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Professora Cilene Victor participa de Seminário na UFS para discutir deslocamentos por desastres

01/04/2019 20h09

Professora Cilene falou sobre a cobertura de crises humanitárias. Foto: Charlotte Borges

Andressa Monteiro 

Cilene Victor, professora da Universidade Metodista de São Paulo, participou entre 20 e 22 de março do VI Seminário Nacional de Filosofia e Natureza na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Com o tema central "Técnica, natureza e ética socioambiental no uso das águas", as discussões foram motivadas pela comemoração do Dia Mundial da Água. Estiveram presentes pesquisadores brasileiros e estrangeiros, além de alunos de graduação e pós-graduação.

A professora da Metodista dividiu a mesa “Ética, técnica e natureza” com três outros docentes da UFS: Silvia Maria Santos Matos, Edilene Leal e Sonia Aguiar. A fala de Cilene se concentrou na cobertura jornalística de crises humanitárias geradas por deslocamento motivados por desastres e conflitos.

Essa questão que, segundo a ONU, é uma das mais complexas e graves no contexto de crises humanitárias em todo o mundo, se divide em duas facetas: deslocamentos por desastres ou por conflitos. Segundo ela, em 2017, houve 30 milhões de novos deslocamentos internos, ou seja, pessoas que não conseguiram cruzar as fronteiras de seus países. Deste total, 11 milhões se deslocaram por conflitos e 18 milhões de desastres.

Tal número tende a aumentar a cada ano. "Isso porque a estatística de 2019, em decorrência do ciclone que atingiu a Costa Africana e afetou mais de 2,5 milhões de pessoas, acentuando  consideravelmente a quantidade de deslocamentos internos”, explicou Cilene. “Por ser um tema multifacetado, é demandada uma abordagem interdisciplinar, pois é necessário ver o problema pelo aspecto ambiental, que é o desastre em si, seja ele de natureza natural ou fomentada pela ação humana”.

O sofrimento humano é o resultado real dos deslocamentos, sejam por desastre ou conflitos. Mais ainda, encara-se uma questão de violação dos direitos humanos, configurando, assim, as crises humanitárias. Para a professora, o enfrentamento das crises que geram sofrimento prolongado exige a união de diversas áreas do conhecimento, tais como Direito Internacional Humanitário, Filosofia e Sociologia.

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Cilene acredita que não é dada o destaque na cobertura jornalística de tragédias humanitárias. Foto: Charlotte Borges
Sobre a atuação da sociedade em crises geradas por desastres, Cilene é enfática: "existe apatia ou falsa participação pública, pois na maioria dos casos a ação se dá quase que exclusivamente pelo compartilhamento de mensagens nas redes sociais, sem envolvimento efetivo dos cidadãos em doações a instituições, como Médico sem Fronteiras, Cruz Vermelha. É uma comoção fugas que se concretiza em ações efetivas".

A professora continua: “Está sendo feito o uso político do impacto do ciclone. As pessoas estão preocupadas com a Venezuela, mas não com Moçambique, Zimbábue ou Malaui. Muitas nem sabem que esses países pertencem aos grupos dos menos desenvolvidos do mundo, e que um impacto não é só provocado pela própria dimensão e intensidade do fenômeno, que é a questão do ciclone, mas também pela questão da iniquidade social e da alta vulnerabilidade das pessoas atingidas”.

 Ela ainda chamou atenção para a necessidade de os cidadãos se informarem melhor a respeito das ações do poder público a respeito de emergências humanitárias, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Neste último caso, exemplificou a falta de conhecimento do público a respeito de como o  Itamaraty responde a essas situações por meio do Ministério das Relações Exteriores.

No que diz respeito à mídia, Cilene acha que não é dada visibilidade e importância adequada às crises humanitárias. Essa cobertura é um reflexo das demandas da própria sociedade por um tipo de informação e abordagem. "É preciso observar qual tipo de contrato de comunicação tem sido estabelecido ao longo da história entre mídia e a sociedade na qual está inserida”, comenta.  Uma possibilidade de mudança estaria na própria relação entre a sociedade e a mídia.

Ela termina dizendo que a mídia deveria ser compreendida como uma possibilidade social e tecnológica não só a serviço de um sistema, como tanto se acreditou, mas também a serviço da sociedade. É nesse sentido que entendemos o conceito de media interventions, ou seja, exploramos os recursos, o poder de onipresença, as narrativas e as linguagens midiáticas não mais, ou exclusivamente, para reiterar normas e valores vigentes, mas inclusive para revisá-los e alterá-los.

“Para mim, sem dúvidas, esse foi um dos mais brilhantes congressos científicos de que eu já participei no Brasil”, conclui Cilene.

 

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