controlar o corpo em Paulo de Tarso. 4) Corpos mutilados e controle do desejo no Evangelho de Mateus. 5) Pureza sexual e testemunho violento no Apocalipse de João. 6) Pureza sexual, intrigas domésticas e violência nos Atos de André. 7) O corpo violado – corpo selado nos Atos de João. 8) Virgindade, violência e rebelião de mulheres nos Atos de Tecla. 9) Víbia Perpetua: uma matrona em conflito com os homens.

V – METODOLOGIA E AVALIAÇÃO
As sessões alternarão exposições docentes e seminários com resenhas e debates da bibliografia sobre o tema e análise e discussão de textos selecionados do cristianismo primitivo.
A avaliação será feita a partir da participação no curso, que incluirá também a produção de resenhas e análises para debate com o grupo.

VI - BIBLIOGRAFIA
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