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Consumo musical e a construção de identidades

16/11/2016 12h15 - última modificação 04/04/2017 17h46

Professor Herom Vargas Silva (UMESP). Foto: Pedro Zuccolotto.

Arthur Marchetto

Pedro Zuccolotto

Nos dias de hoje, o consumo é um importante balizador de identidade. É por meio das roupas, dos livros, dos programas de televisão e até das tecnologias e redes sociais utilizadas que se montam grupos, tribos urbanas e comunidades virtuais. Dentro desse processo, o consumo cultural tem um papel importante. Herom Vargas, docente na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), falou sobre como o consumo musical influencia a construção de identidades.

Segundo o professor, a música constrói a identidade por dois caminhos. “O primeiro é pelo gosto, pela preferência”, explicou o professor, que é constituído conforme a cultura e os círculos sociais. O segundo caminho é o do consumo, não só da música, mas dos fatores que orbitam quaisquer gêneros “Roupa, comida, lugares relacionados com a música. Ou seja, pelo consumo a gente também se relaciona com a música e constrói um jeito de ser, de pensar e tudo mais”, disse Vargas.

No entanto, comentou o perigo de supervalorizar a influência do meio e tornar a construção da identidade uma aplicação de preconceitos.  Ao falar sobre como a música molda identidades, Herom comentou que “não dá para estabelecer uma regra, não é algo mecânico”. Isso ocorre porque, segundo o professor, o consumo das músicas gera “sugestões, situações que levam a determinados comportamentos que não são sempre iguais”, mas, não é possível dizer que consumir um determinado tipo de música moldará alguém de uma maneira enquadrada, pois hoje existe uma maior liberdade de escolhas de produtos a serem consumidos, principalmente por conta da internet.

“Essas identidades são muito flexíveis”, comentou Vargas. Como as músicas não estão intrinsecamente ligadas a grupos sociais, a situação se torna complicada, “sobretudo com a juventude que está muito mais em busca de coisas, às vezes diferentes. Eles acabam ouvindo várias coisas e, ao ouvir várias coisas, acabam se identificando aqui e ali com uma e com outra de forma transitória”, disse o professor. Além disso, Herom comentou sobre a estrutura da música popular, da importância do reconhecimento e do Nobel para o músico Bob Dylan. Confira a entrevista abaixo:

 

CÁTEDRA UNESCO/UMESP: Como é possível relacionar a música à construção de identidades?

Herom Vargas Silva: Basicamente, por dois caminhos. O primeiro é pelo gosto, pela preferência que cada um tem. Esse gosto não é uma manifestação exclusivamente individual, ela pode ser social, grupal. A construção desse gosto também tem a ver com a cultura, com as pessoas com as quais a gente conversa, vive, de quem a gente gosta, etc... Em segundo lugar pelo consumo. A gente consome coisas que tem a ver com esse gênero musical. Não só a música em si, mas o que orbita essa música, o que está ao redor dessa música:

C: Um grupo social pode pressionar alguém a se relacionar com um tipo de música?

HVS: Não sei se pressionar de forma direta e mecânica. O que existe é uma sugestão, então, se você começa a sair com seus amigos, gosta desses amigos e acha que eles têm boas ideias, sugestões legais, você acaba aderindo. Repito, não é uma coisa mecânica, mas existe uma tendência de gostar das músicas que eles gostam ou, pelo menos, se aproximar das músicas que eles ouvem e, talvez, passar a gostar. Repito, não é mecânico, mas o ambiente social te baliza para gostar ou não, para consumir ou não, para compartilhar ou não. Tem tanto um pé no indivíduo como também no social, nos relacionamentos.

C: É uma forma orgânica, então?

HSV: Não dá para estabelecer uma regra, não é algo mecânico. São sugestões, situações que levam a determinados comportamentos que não são sempre iguais. De uma maneira geral, a gente tende a gostar daquilo que as pessoas que a gente gosta também gostam.

C: Esse gosto comum cria traços de identidades também comuns no grupo?

