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Pontes para uma cidade humana

                                                                                     * Anderson Rafael Nascimento

O debate sobre os limites dos projetos de nossas cidades vieram à tona, mais uma vez, no dia 17 de março. O volume de água que caiu do céu não foi pouco e demonstrou o tamanho da insustentabilidade que nossos projetos urbanísticos sempre tiveram. São Paulo e a região circunvizinha, nesse contexto caótico, não apresentam soluções compartilhadas e dialogadas.

As cidades são criações humanas e o locus de vida da maior parte da população mundial. E, assim como o Homem, a cidade é viva e dinâmica. Todavia, nesse dinamismo, a eleição de prioridades de desenvolvimento ocorre no campo de disputas entre as forças do capital e do trabalho. O lado mais forte, claro, vence o embate e, de acordo com seus interesses, elege as prioridades.

Como exemplo da disputa temos a especulação dos espaços, que demonstra que o dinamismo da cidade é direcionado para os interesses dos setores especuladores, normalmente os imobiliários. Via de regra é que esses interesses estão relacionados ao uso do território e de seus recursos até as últimas consequências, retirando tudo o que for possível no menor prazo de tempo. Essa visão é insustentável porque as políticas públicas locais estão submetidas e relacionadas ao interesse especulativo do capital. Ou seja, o problema das cidades atingidas pelas enchentes não é falta de planejamento, mas o excesso de experiências de planejamento de curto prazo e o insucesso de todas. Os moradores da cidade, nesse contexto, estão à mercê dos resultados e das consequências desse jogo especulativo.

Para olhar a dimensão humana da cidade, é necessário romper com a prioridade dada ao ciclo especulativo de curto prazo. Mas isto somente acontecerá quando o futuro das cidades for decidido por seus maiores interessados: os moradores.

Com a mudança, a cidade terá o tamanho, em sentido metafórico, de seus cidadãos e de suas necessidades. Olhará, inclusive, para crianças, adolescentes e jovens e seus desejos para a cidade em que querem morar ao longo de suas vidas. Devemos olhar para a cidade que queremos a longo prazo e adequar os instrumentos e as ações urbanísticas dentro dessa perspectiva. A sustentabilidade nessa visão dialogada é algo a ser construído com exercício contínuo de escuta e ação que extrapole o tempo de vida de todos os moradores atuais.

As enchentes demonstraram que a solução não é a construção de projetos de engenharia para a contenção das águas. O necessário é a construção de pontes entre a sociedade e o Estado, a fim de possibilitar o trânsito livre entre esses dois, permitindo ainda a criação de laços de compromisso mútuo. Nessa visão os problemas como as enchentes, serão vistos como fatos para mudar as estratégias de desenvolvimento de nossas cidades. Nessa perspectiva, a engenharia é o meio de ação, não a finalidade dos governos.

*Anderson Rafael Nascimento é administrador público e professor da Faculdade de Administração e Economia da Universidade Metodista de São Paulo.

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