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Água encanada e esgoto são sonhos nas ilhas de pobreza do Grande ABC

10/11/2009 11h19

Morar num local com água encanada, energia elétrica e rede de esgoto, além de ruas pavimentadas e com CEP (Código Endereçamento Postal), é um sonho para milhares de pessoas que vivem em locais praticamente esquecidos pelo poder público no Grande ABC.

O Diário visitou comunidades nas periferias de Diadema, Mauá, Rio Grande da Serra, Santo André e São Bernardo nas duas últimas semanas e constatou a falta de serviços básicos como os citados acima. A carência também é de postos de saúde, agências dos Correios e transportes públicos, entre outras. Nas entrevistas, a reportagem ouviu a mesma queixa: o não cumprimento das promessas eleitorais.

"Em época de eleição, todos os candidatos aparecem e prometem melhorar as condições daqui. Mas, como sempre, a gente se decepciona, porque a nossa vida não melhora", diz Cristiane Dias, 27 anos, moradora há cinco anos do bairro dos Tatetos, em São Bernardo.

Vendo essas carências, não dá para imaginar que ocorram justamente na região que tem o terceiro maior mercado consumidor do País, conta com seis grandes montadoras de automóveis (GM, Volkswagen, Scania, Ford, Toyota e Mercedez) - que produziram 26% dos veículos do Brasil em 2008 -, além de milhares de outras indústrias de diversos setores, grandes redes de varejo e supermercados.

O cenário de extrema pobreza e abandono, no entanto, recorda um País atrasado em políticas públicas, onde é comum observar a mistura de área rural e periférica. O mais comuns nestas regiões é ver pessoas andando a pé, de bicicleta ou em carros como fuscas e brasílias em ruas de terra e esburacadas. Muitas vezes o esgoto corre a céu aberto e não há coleta de lixo.

"O ABC não foge à realidade de uma grande metrópole, pessoas não qualificadas criam os bolsões de pobreza", diz Sandro Maskio, professor de economia da Universidade Metodista de São Paulo.

Para José Amilton de Souza, coordenador da graduação e pós-graduação de história do Centro Universitário Fundação Santo André, essas ilhas de pobreza são consequência do grande movimento migratório que teve início nas décadas de 1940 e 1950, e continua até hoje. "Essas pessoas vieram atrás de um eldorado de oportunidades e não encontraram", comenta. "Não foram atendidas por política públicas e ainda hoje ficam na dependência de que isso venha a acontecer", completa.

No Tatetos, ‘Eletrogato'' tem apagão à noite

No bairro do Tatetos, em São Bernardo, moram cerca de 3.000 pessoas. Eles recebem água por caminhão pipa e chegam a ficar uma hora na fila da balsa para voltar para casa. A energia elétrica é fornecida pela Eletrogato, mas toda tarde a rede cai e as pessoas ficam às escuras.

A rede de esgoto não existe, as ruas são esburacadas e, segundo os moradores, o transporte público não funciona em dias de chuva, devido às péssimas condições das pistas.

A desempregada Cristiane Dias, 27 anos, vive em uma casa pequena, com cinco filhas e o marido. Nos fins de tarde, ela faz as lições da escola com as crianças sob luz de vela. "É sempre assim, é só entardecer que ficamos neste breu. Além de queimar com frequência nossos eletrodomésticos", comenta. Mas ela ainda enxerga um ponto positivo no lugar. "É difícil, mas onde eu poderia criar as minhas filhas com a liberdade que tem aqui. Elas comem ameixas no pé", completa.

Segundo nota da Prefeitura de São Bernardo, a área é de Proteção e Recuperação aos Mananciais da Represa Billings, as obras públicas precisam de licenciamento prévio e a administração está aguardando a publicação do decreto para começar as modificações.

Moradores não têm endereço no Sítio Joaninha

O Sítio Joaninha, em Diadema, é um lugar de extremos. Os 3.000 moradores vivem sem endereço. Uma grande parte deles usa o mesmo endereço, que não é uma caixa postal criada para eles, e sim para Cleonice Rodrigues de Almeida, 54, dona de um bar e de uma floricultura que fica na frente do Cemitério Vale da Paz.

A comerciante cede uma cópia do comprovante de endereço para as pessoas que a procuram e recebe a correspondência de centenas de moradores. Muitos ela nem conhece.

"É uma forma de ajudar. Como eles arrumariam emprego sem ter um endereço para abrir uma conta no banco", argumenta. Na agência postal improvisada, existe ainda uma caixa onde as pessoas recebem suas correspondências.

Fora esta ajuda, o bairro recebe apenas água por caminhão pipa. A energia e a rede de água são clandestinas. O esgoto é despejado em fossas sépticas ou na rua. "Nós queremos um endereço e condições básicas para se viver decentemente", diz Eurundino Cardoso, presidente da Associação de Moradores.

A Prefeitura de Diadema informou que a região vai receber investimento de R$ 42 milhões do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) de Mananciais. As obras de urbanização devem começar no início do ano que vem.

Fonte: Diário do Grande ABC

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