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Ex-doutorando de Ciências da Religião vence Prêmio Capes de Tese 2020

Pesquisa abordou práticas religiosas na Idade do Ferro na antiga Israel-Palestina

07/10/2020 16h37

Sentindo-se desafiado tanto pela literatura quanto pela arqueologia sobre antigas práticas religiosas no território onde hoje estão Israel e Palestina, o ex-aluno de pós-graduação em Ciências da Religião da UMESP Silas Klein Cardoso transformou essa inquietação em pesquisa de doutorado. A dedicação acaba de lhe render uma das maiores distinções na área no Brasil: Silas é o vencedor do Prêmio Capes de Tese 2020 em Ciências da Religião e Teologia, que atrai as melhores pesquisas científicas defendidas no Brasil no ano anterior.

Aos 34 anos de idade e vivendo atualmente em Berna (Suíça) com esposa e dois filhos pequenos, Silas finalizou doutorado na Universidade Metodista de São Paulo em 2019 e foi logo a seguir contratado pelas universidades de Berna e Zurique, ambas na Suíça, para integrar durante três anos o Stamp Seals from the Southern Levant. Trata-se de projeto de pesquisa também composto pela Universidade de Tel Aviv (Israel) e financiado pela Swiss National Science Foundation (SNSF). Ele faz pós-doc em Berna.

Veja abaixo a entrevista ao Portal da Metodista sobre o Prêmio Capes (Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação, para sua tese Redes Mágico-Míticas no Alvorecer de Israel - "Religião" No Platô de Benjamim no Ferro I-IIA, sob orientação do professor José Ademar Kaefer.

P -  Por que escolheu esse tema de doutorado?

R - Minha pesquisa investigou as práticas religiosas no platô de Benjamim na Idade do Ferro I-IIA (c. 1125-875 a.EC). A região, atualmente Palestina/Israel, é importante para a História da Religião e Exegese Bíblica por ser o provável local e tempo onde se originou o chamado Israel antigo ou bíblico, importante ator na cultura e imaginação ocidental contemporânea.

Escolhi o tema por dois motivos: uma incoerência literária e um desafio arqueológico. Como incoerência literária, me refiro aos livros bíblicos que retratam o local apresentarem múltiplos templos, em contraposição à retórica geral que defende um só local de culto (p.ex., Jerusalém ou Betel). Por desafio arqueológico, me refiro ao fato de um dos principais arqueólogos que estuda o tema ter dito ser impossível descobrir quais eram as divindades cultuadas nesse tempo e local pelas distorções dos textos bíblicos, que foram escritos muito depois dos eventos.

Me senti desafiado ao notar que ambos os motivos eram, na verdade, sintomas de um problema maior, que consistia no desconhecimento das práticas religiosas do platô de Benjamin. Assim, procurei meios de responder à questão.

 

P - Como foi o passo a passo da sua investigação?

R - Após identificar a questão de pesquisa, procurei um quadro teórico adequado. Algo que pode passar facilmente despercebido é o fato do conceito “religião”, como o concebemos hoje, ter sido criado com a religião cristã-ocidental em vista. Na Antiguidade, havia outros canais comunicativos, organização socioeconômica e práticas produtivas que modificavam a percepção do mundo e produziam outras práticas e concepções religiosas.

Para lidar com o problema, criei um quadro teórico que intitulei “redes mágico-míticas”. Em suma, ao invés de pensar em religião como algo uniforme, como muitas abordagens teológicas modernas fariam, observei as práticas religiosas de forma relacional e em mediações míticas (isto é, via narrativas orais) e mágicas (isto é, via artefatos). Além disso, considerar os canais de comunicação do período como assimétricos (de reprodução falha) me fez voltar os olhos aos padrões regionais contextualizados socialmente, o que se demonstrou produtivo.

 

P – E qual sua conclusão?

R - A partir disso, analisei os nove sítios arqueológicos da região que trouxeram vestígios para o período estudado. Nisso, observei vestígios arquitetônicos em busca de locais de culto e artefatos visuais e inscrições para compreender aspectos do imaginário. Após analisar essas fontes primárias, as comparei às descrições do texto bíblico para ver sua correspondência.

Sugeri, ao fim, que as práticas religiosas da região se davam em nível familiar (isto é, nas casas) e comunitário (isto é, nas vilas), apresentando três ênfases: nos laços familiares, na existência do além-mundo e violência territorial.

Quanto às divindades, notei cinco “tipos” no panteão, este que argumentei refletir o imaginário de uma família divina. O casal divino, chefe do panteão, era composto pela deusa-mãe (provavelmente Asherá) e um deus do clima (Baal). O segundo nível era composto pelos filhos desse casal, uma deusa da guerra (Anate) e um deus das profundezas (Mot ou Reshef), além de um deus estrangeiro do deserto (provavelmente Javé ou Qôs).

 

P - Como se sente ao vencer uma distinção da Capes?

R  - Me sinto honrado por vencer o Prêmio Capes de Tese da área de Ciências da Religião e Teologia. Além de ser o maior prêmio acadêmico e científico do País, o que já me traria honra suficiente, isso se amplia por eu estar plenamente consciente da qualidade do trabalho das pesquisadoras e pesquisadores da área do Brasil.

