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Sintonizando o rádio brasileiro: da origem à contemporaneidade

16/09/2016 18h22

Professor Antonio de Andrade (UMESP). Foto: Pedro Zuccolotto.

Arthur Marchetto

Pedro Zuccolotto

Em toda a história midiática, nenhum veículo comunicacional foi mais versátil e instantâneo que o rádio, principalmente se levarmos em conta o aspecto da inovação tecnológica. Já nos anos 50 o rádio fazia o processo que conhecemos na internet com muito sucesso, inclusive com a interatividade via telefone. É o que explica Antônio de Andrade, docente da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

Andrade explica como o rádio “é um reflexo do que é a realidade do país” e como ele tem se adaptado em sua trajetória, e chama a atenção sobre como a internet mudou a dinâmica e o relacionamento entre rádio e público e trouxe novos formatos, como a rádio on-line e os podcasts. No entanto, nada disso alterou a essência do veículo. “Sempre é o rádio com cara diferente, com mobilidade, facilidades ou qualidade de som”, diz o professor.

Em entrevista, Andrade fez um retrospecto sobre a história do rádio o Brasil, de seu surgimento até o momento atual, e destacou também o papel das redes sociais, a intimidade e versatilidade do veículo. Confira abaixo:

CÁTEDRA UNESCO/UMESP: Quais eram as principais características do rádio no seu início?

Antônio de Andrade: Para situar historicamente, o rádio começou no Brasil em 1922 de uma forma inusitada. Houve, no Rio de Janeiro, uma grande comemoração do centenário da independência e foram convidadas empresas, representações de países do mundo inteiro. A empresa americana Westinghouse traz para o Brasil, como novidade, o rádio. Não existia rádio no Brasil. Existia rádio há praticamente 10 anos, mas no Brasil não tinha nada, a não ser amadores que montavam aparelhos experimentais, pois não tinha quem produzisse... Quando a exposição termina um grande nome da comunicação brasileira, o Roquette Pinto, considerado o pai do rádio brasileiro faz uma negociação com os empresários americanos para que não levassem embora equipamento, mas sim doassem para criar uma emissora de rádio. Então, vai surgir a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, entre o final de 1922 e o começo de 1923.

O Roquette Pinto era médico, antropólogo e um grande educador. A ideia dele de rádio era diferente da que temos hoje em dia. Ele imaginava a rádio como um instrumento de educação. Então ele pensava o seguinte: no Brasil, um país tão grande, tão carente e tão pobre, o rádio poderia ser a escola do futuro. Em vez da criança ir à escola, a escola ia à criança por meio do rádio. Com a dimensão que o país tem você podia atingir todo o país com essa nova tecnologia que era o rádio e a concepção no Brasil, com o Roquette Pinto, nasce dessa forma: como uma coisa educativa.

O rádio é sempre uma concessão do Governo Federal. O Governo só vai autorizar o rádio comercial – que tem propaganda – em 1932. É uma década de rádio educativo, como o Roquette Pinto imaginava, ou de emissoras de rádio que já começam a aparecer Brasil afora. Delas, a maioria se chamava ou “Rádio Sociedade” ou “Rádio Clube”, que era um grupo de pessoas se associavam, criavam um tipo de clube, compravam equipamento e fundavam a rádio. Por exemplo, pessoas que gostavam de música lírica. Era uma coisa muito incipiente, não era um veículo de comunicação nem popular nem de massa, porque precisava de dinheiro. E quem era associado pagava uma mensalidade como se pagasse um clube recreativo. Com isso você tinha direito a receber em casa as transmissões. As pessoas mais humildes e mais pobres não tinham dinheiro para comprar equipamento, então era uma coisa meio elitizada.

Em 1923 já tem rádio aqui em São Paulo - uma das mais antigas é a Rádio Record, e depois começam a aparecer outras. Até que, em 1932, o Governo libera a rádio para fins comerciais. Aí muda tudo. No tempo do Getúlio Vargas, que era o Presidente da República, o rádio comercial vai trazer programação, vai pagar cantor, músico, vai fazer humor... e aí o rádio começa a caminhar para aquilo que ele é hoje. Em 1932, quando tem a Revolução Constitucionalista, comandada aqui por São Paulo, se descobre que o rádio era um grande veículo de comunicação. A Rádio Record – que já era do Paulo Machado de Carvalho, que sempre foi dono de todo o conglomerado Record (que hoje pertence à Igreja Universal) – já era uma emissora poderosa de grande alcance que poderia ser ouvida quase pelo Brasil inteiro e começou a ser usada pelos revolucionários para mandar notícias do que estava acontecendo na Revolução contra a ditadura de Getúlio Vargas. É aí que o Vargas também saca que o rádio era um instrumento poderoso de comunicação.