HSV: Isso, de identidade. A gente fala um pouco sobre as mesmas coisas. Se a gente gosta do grupo X, as coisas que se referem a esse grupo X irão de alguma maneira pertencer ao nosso cotidiano, ao nosso pensamento. Digo “de alguma maneira” porque não é uma obrigatoriedade, não há uma pressão. Não somos obrigados, mas de alguma forma isso nos sugestiona. Agora, eu posso ser seu amigo e não gostar da sua música também, não é uma situação estanque.

C: E do mesmo jeito, pode interferir ou não?

HSV: Isso. Eu posso andar com uma turma, mas não partilhar das mesmas coisas que essa turma gosta. Vai ser difícil porque, geralmente, essa sociabilidade se dá também pelo gosto, seja ele cinema, música, ou outra coisa. A música é um elemento central porque a música popular está muito no nosso dia a dia. A música popular é um pouco trilha do nosso cotidiano, ela tem um peso muito forte. Em um artigo do Pablo Villa ele comenta isso, a música tem uma capilaridade na nossa vida muito mais forte do que a literatura, o cinema... a gente ouve música a todo momento, mesmo sem querer e essa que é a questão. O cinema a gente vai ao cinema, livro a gente tem que pegar e abrir, TV a gente tem que ligar, música não. Você está andando no meio do corredor e ouve alguma coisa. A audição é um canal perceptivo sempre aberto, deflorado culturalmente e socialmente.

C: Como o Middleton critica a relação comportamental com os tipos de música?

HSV: Ele critica uma teoria que era defendida na Inglaterra, se eu não me engano, de que um tipo de música é produto de um tipo de sociedade. Ou que viver numa sociedade é ouvir determinado tipo de música. Essa relação mecânica não existe, como tudo hoje em dia, em que as identidades são muito mais móveis, fluentes. Uma pessoa pode gostar do axé, mas vai também num show de sertanejo e curte punk... uma pessoa gosta de várias coisas e um tipo de música é também ouvida por vários tipos de pessoas. Middleton critica essa análise mecânica, a relação mecânica entre determinado grupo social e determinada música.

Em alguns casos até existe, mas isso não é regra, não tem como estabelecer uma regra, sobretudo as músicas massivas, as músicas de sucesso que tocam por aí. As vezes um gênero musical que é de uma região, mas não dá para generalizar. Em termos de teoria, não dá para estabelecer essa relação mecânica e é mais ou menos isso que ele critica. Ele propõe ao contrário, que identidades vão sendo construídas, o gosto vai sendo construído e não há essa relação entre grupo social e um tipo de música, pelo menos não dessa maneira dura, mecânica.

C: É possível fazer uma relação, no Brasil, entre identidade e música?

HSV: Sim, a gente tem músicas que são brasileiras. Ninguém estranha, por exemplo, o samba. O samba tradicional. Claro que, vamos supor, um indígena da Amazônia talvez estranhe porque não é uma cultura próxima a dele, mas, de uma forma geral, mais de 50% da população brasileira tem o elemento de memória do samba. Já ouviu, sabe mais ou menos o que é, conhece algum cantor, conhece alguma música... Tem também músicas que são mais regionais, e aí constrói-se uma identidade, um gosto regional. Um samba de Pirapora, por exemplo. Na época de carnaval tem grupos ali, de samba rural em São Paulo, que tocam um tipo de música específicos da época e de grupo muito restrito de pessoas daquela cidade, aí é um elemento de identidade bem local, muito especifico. No caso da música nacional dá para fazer uma relação entre identidade e música, mas de forma bastante genérica.

C: Os artistas musicais se tornam influenciadores?

HSV: Sim, sobretudo os de massa, os massivos, os de maior sucesso e que aparecem a todo o momento, não só pela música como também pelos meios de comunicação em entrevistas, no jornal, na rádio ou em vídeo clipe. Hoje em dia os shows são elementos importantes de relacionamento entre artista e público, não que antes não houvesse, mas hoje em dia, com a música no rádio, o disco perde um pouco o espaço para esses grandes eventos, sobretudo os shows mais produzidos.

