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Voto Consciente lembra o cidadão de seu dever

Às vésperas das eleições municipais, vale uma reflexão sobre a democracia no Brasil. Como os brasileiros encaram, hoje, o direito de votar? Será que o cidadão médio em nosso país vota consciente do poder que tem seu voto?

E os homens públicos, exercem seu papel de representantes do povo, como deveriam?

Rosângela Giembinski, psicóloga, fundou o Movimento Voto Consciente junto com outras cinco pessoas, dos anos oitenta como uma tentativa de educar a população para exercer seu direito democrático.

A primeira medida foi cobrar dos políticos que cumprissem seu papel, contribuindo para a sociedade com políticas que beneficiassem uma parcela maior da população. Para isso, juntou alguns voluntários e decidiu acompanhar a Câmara Municipal de São Paulo. Os resultados das pesquisas eram publicados em boletins e mostrados a quem quisesse ver.

Faltava esses resultados serem debatidos. Uma organização Não-Governamental argentina veio com a idéia dos Fóruns Deliberativos, que nada mais eram que um espaço, aberto ao público, onde o cidadão comum podia pronunciar-se.

Dizer o que achava que deveria ou não ser votado na Câmara Municipal e debater sobre assuntos polêmicos ligados ao governo. Os fóruns eram realizados em ginásios, escolas, empresas. A intenção era politizar.

Nesta entrevista, Rosângela Giembinski conta como surgiu o Movimento Voto Consciente e fala um pouco sobra a democracia no Brasil e na América Latina.

Fórum de Cidades - Como surgiu o Movimento Voto Consciente? Onde?

Rosângela Giembinski - O Movimento Voto Consciente surgiu em São Paulo, em 1987 , paralelo à discussão sobre a nova Constituição. A princípio, era um grupo de pessoas que já havia trabalhado com filantropia, em várias áreas. Percebendo que os problemas da cidade eram grandes foi à câmara municipal ver o que os políticos estavam fazendo para resolver esses problemas. Já que as pessoas tomavam medidas isoladas, distribuindo agasalhos e tudo mais, elas resolveram ir até os políticos para ver o que eles estavam fazendo. Afinal, são eleitos para isso. E assim começou, com o acompanhamento da Câmara Municipal de São Paulo. .

FC - Quantas pessoas havia no início?

RG - A primeira idéia básica foi com cinco pessoas. Mas elas conseguiram reunir muita gente desde o início. Já na primeira reunião havia mais de cem pessoas. Depois, na hora de distribuir o trabalho, sempre ficam menos. Foi uma idéia muito bem aceita, desde o princípio.

FC - Com quantos voluntários conta o MVC? Quem são essas pessoas?

RG - Somos, hoje, 48 conselheiros. Em São Paulo, temos mais de cem colaboradores. Tem estudante, garçom, aposentados, advogados...Pessoas de todas as classes

FC - Como é feito o trabalho de vocês?

RG - Hoje, o MVC tem vários projetos. O principal é o acompanhamento da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa com voluntários. Temos vários voluntários lá assistindo as reuniões, acompanhando os projetos. Depois, fazemos as notícias, colocamos no site e distribuímos para as pessoas. Participamos também de reuniões com associações e entidades. Temos ainda outro projeto de fóruns de cidadania. É um trabalho de conscientização, discutimos com as pessoas o que é política, porque elas não participam. Alem disso, temos um projeto de acompanhamento da Cúpula das Américas. É o acompanhamento dos acordos entre os governos dos países.

FC - Onde e como ocorreu o primeiro fórum deliberativo? Como surgiu a idéia?

RG - Essa idéia foi um convite de uma organização Argentina, chamada Consciência, que conheceu nosso trabalho em um encontro de ONGs no Brasil. Ela convidou-nos a conhecer esse projeto. Gostamos e desenvolvemos. Não é uma metodologia nossa.

FC - Qual o objetivo da parceria do MVC com a rede Interamericana?

RG - Essa organização que nos convidou a fazer o Fórum estava organizando uma rede de entidades para trabalhar com a democracia. A idéia era conhecer, em outros países, outras organizações que também trabalhavam para o fortalecimento da democracia. Nos encontramos, discutimos, em cada país, quais foram os avanços, os projetos, discutir o que podemos fazer juntos..

FC - Como são divulgados os resultados das pesquisas que o MVC realiza na câmara e na assembléia?

RG - Nós sempre fazemos boletins impressos, e temos um boletim eletrônico na internet. Hoje, temos também uma grande divulgação através dos meios de comunicação tradicionais. Rede Globo, Cultura, Estado, enfim...temos um alcance grande.

FC - Qual a tiragem dos boletins?

RG - É de 10 mil exemplares por edição. Mas, como vão para entidades, essas informações são repassadas sempre.

FC - Qual a resposta do público ao trabalho divulgado por vocês?

RG - Recebemos muitas cartas. Felizmente, positivas. As pessoas gostam da idéia. Ligam perguntando, querendo formar outros grupos. Há um apoio muito grande, principalmente por parte da imprensa.

FC - A senhora nota algum avanço dado pela sociedade brasileira, na última década, em relação à democracia? Como esse avanço se expressa nas últimas eleições?

RG - Com certeza, a consciência é maior, as pessoas participam mais. Em relação às eleições, o Brasil é muito novo. Temos apenas 35 anos de eleições. Então, de fato, é pouco tempo para esse exercício. Mas, fazendo uma análise histórica, esse avanço se expressa também nas eleições. O Brasil é um país onde quase 90% da população votante vota. Tudo bem que o voto é obrigatório, mas existem países, como a Guatemala, a Venezuela e o Paraguai, onde o voto é obrigatório e apenas 50% dos votantes comparecem. (a porcentagem de eleitores que comparecem ás urnas nesses países é de, respectivamente, 33,3%, 49,9% e 45,4%)

FC - O que mudou e o que falta mudar?

RG - Está mudando essa consciência da importância da participação. Mas ainda é uma minoria consciente. O índice de participação na população em geral é pequeno ainda.

FC - O que mudou na democracia na América latina?

RG - Temos, hoje na América Latina uma maioria de países democráticos. Mas a democracia ainda é para nós um exercício. Não são dez ou quinze anos de democracia que irão fazer diferença. É muito pouco em se falando de história.Existem mecanismos hoje muito utilizados em vários países para fortalecer a democracia, por exemplo, voto direto, uso de referendo. No caso da Venezuela, por mais que possamos questionar, foi feito um referendo para decidir se o presidente fica ou não. Em toda a América pode-se perceber avanços. Mas existe um longo caminho a ser percorrido ainda.

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