As notícias do Governo saiam no jornal, só lia quem era alfabetizado. Naquela época, 60% da população brasileira era analfabeta, enquanto que o rádio atinge qualquer um. Você não precisa ser alfabetizado para escutar rádio, essa é a grande vantagem. Quando Vargas percebe que o rádio era uma coisa importante o Governo passa a controlar ele também, ficar em cima e censurar. O Vargas depois ganha esse embate com São Paulo.

C: Essas características sofreram transformações ao longo do tempo?

AA: As primeiras começam bem aí. Surge como um rádio com finalidades educativas, comandado pelo Roquette Pinto até o Estado Novo. Quando ele vê que o grupo não conseguia competir porque precisava de muito investimento, ele doa todos os equipamentos para o Governo continuar a rádio com as finalidades educativas. Por muito tempo era a Rádio MEC, do Ministério da Educação e Cultura, mas já não com aquela ideia da rádio escola. Isso nunca deu certo. Continua sempre aquela metodologia de ensino: sala de aula, aluno e professor. Roquette Pinto imaginava que era possível reverter essa coisa: em vez de você ir à escola, a escola ir até você.

C: Como o papel social do rádio teve que se adaptar à sociedade?

AA: Ele vai sempre se amoldando às situações sociais, políticas, econômicas. Ele é um reflexo do que é a realidade do país, do que é a sociedade do país. Ele é um grande veículo de comunicação de massa. Para mim até hoje o rádio é imbatível em termos de comunicação. Eu não vejo nada mais moderno que o rádio.

C: Se, para você, a rádio é um reflexo do país, ao cair o nível da educação cai também a qualidade do rádio?

AA: Despenca. Quando você pega a grade de programação da rádio dos anos 1940 ou 1950, que são as chamadas “Época de Ouro” do rádio, você fica alucinado e pensa “não é possível que os caras faziam isso”. O que acontecia? A rádio era uma grande geradora de empregos, porque toda rádio tinha seus artistas exclusivos. Quem era da Rádio Nacional não cantava na Rádio Record, quem cantava na Rádio Record não cantava na Rádio Tupi... eram artistas exclusivos e muito bem pagos. Todas elas tinham orquestras. Você já imaginou, hoje, uma rádio ter orquestra?

A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que era a mais poderosa, surge durante a ditadura do Estado Novo. Vargas resolve ter uma emissora que tivesse alcance nacional e internacional. Eles faziam a programação em inglês, francês, e italiano, e distribuíam isso pelo mundo inteiro. Você sintonizava a Rádio Nacional em qualquer lugar do mundo. Isso muito antes de internet.

Tinham o chamado “cast”, que era o grupo de contratados. Eles eram muito bem pagos e era uma quantidade enorme de profissionais. Mesmo as rádios locais e pequenas, como a Rádio Santo André, tinham auditório. O auditório da Rádio Santo André, no bairro Casa Branca, até hoje está lá. Todas tinham auditório porque as famílias e as pessoas iam às rádios para assistir shows, programas humorísticos e etc.

C: Esse consórcio dos artistas me parece um pouco o que acontece com as gravadoras, mas ao invés de ter a orquestra na rádio o artista vai até a gravadora e ela assina contrato com uma rádio. Qual é a diferença entre a programação dos anos 1950 e a de agora?

AA: Você tem que ver pelo lado da inovação tecnológica. O artista era exclusivo de uma gravadora, era contratado pela rádio e a rádio era o grande veículo de divulgação do cantor, como Ângela Maria ou Cauby Peixoto, esses clássicos. Eles só iam em determinadas emissoras porque estavam divulgando a produção deles. Eles fazem isso até hoje, mas hoje fazem via internet, via redes sócias, esse tipo de coisa. Na época você tinha que ir e se deslocar de uma para outra. Tinha que ir pra Bahia, para o Rio Grande do Sul, levar seu conjunto musical...