Por nos debruçarmos sobre um tópico esquivo, multifacetado, mas ao mesmo central na concepção de mundo e sociedade, que é a religião, nossa área exige conhecimentos transdisciplinares espinhosos, que poucas formações oferecem. Como resultado, a área congrega acadêmicas e acadêmicos de erudição ímpar, com pesquisas dignas de inveja. Enquanto me sentiria satisfeito por estar cercado de mentes brilhantes enquanto faço algo que gosto, ser reconhecido dentre elas e por elas é indescritível.

 

P  - Foi um trabalho múltiplo.

R - Aqui, convém lembrar que todo trabalho científico se produz em comunidade. No meu caso, a transdiciplinaridade do tema me levou a integrar quatro grupos de pesquisa no período de doutorado, dentre os quais muitas discussões surgiram pela primeira vez.

O grupo de Arqueologia do Antigo Oriente Próximo, do professor José Ademar Kaefer (Umesp), orientador brasileiro, forneceu espaço para discutir os registros materiais do antigo Israel. O grupo Oracula, do professor Paulo Nogueira (PUC-Campinas), foi palco para discussões teóricas sobre cultura popular e religião. No Rimago, do professor Helmut Renders (Umesp), discutimos teoria de imagem e cultura visual religiosa. E, por fim, o grupo do meu co-orientador suíço, Christoph Uehlinger (Zurique), de História da Religião, foi fundamental para discutir o conceito de religião no mundo antigo e especificidades de artefatos visuais no antigo Israel. Digo isso pois a conquista me faz lembrar com agradecimento a contribuição e suporte dessa comunidade.

 

P – Como estão seus estudos na Suiça?

R - Minha função é pesquisar a chamada “Exegese Iconográfica”, uma sub-especialização da Exegese Bíblica que consiste na interpretação de textos bíblicos com a ajuda de artefatos visuais do antigo Oriente Próximo, em especial arte em miniatura. A função aproveita-se tanto de minha experiência adquirida com Exegese Iconográfica no desenvolvimento da minha tese de doutorado, quanto minhas formações anteriores, isto é, meus bacharelados em Teologia (2013, Umesp) e Comunicação Social, Publicidade e Propaganda (2007, Umesp).

 

P - Você integra a última edição da revista Caminhando. Fale um pouco desse tema.

R - Publiquei em 2020 três textos que avançam ideias apresentadas na tese. Dois na revista da revista Caminhando (“Amuletos como mídia” e “Templos da Casa de Saul?”) e um na revista Pistis & Práxis (The Goddesses and Gods of Saul).

Continuo a trabalhar com a História da Religião de Israel. Meu foco tem sido repensar as categorias pelas quais acessamos as práticas religiosas dos povos do chamado “mundo bíblico”. Nesse âmbito, publiquei “Amuletos como mídia” e, nesse ano, sairá um capítulo de livro intitulado “Culturas materiais e visuais das religiões do livro: o caso do ‘Antigo Israel’”, no livro O estudo das culturas materiais e visuais religiosas (editores. E. Higuet, K. Mendonça e H. Renders).

Meu foco primário de pesquisa, no entanto, agora se direciona para a Exegese Iconográfica. Tenho pesquisado a genealogia dessa especialização da Exegese Bíblica, assim como trabalhado em formas de avançar aspectos teórico-metodológicos em sua prática.

Os trabalhos de Silas Klein podem ser acessados neste link.

 

Reconhecimento

 

O reitor da Metodista, professor Márcio Oliverio, aplaudiu a conquista: “Esse resultado mostra reconhecimento da qualidade e excelência dos cursos de pós-graduação da UMESP, com destaque para a pós-graduação em Ciências da Religião. Ficamos contentes com essa vitória. Deixo um agradecimento especial ao discente e a todos(as) docentes envolvidos na construção da pesquisa”.

Também a diretora de Pós-Graduação e Pesquisa, Adriana Barroso de Azevedo, elogiou o prêmio: “A qualidade na produção científica brasileira através do Prêmio Capes de Teses tem enorme processo de validação e reconhecimento, em que são selecionadas as melhores teses defendidas no Brasil no ano anterior. Estamos muito felizes com o resultado obtido por Silas Klein Cardoso e seu orientador José Ademar Kaefer. Parabenizamos aos dois e aos demais docentes e discentes do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião pela especial conquista”.

Professor Ademar Kaefer se diz especialmente agradecido: “Silas Klein é um pesquisador muito competente no que faz e exigente consigo mesmo. Lida muito bem com diferentes campos do saber e isso lhe possibilita o acesso a um vasto arsenal de informações. Esse valor seguramente é herança do berço familiar. Silas é também muito solidário com colegas doutorandos/as, mestrandos/as e professores/as. É quem sempre traz as últimas informações. Sua tese inova a forma de abordar a Bíblia, a arqueologia e a história. Muito bem fundamentada, em especial a partir da iconografia, abre horizontes para a diversidade cultural do povo que virá a ser Israel, particularmente no campo do fenômeno religioso. É um prêmio merecido! Como nenhum saber se constrói sozinho, a tese do Silas é, também, um prêmio de toda a comunidade acadêmica da UMESP, por onde Silas passou”.

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