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FAPESP cria grupo para formular políticas de adaptação às mudanças climáticas

17/08/2009 17h54

Um grupo de cientistas e formuladores de políticas públicas iniciou, no último mês de julho, na sede da FAPESP, na capital paulista, um painel interdisciplinar que irá traçar um mapa das vulnerabilidades da Região Metropolitana de São Paulo frente aos efeitos do aquecimento global, com o objetivo de subsidiar políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas.

Liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o Painel Internacional de Especialistas em Megacidades, Vulnerabilidade e Mudança Climática Global, que prosseguirá até o dia 22 de julho, já foi realizado no Rio de Janeiro. O objetivo é mapear as vulnerabilidades nas duas maiores capitais brasileiras.

De acordo com um dos coordenadores do painel, o climatologista Carlos Afonso Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em todo o mundo – e em especial no Brasil – a opinião pública já está esclarecida sobre os impactos iminentes das mudanças climáticas globais e tem uma boa percepção sobre a necessidade de ações de mitigação das emissões de gases de efeito estufa. Mas essa clareza não é a mesma em relação às ações de adaptação ao aquecimento global.

“No entanto, mesmo que as ações de mitigação obtenham um sucesso além de qualquer expectativa, a necessidade de ações de adaptação é absolutamente incontornável. Por isso é importante agora destacar as vulnerabilidades nas grandes metrópoles”, disse Nobre, que é coordenador executivo do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) à Agência FAPESP.

Além de Nobre, participaram da abertura do painel o coordenador do evento pelo lado da Unicamp, Daniel Hogan – coordenador do tema de Mudanças Climáticas e Cidades, da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e também do PFPMCG –, Magda Lombardo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e o presidente da FAPESP, Celso Lafer.

No primeiro dia de debates, o evento teve as exposições de três especialistas: Paulo Saldiva, da Universidade de São Paulo (USP), Radley Horton, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), e David Dodman, do Instituto Internacional de Desenvolvimento e Meio Ambiente (IIED, na sigla em inglês). No dia 21 de julho, as exposições ficarão a cargo de um grupo de formuladores de políticas públicas. No último dia, será produzido um documento conclusivo.

Segundo Nobre, o objetivo do painel é obter, pela primeira vez, um mapa qualitativo que indicará quais são as principais vulnerabilidades da Grande São Paulo em relação às várias manifestações das mudanças climáticas, como aumento do número de dias quentes, ondas de calor, tempestades severas, alagamentos, deslizamentos de encostas e secas que afetam o abastecimento de água, entre outras.

“A lista de vulnerabilidade é tão grande que, se não indicarmos as prioridades, o poder público não terá por onde começar as ações de adaptação. A reunião é uma oficina de trabalho na qual especialistas em várias áreas – como saúde, clima, desastres naturais, ou vulnerabilidade social relacionada à pobreza – discutirão com base em vários bancos de dados inseridos em um sistema de informação geográfica”, explicou Nobre.

A partir desse conjunto de dados sobre a Região Metropolitana de São Paulo, os especialistas vão estabelecer geograficamente quais são as regiões mais vulneráveis a cada um dos diferentes impactos, segundo o cientista.

O painel, de acordo com Nobre, tem um formato inovador, que consiste em reunir não apenas cientistas especializados em diversos aspectos da vulnerabilidade às mudanças climáticas, mas também tomadores de decisão, que irão expor suas visões sobre a questão.

“Essa interação é importante tanto para nós – que temos a oportunidade de perceber quais são as preocupações desses tomadores de decisão – como para eles, que terão a oportunidade de aprender muito com os especialistas. A ideia de trazer os tomadores de decisão desde o primeiro momento de discussão tem o objetivo de facilitar a utilização desses mapas nas políticas públicas”, disse.

Uma vez concluído o relatório do painel, segundo Nobre, uma reunião mais ampla será marcada, também na sede da FAPESP, em São Paulo, com todos os tomadores de decisão de diversas agências, da sociedade civil organizada, de ONGs que tratam da questão da vulnerabilidade social e ambiental, das Câmaras Municipais, das Assembleias Legislativas e de órgãos do governo federal.