C: É como se fosse a lógica da internet, mas nos anos 1950?

AA: Isso. É aquela coisa da tecnologia, por exemplo, eu gosto da Ângela Maria então eu tenho que ir na loja de discos comprar o disco dela. Hoje eu baixo na internet ou, se eu quiser fazer isso legalmente, eu pago para baixar. Mas na época não tinha como piratear o disco porque era algo tão complicado de fazer que haviam fábricas de discos. O rádio, na música e gravação, acompanha os avanços sociais e tecnológicos da sociedade.

O rádio fazia todo esse processo da internet com muito sucesso e até de uma maneira interativa pelo do telefone. Eram comuns os programas em que eu ligava para a rádio e falava “quero ouvir tal gravação do Nelson Gonçalves”. Já tinha a interatividade lá nos anos 1950. Sempre houve muito a participação do ouvinte na programação. Claro que hoje você usa e celular e entra na programação, mas na época você pegava o telefone e também entrava na programação. Não tem tanta diferença.

C: A televisão também chegou a oferecer isso?

AA: A televisão é uma coisa mais complicada e pesada, em vários sentidos. Os equipamentos são mais complexos. O rádio sempre foi um equipamento barato, simples e de mobilidade. Você leva para onde você quer. Claro, na época o repórter usava um microfone grande e uma bateria de uns 10 quilos nas costas, mas o princípio é o mesmo. O que você tem hoje é uma tecnologia leve, e a televisão é mais dura nesse aspecto. Por exemplo, se ocorre um acidente na Anchieta e está tudo parado o rádio já transmite na hora. A televisão já é mais complicada: tem que deslocar, ter equipamento...

Na época também era isso. Não havia tanta proximidade do ouvinte com a programação. O noticiário, por exemplo, era uma coisa mais difícil de produzir e transmitir. O jornal era o grande veículo de comunicação. Então o ouvinte participava no rádio pedindo para ouvir tal música ou tal cantor, fazendo sugestão e comentários. Mas isso sempre houve no rádio.

C: É possível dizer que a internet afetou a produção do rádio?

AA: Claro que afetou. Nessa rapidez de você poder colocar a informação no ar e a pessoa falando diretamente. Embora isso já fosse feito antes, não era um hábito, era uma coisa estranha o ouvinte entrar na programação. Hoje ainda é, a não ser nas emissoras que vivem disso, porque isso barateou ainda mais a produção do rádio. Na verdade, você, que é ouvinte, praticamente está bancando o noticiário do rádio. Não precisa mais mandar o repórter ver o congestionamento na Anchieta, o cara que está circulando aqui disca e, até paga pela ligação. Tudo mudou.

Aliás, uma coisa que nunca mudou no rádio é o futebol. O clássico do rádio é o futebol. Já em 1932 e 1933 se transmitia, e sempre foi um grande sucesso. Se você pegar as rádios AM você pode ver que uma grande quantidade que transmite futebol, porque dá muito patrocinador.

C: E é possível dizer que oo futuro do rádio está nas rádios onlines e nos podcasts?

AA: Não é que é o futuro do rádio, é o rádio. Sempre é o rádio com cara diferente, com mobilidade, facilidades ou qualidade de som. Por exemplo, uma coisa que ainda não aconteceu no Brasil que é comum no exterior é o rádio digital. Aqui não pegou, não deu certo, principalmente porque o aparelho receptor vai ser meio caro e aqui o poder aquisitivo não está para isso. Agora se você vai para o exterior você percebe que esse sistema de rádio que temos aqui se modernizou. Por exemplo, você assina pacotes de rádio. “Eu gosto só de música clássica e só gosto mesmo de Beethoven”, então você vai e paga só o pacote de Beethoven. O rádio digital tem um som puríssimo, mas o aparelho receptor não é barato. Estão fazendo testes para a rádio digital no Brasil há anos e anos, mas sempre vai esbarrar nesse problema.

É um problema parecido com a TV analógica, que ninguém tem coragem de cortar o sinal porque grande parcela da população não tem dinheiro para comprar televisão LCD ou essas mais modernas. Se você cortar o canal você vai afetar a população mais pobre, que ainda tem a TV de tubo. Aliás, se produz até hoje a TV de tubo porque ela é barata, e o rádio é um equipamento muito barato. Depois que apareceu o transistor e o sistema de pilha, ele virou um aparelho de grande mobilidade, muito antes do celular. Você comprava aqueles radinhos japoneses nos anos 1950 à pilha. Para mim, é sempre rádio com novas caras, novas possibilidades, mas é rádio.

