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Educação, bem comum e nova economia

Quem tem o hábito de ler e reler os livros bíblicos conhece a beleza do texto denominado Evangelho de João. Beleza de literatura, em cujo interior se portam mensagens de mudança profunda para a vida de pessoas e instituições. Uma das traduções, chamada A Bíblia de Jerusalém, teve a sabedoria em dar à primeira parte do livro de João o nome de O Anúncio da Nova Economia. Por que Economia? Quem acompanha o texto vê que o homem anunciador, que se define como aquele que “clama no deserto”, testemunha a chegada da graça e da verdade, Jesus, que passa a operar acima das normas e regulamentos temporais. Para tanto, lê-se que o filho de Deus se coloca e inova em face de certos desafios antes impensáveis: o debate com a tradição, o encontro revelador com a mulher samaritana, os primeiros milagres, as tomadas de decisão sobre o destino e a expulsão dos vendedores do templo, necessária como preparação do espaço para a Páscoa. O texto ensina e o anunciador, João, começa a educar ouvintes e seguidores para uma nova organização da vida, que passa a incluir os diferentes, muitas vezes enjeitados, que desafia a cultura instituída, que levanta a fé acima das normas e submissões, que coloca o mercado e os mercadores no seu devido lugar. Então, nova economia é a organização da vida a partir do novo que instaura valores de efetiva mudança e que visa o bem comum, base da redenção de pessoas e instituições.

Entre 1989 e 2008, concordam hoje os estudiosos, em todo o nosso mundo clamou-se no deserto quando se desejou reverter a violência da poluição sobre a Terra e quando se mostrou que o tipo de economia dominante nos levaria a maior miséria, fome e destruição ecológica. Foi uma economia que regulamentou o salário e os investimentos dos governos e desregulamentou a especulação. Também se clamou no deserto a favor de transparência, participação e controle nos gastos com grandes obras, armamentos e intermediação de compra e venda de remédios e alimentos. Hoje todos sofrem o resultado, pois os recursos devidos a alimento, educação e demais serviços para o bem comum são consumidos no pagamento de grandes dívidas internacionais, algumas vultosas e anônimas como areias do deserto. Essa economia, que implodiu em 2008, foi a favor de poucos e contra muitos.

Reestruturar a casa e a vida pela e para a cidadania – portanto, uma nova economia - é trabalho de educação social, escolar e universitária, que se realiza dentro e fora das comunidades, continuamente. Trabalho de fé e de ciência. Uma educação que mobiliza e toma decisões. Educar, hoje, implica instaurar coletivamente o “novo permanente”, que porta o nascimento da consciência e do sentimento do Mundo como lugar de exercício do bem comum para todos e todas. Cabe lembrar que também a Educação, como um todo, sofreu o ataque das idéias dominantes e de suas normas de submissão econômica e cultural. Em muitos casos, com o sucesso dos atacantes poderosos. Portanto, instituições comprometidas com o projeto histórico de fato inovador, não trabalharão somente para remendar ou dar colherinhas de chá para a economia e a sociedade impactadas. De fato, terão de testemunhar, como propôs o evangelho de João, que seus atos de fé, também educativos, tratarão de encarnar no cotidiano das relações sociais os frutos do Espírito, “que desceu como uma pomba” sobre o mundo, bem como negarão a mercancia das pombas no interior das instituições e organizações que devem servir ao bem comum. As gerações que se educam agradecerão.

*Luiz Roberto Alves é professor e coordenador da Cátedra de Gestão de Cidades da Universidade Metodista de São Paulo.

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