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Mulheres no fotojornalismo abre série de Workshops de 2017

23/03/2017 20h10 - última modificação 30/05/2017 19h04

Vittória Cataldo

A discussão sobre gênero se mostra extremamente relevante para a continuidade da luta pela equidade nas relações sociais na contemporaneidade. Desta forma, o primeiro Workshop desse ano da Cátedra UNESCO/Metodista de Comunicação para Desenvolvimento Regional, realizado no dia 21 de março no campus Rudge Ramos, debateu a participação feminina no fotojornalismo, ministrado por Nathália Cunha, jornalista, fotógrafa e mestranda em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), com sua pesquisa sobre a relação cultural entre identidades de gênero e a prática do fotojornalismo na contemporaneidade.

O surgimento da fotografia aconteceu a partir da conexão entre a química e a ótica e já foi encarada quase unicamente como o registro visual da verdade. “Eu não acredito que uma foto fale mais que mil palavras”, Cunha esclareceu, pois a fotografia não é capaz de traduzir integralmente um fato expondo totalmente o seu contexto histórico e social.

A premissa do fotojornalismo é informar através das imagens, em uma atividade que usa a fotografia como veículo de informação. A foto mostra, revela, expõe, denuncia e opina sobre o assunto que está sendo retratado. O trabalho do fotojornalista não consiste simplesmente em tirar uma boa foto para ilustrar uma matéria, ou até mesmo uma reportagem. “É necessário o exercício entre a fotografia e o jornalismo”, explica a pesquisadora. Ou seja, a formação jornalística se torna relevante para compreender o que é uma notícia, como compor uma imagem informativa sabendo contextualiza-la pela legenda.

Facilitação Gráfica - Izabel Méo 01
Painel de Facilitação Gráfica produzido por Izabel Méo

Nathália Cunha discute o apagamento histórico sobre a participação feminina na fotografia e no fotojornalismo. Uma pesquisa da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) aponta que 64% dos jornalistas brasileiros em 2012 eram mulheres. No fotojornalismo uma pesquisa realizada com profissionais de 100 países, pela Universidade de Oxford com a World Press Photo Foundation, apontou que a presença de mulheres no fotojornalismo é de que apenas 15%. As mulheres tendem a ser menos contratadas por empresas de mídia no fotojornalismo. Isso também se explica devido a formação de estereótipos de gênero. “O gênero vai dividir sua vida como um rio”, ela aclarou, pela organização androcêntrica que coloca os gêneros em oposição social, inclusive restringindo espaços e carreiras.

Nesse sentido, é interessante a reflexão de Pierre Bourdieu (p. 138, 2014) no seu livro A dominação masculina ao elucidar que “Ser ‘feminina’ é, essencialmente, evitar todas as propriedades e práticas que podem funcionar como sinais de virilidade; e dizer de uma mulher de poder que ela é ‘muito feminina’ não é mais que um modo particularmente sutil de negar-lhe qualquer direito a este atributo caracteristicamente masculino que é o poder”. O que se verifica na tendência da atuação masculina no mercado de trabalho ser maior em determinadas carreiras, como no fotojornalismo, e melhor remunerada do que a feminina.

Painel de Facilitação Gráfica produzido por Izabel Méo

Cunha discute que sexo e gênero não deveriam ser interpretados como questões distintas, uma vez que o sexo é tanto a interpretação cultural das características anatômicas quanto o gênero. E complementa que com este pensamento não se busca negar as diferenças entre homens e mulheres, mas que elas não devem ser utilizadas para perpetuar uma hierarquia de gênero e a divisão sexual do trabalho. “As meninas levam o bolo e os meninos o refri”, comentou um participante como exemplo pessoal de como a interpretação cultural das características anatômicas de sexo impõem-se na prática social, onde temos a associação das mulheres com o espaço privado (doméstico) e dos homens com o espaço público (trabalho).

O Workshop foi encerrado com o debate sobre as entrevistas realizadas por Nathália Cunha com mulheres fotojornalistas que expressaram a dificuldade de serem reconhecidas e aceitas no mercado de trabalho. A análise das entrevistas evidenciou a influência do estereótipo da atividade como espelho das características associadas à masculinidade - como força, virilidade e objetividade - e a dificuldade em conciliar a profissão com a dupla ou tripla jornada de trabalho da família e do ambiente doméstico.

A jornalista e mestranda em Comunicação Social pela UMESP, Izabel Marques Méo, fez a facilitação gráfica do evento resumindo com ilustrações contextualizadas as principais ideias compartilhadas. A técnica utilizada também foi abordada por Izabel durante o Workshop “Entendeu, ou quer que eu desenhe? – Facilitação gráfica” ocorrido em novembro de 2016. Você pode conferir aqui a facilitação gráfica completa produzida durante o workshop.


Não deixe de assistir o vídeo produzido pela Cátedra Unesco com a Nathália Cunha sobre o tema:

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