C: Inclusive os podcasts?

AA: Eu acredito que sim porque o princípio é o rádio. O que eu mais aprecio no rádio é que ele é uma coisa que estimula a imaginação, esse é o grande lance. Se eu vou fazer uma novela na televisão que se passa no século XVIII na Inglaterra, em um castelo, no meio da cerração, você precisa do cenário. No rádio é a sua cabeça que faz o cenário.

É que nem futebol em rádio e televisão. Assistam ao jogo na TV com o rádio ligado. É outro jogo. Para o cara que está assistindo, saber se foi impedimento vendo pela televisão é só ver o replay, com câmera lenta ou close. No rádio não tem isso. Como é que você, ouvindo rádio, vai saber se foi impedimento ou não? É para isso que serve o repórter de campo, ele faz o mesmo papel que a câmera de TV: é o cara está lá para ver se a bola entrou ou não. A TV é o chamado “meio frio”, eu fico lá, comendo pipoca, deitado no sofá, enquanto que o rádio é o “meio quente”, ele está estimulando a cabeça o tempo todo.

É isso que eu vejo. O resto é enfeite, mas o princípio é a transmissão do sem fio, aquela coisa que desafiou cientistas e pesquisadores desde o século XVIII. É o como eu transmito o áudio, a voz, sem usar fiação elétrica. Na televisão é como eu transmito a imagem em movimento sem fios. O cinema já possibilitava você captar imagens e projetar. A televisão não, é instantânea. Esse era o grande desafio. E por incrível que pareça, é um brasileiro que faz a transmissão radiofônica pela primeira vez, que é o Landell de Moura, um padre que fez transmissões de rádio em 1900.

Os americanos trouxeram a tecnologia para cá 22 anos depois que o padre já fazia isso na Avenida Paulista. Ele transmitia rádio da Avenida Paulista para o bairro de Santana, uns 10 quilômetros em linha reta. Qual foi o problema do padre? Ele era brasileiro. Naquela época já existiam os grandes impérios. Eles se apropriaram da história. Hoje em dia, quando você começa a pesquisar isso tudo, você vai descobrir pioneiro de televisão na Itália. Na Rússia também teve um monte, mas aí pela questão ideológica eles foram tirados da história.

Já o padre Landell de Moura é uma coisa documentada em jornal. O Estadão, na época, publicou reportagem que foi lá acompanhar a transmissão. Ele fez experiência com televisão. Qual foi o fim da vida de Landell? Ele morreu pobre, encostado lá no Rio Grande do Sul, em uma paróquia, porque ele foi perseguido pela igreja católica. A igreja falava que padre não tinha que mexer com isso porque era coisa da ciência, que eles tinham que fazer a pregação religiosa e não mexer com isso.

Além disso, ele teve patente, que é o outro lado da história. Ele foi para os Estados Unidos e patenteou. Em 1904 ele já tinha a patente de rádio, mas o que acontece é que quando você solicita a patente, um grupo de cientistas verifica se isso é viável ou não e você tem que mostrar que você pode fazer o negócio funcionar. O padre não tinha dinheiro. Pediu auxílio para o governo brasileiro, mas não teve. Então ele tinha a patente, mas ele não tinha como produzir aquilo comercialmente. A fotografia também foi assim: foi inventada por Hércule Florence, em Campinas, muito antes de toda essa turma que entrou na história da fotografia, mas morreu em Campinas, ficou restrito a isso mesmo.

Isso sempre foi um desafio dos grandes cientistas. Tem um outro cara que é o Nikola Tesla. Ele é um gênio absoluto. Ele achava que transmitir áudio e imagens era uma coisa muito simples, então o que ele queria transmitir sem fio energia elétrica. Por que qual é o grande problema que nós temos com os celulares? Precisa carregar todo dia na tomada. Isso é pré-histórico. O recarregador é desconfortável, o fio enrosca, e o maior problema é que você tem que plugar na tomada. O Tesla não, queria que a energia estivesse em todo lugar. O pior é que ele provou que isso é viável e ele construiu os equipamentos para tentar, mas o que aconteceu com os outros cientistas que tinham uma outra visão das coisas? Quando Tesla apresentou as ideias dele de transmitir energia sem fio, ele passou a concorrer com Thomas Edson, que era o chefe dele. Ele foi contratado para pesquisar tecnologia da energia elétrica, mas ele foi tão a frente que ele acabou atrapalhando a vida do Thomas Edson. Thomas Edson ganhou muito dinheiro vendendo os princípios da energia elétrica e o Tesla desmontou tudo aquilo e criou um outro.

