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Expectativa de movimentos sociais com governo Lula foi frustrada

Integrantes do MST e Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) participaram do X Encontro de Movimentos Populares e Cidadania

07/05/2015 18h50 - última modificação 07/05/2015 20h58

Vitor Mendes Monteiro (à dir.) e Carolina Vigliar durante X Encontro de Movimentos Populares e Cidadania
Vitor Mendes Monteiro (à dir.) e Carolina Vigliar durante X Encontro de Movimentos Populares e Cidadania

Quando o PT (Partido dos Trabalhadores) chegou ao poder, em 2003, com a eleição de Luiz Luiz Inácio Lula da Silva, os movimentos sociais acharam que era chegado o grande momento de suas reivindicações serem atendidas. Mas, tirando alguns avanços pontuais, não foi o que ocorreu: com a aliança do PT com partidos mais conservadores para sua base governista, as lutas dos movimentos sociais sofreram diversas derrotas. Esta é a opinião de dois integrantes de movimentos sociais, Vitor Mendes Monteiro, 24, integrante do núcleo Carlos Marighella, núcleo do MST no Grande ABC e Carolina Vigliar, uma das coordenadoras em nível nacional e de Diadema do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que participaram na terça-feira dia 5 de maio, do X Encontro de Movimentos Populares e Cidadania, realizado pelo Núcleo de Formação Cidadã, em parceria com a Cátedra Gestão de Cidades, o Centro de Sustentabilidade e o Núcleo de Arte e Cultura da Universidade Metodista de São Paulo.

Vitor, que tem 24 anos, se formou em Geografia na Fundação Santo André. Foi lá onde ele se aproximou do MST, onde milita há 6 meses, desde que terminou a graduação. Para ele, uma primeira derrota dos movimentos rurais já está na própria Constituição de 1988: “Apesar de ter avanços, na questão agrária ela não teve um grande avanço. Ela manteve o direito a propriedade privada como uma coisa sagrada. Ela coloca a questão do uso social da terra, mas isso não é cumprido, tem muita terra parada, improdutiva, ou produtiva com coisas que a gente considera problemáticas, os transgênicos, agora o eucalipto transgênico”. Já nos anos 90, o movimento ganha força, em oposição aos governos Collor e FHC, por meio de diversas ocupações de terra. Mas, no final dos anos 90, a bancada ruralista se rearticula e o agronegócio ganha apoio do governo FHC.

“Com a entrada do PT e do governo Lula essa base [do MST] se amplia e muita gente que não tinha terra, que trabalhava em alguma fazenda ou os boias-frias viram ali naquele momento que agora vai ter reforma agrária, porque o PT tinha um discurso no seu início, ele tinha uma relação de diálogo com o MST, e com a entrada do Lula no poder a esperança era essa. O problema é que não aconteceu, o PT ele fez uma escolha de coalizão, de tentar não desagradar ninguém, mas é claro que nessa coalizão os grandes capitalistas saem ganhando, porque eles já têm a força na mão deles e o governo do PT não fez a reforma agrária”, explica Vitor, que vê nesta situação o principal motivo para o esvaziamento da base do MST, mais do que o Bolsa-Família, por exemplo, que para Vitor seria algo paliativo, mas que não muda a vida das pessoas.

Transgênicos

Mas a luta do Movimento não se restringe à reforma agrária. Outras questões relacionadas ao agronegócio também são combatidas, como a recente lei que derrubou a obrigatoriedade do selo de transgênicos nas embalagens dos produtos que usam alimentos geneticamente modificados. “Claro que é um problema, porque se a pessoa ela passa a ter a consciência de que os transgênicos são um problema e ela fala ‘olha, talvez eu não consiga ir lá e apoiar um assentamento do MST, mas eu vou pelo menos comprar produtos que não tenham transgênicos’, ela não consegue saber o que tem e o que não tem, ela vai se alimentar sem saber o que é que aquele produto contém. Os transgênicos, os testes deles não são suficientes para se ter certeza dos seus efeitos, porque esse tipo de produto modificado geneticamente precisaria de muito tempo para você saber de fato quais são as consequências, positivas e negativas. E a gente não tem esse tempo. Eles são ali testados e já são colocados no mercado, então é um problema”. Vitor levanta também a questão da autorização do plantio de eucaliptos transgênicos. “O eucalipto impede aquele sistema que eu comentei de plantar várias espécies para uma proteger a outra, o sistema agroflorestal, porque como ele usa muita água da terra, muitos nutrientes da terra você não consegue plantar outras coisas junto. Ou seja, eucalipto já é uma monocultura, transgênico talvez vá ter impactos piores ainda, então ele reforça o que de pior tem no agronegócio”. O tamanho da bancada ruralista no Congresso é apontado como o motivo para leis como essas estarem sendo aprovadas.

Luta por moradia

As leis também não parecem estar ao lado do movimento por moradia. Ou, quando existem não são cumpridas, segundo Carolina Vigliar, do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que surgiu em 1999 em Pernambuco, e hoje atua em 13 estados. Carolina também enxerga uma decepção com o governo Lula. “Eu acho que a luta era muito forte, do ponto de vista dos movimentos, até o governo Lula era uma luta muito forte, quando o Lula se elegeu eu acho, é uma avaliação minha, a luta deu uma recuada, porque os movimentos acreditavam que haveria avanços, esses avanços não aconteceram, claro, aconteceram alguns avanços pontuais, mas na prática, do ponto de vista numérico, com as famílias que a gente trabalha, que são famílias muito pobres não teve esse avanço que a gente esperava, nem nas cidades, nem no campo. E agora eu acho que os movimentos estão voltando a se organizar de novo com mais força.” A união dos movimentos em bandeiras comuns é apontada como a única chance de avanço das reivindicações sociais.

Carolina também aponta a importância da aproximação com a universidade e o ambiente acadêmico. “Do ponto de vista da academia a gente acha que é uma relação muito importante porque a gente tem muito o que aprender com a academia e a academia tem muito o que aprender com a gente, a partir da nossa experiência prática. A mídia os grandes meios de comunicação eles costumam falar muito mal dos movimentos, criminalizar mesmo, e aí poder falar, aonde quer que seja, da nossa versão dos fatos é importante”, finaliza.

Esta matéria foi publicada no Jornal da Metodista.
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