Eles acabam sendo influenciadores, mas dentro de um leque de outras influências, e aí cada indivíduo ou grupo seleciona e reconstrói as influências que recebe. Esses músicos, esses cantores, estão uma dentro desse leque de influências.

C: Como que a internet mudou essa relação público e artistas e produtores?

HSV: Acho que é basicamente um outro canal de consumo para músicas. Não que acabe a música massiva, de sucesso. Ela essa continua existindo. Temos ainda Ivete Sangalo, e outros grandes artistas de grande sucesso, mas a internet abre outros canais de diálogo, de distribuição, de divulgação de músicas que não estão no grande sistema, que era todo controlado pela indústria fonográfica e pelas gravadoras.

As gravadoras continuam, mas agora a internet possibilita um outro tipo de conexão artista-público. Muitas vezes é uma conexão direta: você entra no site do artista, faz o download da música que você gosta e, a partir daí, você vai no show do artista, se te interessar. Sem a interferência da gravadora, e quando eu digo “interferência da gravadora” lembro que o rádio estava vinculado à gravadora, a música que era gravada tocava no rádio, entrava na trilha sonora da telenovela. Era um mecanismo mais ou menos articulado: gravadora, rádio e TV.

Hoje em dia continua articulado, só que existe uma outra opção que não é opção massiva, é a do contato via internet com a música e com o músico. Às vezes o pessoal mais novo chega e pergunta “Herom, você conhece o grupo X?” e eu nunca ouvi falar. “O grupo X, não têm disco gravado, mas eu achei na internet”.

Você acha muita coisa na internet, de outros países também. Para quem se interessa é muito legal, porque você começa a ouvir coisas que nem imaginava, já que não estava nesse grande circuito. Até poderia chegar em você, mas demorava um século, custava caro... Quer dizer, o acesso hoje é muito mais facilitado, só tem que ter alguém interessado nisso. Quem pensa em música como entretenimento vai continuar ouvindo o pagodinho de sempre, o sertanejo de sempre, a Ivete Sangalo de sempre, o que também não tem problema, mas quem gosta de buscar uma coisa diferente, a internet é um prato cheio, porque ela circula independentemente desse grande circuito massivo.

C: Você acha que essa facilitação de acesso, de um certo modo, tira as raízes de cada gênero e cada tipo de música? Por exemplo, o Sex Pistols, no começo, era um movimento punk mais anárquico, mas pela facilidade de acesso ele perde essa entonação e passar a ser apenas música pela música?

HSV: Ou não. Grupos punks ouvem Sex Pistols hoje e querem reconstruir o que os Sex Pistols fizeram. Eu não sei até que ponto os Sex Pistols foram tão revolucionários assim, é um grupo construído. Acho que Ramones é mais interessante, The Clash é mais interessante... Mas enfim, é como ideia. Quer dizer, esses grupos punks do final dos anos 70 podem ser ouvidos hoje e provocar no ouvinte algum elemento, alguma sensação, alguma vontade de mudar alguma coisa, de reconstruir, renascer o ímpeto revolucionário hoje em dia. Tudo depende de pensar a audição. Se for uma audição passiva, meramente circunstancial, ou se ela é uma audição com profundidade, com algum resultado ou alguma alteração. Depende mais de quem ouve do que exatamente da música em si, do processo em si.

C: Como que as diferenças culturais de cada país, ou continente, afetam no entendimento das narrativas musicais, na interpretação?