Esses caras foram colocados todos à margem da história, e o padre Landell de Moura é um caso parecido.

C: O rádio é um meio de comunicação que sempre estabelecia intimidade com seu ouvinte. Isso ainda existe?

Eu acho que sim. É que, às vezes, eu incorro no erro de levar pelo meu lado. Eu devo ter uns 30 rádios em casa. Onde você for em casa, tem rádio. Eu quero estar do lado do rádio, eu quero só virar, apertar um botão e ouvir rádio. Eu tenho uma verdadeira paixão. É que nem aquele cara que acorda de madrugada para fumar: eu acordo de madrugada e tenho que ligar o rádio. Não tem jeito. Toda madrugada, três ou três e meia da manhã eu tenho que ligar o rádio. Claro que esse é um exemplo patológico, não é um caso normal. Mas está cheio disso. O rádio é o veículo de maior intimidade, a proximidade sua e do rádio é muito grande.

Veja, quando teve o atentado das torres gêmeas em Nova York, o 11 de setembro, vários bairros ficaram sem energia elétrica. As pessoas não sabiam o que estava acontecendo, só sabia quem tinha rádio e já era uma coisa que ninguém mais tinha, porque essa coisa foi sumindo do cotidiano. As pessoas já estavam acostumadas com outras coisas, só estava informado quem tinha radinho de pilha, que é uma coisa até difícil de encontrar na loja hoje em dia. Os que tinham radinho de pilha tinham notícia, os vizinhos eram socorridos e atendidos por quem tinha radinho de pilha, porque as emissoras de rádio continuaram transmitindo, mas não tinha como receber o sinal.

Você vai no banheiro, leva o radinho e fica lá ouvindo o jogo, notícia. Essa coisa não tem como ser substituída, porque o princípio todo é o mesmo, você só vai modernizando.

C: Você acha que o surgimento das redes sociais, que modificam os relacionamentos interpessoais, afetou o rádio?

Não, é outra coisa. Você falou tudo, é o relacionamento das pessoas entre si. É outra mídia. Parece aquela história: "Quando inventaram a TV, acabou o cinema. Quem vai no cinema se eu tenho o cinema em casa?" A televisão, só no Brasil, já tem quase 70 anos e, pelo que sei, o cinema não acabou, mas acabou o jeito de ir no cinema. Não tem mais aquele cinema de ir na esquina, no bairro. Hoje está quase tudo confinado no shopping, mas, você pega o caso de Santo André, que tinha mais de doze cinemas nos bairros, só transformou o meio de você usar isso aí.

Também quando apareceu o rádio muita gente falava "Ah, agora acabou o teatro, ninguém mais vai no teatro", e depois o rádio fez o rádio-teatro, a rádio-novela. Quando surgiu a televisão falaram "ah, agora vai acabar a rádio-novela". Não, ela virou telenovela, não é? Teve uma época em que ela virou fotonovela, para o pessoal que não tinha nem rádio, nem como ir no cinema, comprava no jornaleiro a novela com as fotografias estampadas. Eu acho que essa questão traz relacionamentos diferentes, você usa para outras coisas.

C: Mas na questão de usar a questão da rede social para estabelecer contato da rádio com o ouvinte...

Ah, sim, mas entra naquele exemplo do cara que usava o telefone nos anos 50 para entrar em contato com a rádio. Claro que a estrutura da rádio, a programação, teve que se adaptar a essas grandes mudanças. É o que acontece na Rádio AM hoje. O que que tem na Rádio AM hoje? Uma multidão de igrejas explorando o negócio do rádio, as evangélicas e, se não fosse um bom negócio, eles não estariam lá e não teria tanta gente concorrendo, porque é um belíssimo negócio. E o outro setor é a rádio de serviço, que tem sido a grande mudança na alteração da programação de rádio. A FM já não aconteceu tanto, embora temos várias prestadoras de serviço na FM, ainda mais agora que tem que ser tudo FM, pois o sinal do AM não vai ter mais.

