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Estado, religião, mídia e direitos humanos é tema de Aula Magna do PósCom

16/03/2017 20h15 - última modificação 04/04/2017 17h54

Foto: Fernanda Neves

Pedro Zuccolotto e Vittória Cataldo

Comunicação e religião, mais do que nunca, estão atreladas fortemente. Na atual conjuntura política, a religião vem ocupando um espaço considerável na mídia. Ao mesmo tempo, vários acontecimentos mundiais têm levantado o debate sobre direitos humanos ao público. Visando refletir sobre esses temas e o impacto da mídia nesse contexto, foi realizada a Aula Magna do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social sobre “Estado, religião, mídia e direitos humanos”, no dia 13 de março, na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), campus Rudge Ramos.

Participaram da Aula Magana três convidados. Fernando Altemeyer Junior, graduado em Filosofia pela Faculdades Associadas do Ipiranga, em Teologia pela Fac. de Teologia N. Sra. da Assunção, com mestrado em Teologia e Ciências da Religião pela Universidade Católica de Louvain-La-Neuve na Bélgica e com doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Helmut Renders, doutor em Ciências da Religião pela UMESP. Tem estágio de Pós-Doutoramento em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora é coordenador e professor do Programa da Pós-graduação em Ciências da Religião da UMESP e da Faculdade de Teologia.

Sheikh Jihad Hammadeh, formado em Teologia e Jurisprudência pela Islamic University de Medina (Arábia Saudita), em Ciências Sociais pela Universidade de Santo André (UNI A) e em História pela Universidade Bandeirante de São Paulo (UNIBAN). Também é mestrando em Comunicação Social pelo PósCom da UMESP e é Sheikh representante da comunidade islâmica no Brasil. Atualmente é diretor da Assembleia Mundial da Juventude Islâmica da América Latina (WAMY) e presidente do Conselho de Ética da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI).

As falas da Aula Magna foram mediadas pela professora do PósCom, Magali Cunha, que em sua fala de abertura destacou a importância da temática para o campo da comunicação no Brasil. “Hoje, é impossível tratar comunicação e desconsiderar religião e direitos humanos. São temas que estão articulados, correlacionados, e estão no nosso noticiário todos os dias”.

Altemeyer iniciou sua reflexão fazendo algumas considerações conceituais com indicações de livros e autores relevantes para a temática. Começando por Antônio Gramsci, que analisa como os aparelhos do Estado se manifestam. Fernando fez um paralelo com a atual situação política em alguns países, como na França, citando Le Pen – que possui 33% do apoio da sociedade francesa –, e no Brasil, citando Michel Temer. “Não é simplesmente Rede Globo, é algo mais profundo que a gente precisa perceber”, comentou sobre o Estado tentando manter a hegemonia sobre o povo.

“Quem foram os vices de toda a república? Sempre foi alguém da elite que ficava lá para dar o golpe e destituir”, afirmou Fernando Altemeyer, citando logo em seguida Sarney e Tancredo, Itamar e Collor e, o caso mais recente, Dilma e Temer.

Ele ponderou ainda sobre duas questões atuais. A primeira seria de que o século XXI é o século do risco religioso, um risco mais profundo, e que seria necessário enfrentar um desvelamento colocado pelo imperialismo através da mídia. A segunda questão seria da descolonização política, econômica e comunicacional dos países, tendo em vista o retrocesso brutal que está ocorrendo em vários cantos do mundo.

Para finalizar, Fernando Altemeyer sugeriu o livro O Conceito de Deus Após Auschwitz, de Han Jonas, que se inspirou no famoso Diário de Etty Hillesum, uma judia que decidiu ir ao campo de concentração, por conta própria, para tentar ajudar e dar esperança aos judeus, concluindo que devemos nos ajudar mutuamente mais do que nunca nesse momento de cegueira moral. “Se cada um de nós colocar sob suas asas alguma causa social, algum empenho, até nas suas teses, isso fará com que a gente amplie um pouco esse horizonte de esperança que anda bem pequeno”, finalizou.