HSV: É uma questão de cultura no sentido antropológico, de como essas narrativas são construídas e, como narrativa, tem um pé no contexto. Pessoas de outras culturas vão entender de outra maneira essas narrativas, não necessariamente errado ou certo, mas vão entender e reorganizar esses sentidos de uma outra maneira. É como a gente hoje em dia ouvir um samba de roda do Recôncavo Baiano do começo do século XX. Samba de roda do Recôncavo tem uma situação especifica, instrumentos feitos com material da região, tocados em algumas festas da região, só que hoje a gente ouve e coloca um CD de música de roda gravado, põe lá no computador e fica ouvindo... Estamos em uma outra situação cultural, com outro repertório, só que a gente vai ouvir e vai tirar dali algumas coisas que não estão necessariamente na música. É uma releitura.

C: E aí, por consequência, uma formação de identidades também distinta?

HSV: Pode ser. No caso, samba de roda do Recôncavo, só para usar esse exemplo, se você ouvir vai perceber que tem elementos rítmicos que estão no samba carioca. Aliás, não é à toa que o samba carioca é assim, porque são migrantes baianos, nordestinos, que vieram para o Rio de Janeiro no começo do século e continuaram tocando aquelas músicas aqui, mas já num outro contexto, com outras influências. O samba foi sendo rearticulado, foi sendo readaptado, mas a gente ouve no samba do Recôncavo elementos rítmicos de toque, de instrumento, que estão presentes no samba carioca do começo do século. Quer dizer, essas manifestações são sempre traduzidas e vão se transformando conforme o público toca, ouve, refaz. Sistemas culturais nunca estão parados, estão sempre em movimento. Cada instrumento novo que surge muda a música que era tocada antes, e assim sucessivamente.

C: O que você pode dizer sobre o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, o Bob Dylan?

HSV: Então, polêmico isso, né? Em princípio interessante. Primeiro pelo reconhecimento de um musico, compositor, cujo a importância nos anos 60 e 70 foi muito grande. Segundo porque é um cara que vem da cultura pop, evidentemente. Essa cultura jovem e pop. Eu não lembro de ter outro cara de sucesso assim que tenha sido premiado, posso estar enganado mas acho que o Bob Dylan foi o primeiro.

C: Sim, foi o primeiro músico.

HSV: Músico, mas não um músico da música erudita. Ele é um músico pop, da música popular. Ele canta uma música que vem do folk, da música caipira norte-americana, mas tem uma importância pelo posicionamento político nos anos 60 e na carreira dele toda. Isso é interessante. A terceira coisa que eu acho interessante é a ideia de literatura, eu acho bem legal. Quer dizer, literatura se você concebe de um jeito tradicional é só o livro? É só o romance? É só a ficção? É só a prosa? Ou a poesia? Então, a gente pode encontrar a literatura em várias outras coisas. A propaganda tem literatura. Uma peça tem literatura, um filme tem literatura. Então, essa premiação...

C: Pelo visto foi pela importância que ele teve na cultura tanto norte-americana como na mundial.

HSV: Então, mas eu acho interessante isso. A literatura também está em outros espaços tradicionalmente não literários. A letra de música não é literatura no sentido tradicional, estrito. Por que não? Ela é literatura. Aliás, se a gente pensar bem, a música popular vem dos poetas cantadores, do período medieval. Na Grécia antiga também tinha isso. A poesia tem um elemento musical que é a sonoridade das palavras, que indica uma musicalidade, uma melodia. Então a canção é um espaço muito interessante para a literatura. Está cheio de exemplo de poetas que são também compositores.

Nosso Chico Buarque é o que? Ele nem é tanto um músico assim. Compõe bem, ok, e ele pensa a letra enquanto melodia, ok, mas ele tem uma articulação com a palavra que é sensacional. Ele conhece a linguagem. O Vinícius, que é tanto poeta, de escrever poesia na página, como também construir letras que não estão na página, mas que estão na voz. A poesia oral é um campo vastíssimo que é muito pouco estudado. Então, de repente, essa premiação aponta para entender a literatura não sendo só a construção tradicional de prosa e poesia. A literatura está em outros espaços, sobretudo na cultura pop.

C: É possível fazer um panorama das identidades formadas pelo jovem de hoje relacionado com as músicas mais novas?