C: Porque ainda tem o sinal de AM?

Porque ainda não liberaram o sinal da TV analógica, que vai ser usado pra FM. Então, todas as emissoras vão ter que se transformar em FM. É uma coisa complicada, o raio de alcance da transmissão é menor. A AM vai longe. A tendência é que o rádio se torne mais local ainda. Claro, se o sinal daqui não chega em Campinas, eu estou reforçando que tenha uma emissora, ou emissoras, em Campinas. Você tem melhoria da qualidade do som, mas tem problemas sérios na questão do alcance. Pode também ter uma grande quebra de emissoras de rádio que não vão ter dinheiro para atualizar.

A Rádio ABC de Santo André. Será que ela vai ter fôlego? O ABC que tem 2 milhões e meio de habitantes tem só uma emissora de rádio. A Rádio ABC é a única. Mas se você quiser saber da região, onde que você vai saber informações da região? Sou um cara antenado, quero saber se tem trânsito na Av. Dom Pedro no final da tarde... A Rádio ABC faz isso.

O grande problema nosso do ABC é que estamos sitiados. Sabemos tudo sobre São Paulo. Eu já trabalhei várias vezes nas eleições como mesário e cansei de ver o cara que chega para votar e fala "mas meu candidato não aparece aqui", porque ele tinha toda a campanha de São Paulo na cabeça e queria votar no candidato de lá, e não sabia que tinha candidato daqui. Isso é comum. É que nem horário eleitoral. Você está no ABC e está ouvindo a Marta, o Russomano...

Tem uma rádio AM, a Rádio Trianon, na Av. Paulista. Esta Rádio é a antiga Rádio Santo André e envolve a questão das chamadas rádio-voadoras. O rádio é uma espécie de cheque em branco: vale muito dinheiro. Lá, nos tempos de Vargas, se você era amigo do governo eles te davam uma concessão de rádio. Porque que a televisão uma é do Silvio Santos, outra é da família Marinho? Porque eram amigos poderosos e a concessão é hereditária: vai morrendo e vai passando para o herdeiro. Chega uma hora em que alguém fala: "Não quero. Não vou botar dinheiro nisso aqui". Daí vende, empresta ou aluga a concessão. A Rádio Trianon, que pertence à UNIP, se pegar o endereço da Rádio é na Rua Catequese, lá em Santo André e, no horário da campanha política, eles transmitem, em São Paulo, a propaganda dos candidatos de Santo André. É o inverso, mas como ela não tem audiência, também não vai afetar. Tanto que você nem sintoniza ela no ABC. Isso, de uma certa maneira, impede o crescimento do rádio, porque está em mão de pessoas extremamente conservadoras que não querem mexer na coisa toda.

C: A vida das pessoas, hoje, parece mais corrida, com menos tempo livre. O rádio, como veículo tão instantâneo, tem vantagens?

Sempre falando na minha opinião, que é um tanto patológica, sim. Todo mundo tem rádio no carro. Primeiro você dá a partida e depois já liga o rádio. É automático. O que pode se discutir é aquilo que está sendo transmitido. A qualidade, o conteúdo... E ai ficam os acadêmicos falando sobre isso, fazendo doutorados, pós-doutorados sobre a programação, o que leva a uma outra questão. Mas nenhum veículo chega nessa proximidade. Mudam os hábitos, mas o rádio permanece como o instrumento de comunicação.

C: Falando da programação, fizemos o levantamento das 10 rádios mais ouvidas em São Paulo, e apenas uma é de cunho jornalístico, a Band News. Isso representa uma relação “fraca” entre o jornalismo e a plataforma do rádio?

Com certeza e está muito ligado em como o nível cultural e educacional do brasileiro foi parar lá embaixo. Você não pode comparar o nível de educação e de cultura que o Brasil tinha há 40, 50 anos atrás com o de hoje. Educação e Cultura no Brasil foram jogados no lixo. Isso não é prioridade. Quer dizer, a questão da audiência do rádio, como a audiência da TV, está ligada ao nível educacional e social do povo. Você vai no exterior, liga o rádio ou a televisão, você fica alucinado. Acostumado com a programação de tão baixa qualidade, lá não tem esse tipo de programação, não pega. Lá estão debatendo ópera, música clássica, mas esse entretenimento... As rádios do levantamento tocam as músicas de mais baixo nível possível e, então, o rádio sofre no Brasil como a televisão também.