A fala seguinte foi Helmut Renders, que propôs apresentar o tema na perspectiva protestante e começou falando sobre a banalização do fascismo. “É muito importante que a nossa memória não transforme o fascismo em uma forma de globo, uma questão de tema. É um sistema muito mais eficaz e mortal ideologicamente construído”, iniciou.

Para ele existem três pontos de convecções religiosas que reconhecem e promovem a liberdade na particularidade das outras religiões. O primeiro é que a religião que valoriza a liberdade é aquela que não segue a cultura dos sacríficos. A vida, segundo essas religiões, só pode ser defendida se alguém morre por meio do sacrifício. O mercado, de certa forma, segue uma lógica sacrificial, demitindo pessoas se há crise, por exemplo.

O segundo ponto é a proposta de uma religião que lide abertamente com os outros sem recorrer à violência – usando os adventos da comunicação, por exemplo. É preciso desfazer inimizades reais estabelecidas para quebrar o ciclo vicioso da violência, do ódio, e criar o ciclo virtuoso da paz, empatia e hospitalidade.

O último ponto é considerar a injustiça, desigualdade e descriminação sofrida por outros como sua. “A liberdade do outro, essa é a liberdade que realmente faz diferença”, disse Helmut sobre esse ponto. É necessário, inclusive, transcender o campo da religião e usar a empatia com todos. Segundo ele, esses três pontos são essenciais para que a sociedade possa evoluir em conjunto com a religião.

A Aula foi finalizada com alocução do Sheikh Jihad Hammadeh que comentou sobre o sistema adotado pelo governo Islâmico. Segundo ele é errado afirmar que esse sistema é teocrático, pois é um sistema próprio e que está diretamente relacionado às religiões islâmicas. Sua fala também foi marcada pela recuperação do debate sobre a questão dos valores na sociedade contemporânea. “O nosso problema hoje é uma crise de valores e não uma crise de dinheiro”, comentou o Sheikh, explicando que nunca houve tanto dinheiro produzido como hoje, porém o mesmo está distribuído entre poucas instituições e pessoas devido à quebra dos valores.

Ele ainda afirma que a crise política se dá devido à crise de valores, pois quando não temos valores, devemos esperar qualquer tipo de crise e não apenas no patamar político governamental, mas dentro de nossas casas também.

O Sheikh foi categórico em dizer que a mídia exerce um papel preponderante na formação da opinião das pessoas sobre quase todas as questões atuais. Quando pensamos em “bomba” ou “terroristas”, nós imediatamente associamos com os muçulmanos e com a cultura árabe. Essa visão é responsabilidade da mídia. Hammadeh comentou que hoje a religião é uma mercadoria, que Deus virou um produto para algumas pessoas e explica que o problema não está na religião, mas sim nos religiosos, pois a mesma continua intacta do jeito que Deus a deixou. A questão é se você pratica e com qual finalidade. “Quem é Al-Qaeda? Quem é Estado Islâmico? Quem é Osama Bin Laden? Quem fez essas pessoas? A mídia, que está ligada aos interesses do Estado”, diz Jihad.

Ao final, o Sheikh afirmou que os muçulmanos podem até ser intolerantes, mas a religião não, e que não precisamos construir os valores porque eles já existem, mas que precisamos pratica-los através da conscientização.

A Aula Magna foi encerrada com uma rodada de perguntas e comentários, onde os convidados esclarecem as dúvidas sobre a temática. Durante a Aula, Izabel Meo, mestranda do PósCom, produziu um painel utilizando a técnica de facilitação gráfica, acessível clicando aqui. A professora Magali Cunha encerrou agradecendo os convidados e os participantes pela participação.

Confira abaixo o Podcast sobre a Aula Magna:

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