HSV: Por um lado sim, mas de uma forma bem geral. Por outro, não, porque essas identidades são muito flexíveis. Da mesma forma como o Middleton critica, você não tem um grupo social em um tipo de música. Hoje em dia é cada vez mais complicado, sobretudo com a juventude que está muito mais em busca de coisas, às vezes diferentes. Eles acabam ouvindo várias coisas e, ao ouvir várias coisas, acaba se identificando aqui e ali com uma e com outra de forma transitória. Isso não é negativo.

A teoria pós-moderna vai falar que isso aí é a fragmentação do sujeito, que as pessoas não pensam direito e não é bem isso. O mundo, as coisas, sobretudo nas sociedades mais fortemente urbanizadas, são muito mais fluentes, mais móveis. Não quer dizer que a pessoa seja uma idiota, ela apenas não dá importância a determinadas coisas, mas, sim, para outras. Só que no dia seguinte ele pode mudar de ideia. A campanha eleitoral mostra bem isso: como em quatro anos o mesmo grupo que aprovou um candidato hoje não aprova e vota em outro. Não é que as pessoas são alienadas, as pessoas estão buscando uma outra coisa que a gente não sabe bem o que é.

C: As diferenças entre as pessoas numa mesma sociedade, como diferenças econômicas, mudam a maneira como a pessoa vai buscar a música?

HSV: A gente tem que tomar cuidado para não cair no estereótipo, porque ela facilmente cai. A gente fala: “quem gosta de funk carioca é aquele cara da periferia, é um negro, um mulato, um pobre que não conhece música, que só quer pegar meninas”. Não é assim, isso é um estereótipo. A gente ouve funk carioca tocando em balada universitária e a galera se esbaldando. Se você colocar estereótipos vai cair numa relação mecânica. Não que o estereótipo não exista, ele existe, mas não pode ficar muito em função disso. Eles são constantemente recriados, questionados e transformados.

C: E há, ainda hoje, o preconceito com quem ouve determinados tipos de música?

HSV: Sim, isso prevalece. A presença do estereótipo é isso. Geralmente o estereótipo é dado por meio de um preconceito e em ambos os lados. Se eu vou falar que quem gosta de música erudita estuda oboé, eu estou construindo um estereótipo, mas sendo preconceituoso também. Mesmo sabendo que essa pessoa estuda para mim é um nerd, um babaca que, em vez de curtir, vai estudar. Também estou sendo preconceituoso de uma certa maneira. O preconceito existe não só por conta da música, mas também pela roupa que veste, do lugar que frequenta, da balada que frequenta, de onde estuda, que praia que vai no verão...

C: Um vídeo recente mostra que em várias músicas pop há um trecho em específico sendo repetido na mesma tonalidade e ritmo. O que os estudos sobre a música e formação de identidade podem dizer sobre isso?

HSV: O reconhecimento é a chave. Por quê? A música pop é uma música comercial, tem que ser muito ouvida e assimilada facilmente. Reproduzir esses padrões é fundamental para o tipo de música. Existe um outro vídeo em que um grupo toca várias músicas usando sempre a mesma sequência de acordes, só que, em cima desses acordes, usam melodias diferente, a mesma estrutura harmônica. Qual a explicação disso? É processo de reconhecimento. A gente ouve e gosta daquilo que a gente conhece, daquilo que de, alguma maneira, diz algo que a gente mais ou menos já sabe. É a ideia do reconhecimento. Algo completamente estranho dificilmente a gente gosta. Muito difícil. Uma harmonia dodecafônica [técnica que se utiliza dos doze sons e foge do sistema tonal tradicional] você não vai gostar, porque é uma coisa completamente sem sentido para nós.