Quando alguém tenta fazer alguma coisa inovadora na televisão a audiência vai lá embaixo. A Globo tentou fazer umas novelas de conteúdo um pouco mais intelectualizado e o que aconteceu? A audiência despencou, já que você não tem nível cultural para entender as coisas. Então não me surpreende, não. Embora, algumas dessas emissoras no ranking musical tenham algum noticiário em algum momento.

Então o rádio sofre, assim como todos os meios de informação, desse tipo de procedimento. Agora, a Band News é um efeito como o da CBN. As emissoras mudaram completamente a forma de noticiar. Conseguem preencher grade 24 horas por dia, com entrevistas, não é reprise. Vejo coisas muito importantes nessas emissoras. Ensinando questões jurídicas, de saúde, que isso não ensina na escola. Hoje em dia se aprende muito pelo rádio. Agora, é um público elitizado também.

Só que isso não é problema do rádio. Se o país fosse um país altamente civilizado, no sentido de um alto nível de educação e alto nível cultural, o rádio estaria seguindo isso, mas ele tem que seguir aquilo que “o povo quer”. É uma lástima, mas ele não perde o valor dele enquanto veículo de comunicação e só se adapta porque é uma empresa. É uma atividade comercial. Vive de dinheiro, de patrocinador.

C: Como é a produção de rádio no curso de RTV na Universidade Metodista?

A Metodista faz umas coisas muito interessantes de rádio, na Sônica. Avançaram muito e eles não perdem o link com o passado. Eu entrei exatamente porque estavam usando os arquivos do tempo em que eu fazia a rádio Metodista On-line, com entrevistas. Pessoal do rádio, velhos locutores de rádio, locutores esportivos, pessoas que faziam rádio-novela, até com o Paulo Machado de Carvalho Filho, que já morreu, e fazia um programa semanal. Preservaram todo esse material e estão recolocando esse como memória metodista.

Teve uma entrevista que eu fiz com o Tom Zé, em 2005. Eu acho ele totalmente fora do eixo, com uma cabeça fantástica, e a entrevista passou esses dias na programação da rádio. Ele e a turma toda da MPB, na época da censura brava mesmo, vinham para a Metodista, que servia como uma ilha de refúgio, porque a repressão, por mais radical que fosse, sempre respeitou a autonomia universitária, então chegavam só até a porta. Só foram entrar uma vez, na PUC, em que entraram e bateram nos estudantes.

Então, a Universidade era um lugar para você se esconder, e aqui o curso de comunicação já era muito avançado. Aqui dentro você exibia os filmes que a censura não autorizava, você trazia palestrantes que não podiam falar em público, e também trazíamos os artistas que não podiam cantar. Eu lembro que o Tom Zé vinha em troca de comida, porque não tinha nem o que comer. A maioria vinha aqui porque você oferecia um jantar, e o jantar que eu digo era uma comida no boteco ali, e eles vinham em troca disso. Muitos vieram fazer show, muitos. Ainda arrecadavam um dinheiro para comer no dia seguinte.  O auditório, na exibição de filmes no final dos anos 70, ainda com o AI-5, lotava e depois tinha gente querendo entrar, sem ter como. Era um sufoco.

Toda essa turma, Toquinho, Chico Buarque. Todos passaram por aqui. O Partido dos Trabalhadores (PT) quase que surge aqui dentro. Como era em São Bernardo, a repressão estava muito forte, e a Metodista era única universidade particular do ABC que tinha um campus, vinham para cá.

Fizeram, alguns anos atrás, um livro que conta a história dos 30 anos do curso de Jornalismo da Metodista e tinha um grande levantamento na imprensa. Lá encontraram todas essas promoções do que fazíamos aqui dentro, de trazer gente... Dom Hélder Câmara, que na época era um nome forte, veio aqui, Luiz Carlos Prestes, que era secretário geral do partido Comunista.... Passaram todos por aqui. A gente aproveitava o rádio nesse tipo de coisa. Embora a transmissão pegasse até o quarteirão seguinte, a gente estava produzindo.

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