“Vamos apresentar os resultados e submetê-los à critica. A partir daí, vamos terminar esse primeiro mapa dinâmico que vai mostrar como cada vulnerabilidade está se manifestando e se manifestará no futuro em cada região da metrópole”, disse Nobre.

Em 2010, os resultados serão apresentados formalmente a todos os tomadores de decisão importantes e à sociedade. “Finalmente, esses mapas serão levados a Brasília para influenciar o parlamento na construção do Plano Nacional de Mudanças Climáticas, chamando a atenção para a importância da adaptação, e destacar a necessidade de se ter ações imediatas nesse sentido”, declarou.

Segundo Nobre, o painel fornecerá uma visão integrada do que está sendo feito em termos de adaptação em todos os países – incluindo o mundo em desenvolvimento.

“O objetivo fundamental do PFPMCG, ao patrocinar esse encontro, é também que o painel nos aponte lacunas científicas, nos indicando onde precisamos de mais conhecimento. Isso nos ajudará a guiar os próximos editais do programa. Em breve, acredito que possamos ter até mesmo editais voltados especificamente para a questão da adaptação”, afirmou.

Diferentes vulnerabilidades

Durante o painel, o médico Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, falou sobre o tema “Mudança climática e a vulnerabilidade em São Paulo”, com foco nos impactos do aquecimento global sobre a saúde humana.

Segundo Saldiva, a alta concentração de automóveis é um dos principais agravantes das mudanças climáticas observadas na Região Metropolitana de São Paulo. Segundo ele, o número de carros cresce em proporção quatro vezes maior que o número de habitantes na capital paulista.

“Há uma pressão para vender mais carros que é completamente insustentável de todos os pontos de vista – inclusive o do trânsito, já que a média de mobilidade em São Paulo é de 10 quilômetros por hora, igual à do século 17. A consequência dessa escalada do automóvel são ilhas de calor no centro. O mapa dessas ilhas de calor coincide precisamente com o mapa da mortalidade por eventos cardiovasculares na cidade”, disse Saldiva.

Radley Horton, da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa), abordou o tema “Iniciativas de adaptação às mudanças climáticas em Nova York”. O especialista descreveu um estudo realizado por um painel interdisciplinar de 13 especialistas que definiu prioridades para a adaptação na maior cidade dos Estados Unidos.

“Alguns dos principais impactos previstos pelo painel diziam respeito ao aumento da temperatura do ar, à mudança das taxas de precipitação, à elevação do nível do mar e a maior rapidez do derretimento do gelo”, disse Horton. “As adaptações serão necessárias em vários setores, pois haverá impactos de infraestrutura – com danos e desgaste de materiais –, impactos em operações urbanas, com possíveis atrasos em transportes, além de eventos combinados de transbordamento de esgotos e colapsos no fornecimento de energia”, afirmou.

David Dodman, do IIED, instituto internacional sediado em Londres, no Reino Unido, apresentou a conferência “Impactos e adaptação às mudanças climáticas em cidades: experiências globais”, na qual abordou casos específicos de cidades como Bangcoc, na Tailândia, Dacca, em Bangladesh, e Durban e Cidade do Cabo, na África do Sul.

Segundo Dodman, alguns dos principais desafios em termos de adaptação às mudanças climáticas estão relacionados à falta de consciência das sociedades e dos governos em áreas críticas, ou à falta de capacidade e oportunidade para lidar com os impactos a curto prazo.

“As principais vulnerabilidades se concentram nas regiões de baixa renda. Em Bangladesh, por exemplo, vimos que as áreas onde estão as favelas coincidem exatamente com os mapas que mostram as regiões com inundações mais frequentes. O problema é que a maioria das propostas de adaptação não é viável para as comunidades pobres”, disse Dodman.


Fonte: Agência FAPESP

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