O que é ter sentido? É aquilo que a gente reconhece, que a gente entende, que a gente decodifica, que a gente ouve e fala “opa, eu sei o que é isso” e, ao saber o que é, o nosso espirito se apazigua, É como a comida. Você vai comer alguma coisa apimentada, ou que você não conhece, você não se sente confortável, mas, de repente, vem um arroz e feijão e pronto. Esse reconhecimento, satisfação de saber que aquilo que você ouve é conhecido é fundamental. No caso da música pop isso é fundamental porque é o tipo de música que se baseia no reconhecimento. Você não acha coisa estranha na música pop. Não dá. Não faz parte da natureza da linguagem pop. O que não quer dizer que não vá surgir coisas diferentes, elas surgem em pequenas pílulas.

O som do vídeo que você me mostrou parece uma coisa muito pequena para se transformar num modelo assim. Eu tenho dúvidas, mas é um modelinho. Eu acho que a coisa da harmonia é muito mais forte, porque é o tipo da coisa que ninguém percebe, mas você ouve e reconhece, até porque poucas pessoas sabem música, é mais difícil. Quem é musico ouve e fala, “mas é o mesmo acorde”. Quem está acostumado a tocar música pop sabe que tem umas repetições que são padrões, são modelos que são reproduzidos. Isso na literatura também existe. São determinadas construções de frases que se repetem. Metáforas. Quem estuda poesia sabe que tem metáforas gastas. O que são metáforas gastas? São metáforas que já foram muito utilizadas, mas algumas funcionam, o público lê e pensa “olha, que bonito”. A propaganda está cheia de padrões também que se repetem. O rádio está cheio também. Mas por quê? Porque se trabalha com uma ideia de reconhecimento. Não dá para falar que são coisas ruins.

 A linguagem, o meio pede essa relação com o ouvinte, com o espectador... o cinema também. Os tais filmes Hollywoodianos usam uma estrutura muito redundante, muito repetitiva. A telenovela dá até medo. São estruturas absurdamente repetidas. Não dá para fazer uma novela de vanguarda, uma novela que pesquise linguagens, porque não vai ter sucesso. Não cabe na televisão. A não ser que você produza isso com outra finalidade. As tentativas que alguns canais fazem são pílulas, são coisas pontuais, talvez muito mais para gerar notícia, para falar da Globo de um outro jeito. Na cultura popular folclórica, na cultura de massa funciona assim, mas isso não é negativo. O meio, a linguagem, a cultura funciona desse jeito.

C: Vai chegar um ponto que a estrutura estará tão gasta que será necessário mudar?

HSV: Eu acho que aos poucos isso pode ser alterado, mas já não sei, é futurologia. Eu acho que, talvez, chegue um momento em que as estruturas cansem, mas as coisas mudam, certamente. No vídeo mostrado tinha Beethoven, mas não quer dizer que de Beethoven para cá ficou igual. Os formatos foram se alterando. É um elemento que permanece, mas todo o resto mudou. A estrutura harmônica, o espetáculo, os meios, o consumo, o gosto, a sociedade... tudo isso mudou, entende? Um elementozinho pode ter permanecido, ok, mas todo o resto mudou. Você não vai falar que a música pop é igual Beethoven. A jogada é outra.

C: O contexto histórico e cultural é o responsável por mudar as músicas mais ouvidas mundialmente?

 HSV: É, e a própria dinâmica da música, da criação artística, dos equipamentos utilizados. O rock tem uma dívida com a guitarra elétrica, com a eletrificação. A eletrificação é dos anos 30 e 40, só que até isso ser aceito e usado por certos músicos demorou. Nos anos 60, o rock é devedor da guitarra elétrica, que veio dos anos 30. Ela vai sendo utilizada dos anos 50 para os anos 60. Já no caso da música eletrônica são os equipamentos eletrônicos, que também vêm da música erudita de vanguarda experimental, quando os equipamentos se popularizam, se tornam menores, portáteis e fáceis de manusear, que levou a música eletrônica dançante de hoje. Existe uma coisa cultural, técnica, tipo de arte, tipo de músico que produz... As culturas se transformam. Na verdade, são vários sistemas que estão em questão: o tecnológico, o musical, o artístico, o cultural, a audição e o público que consome isso.

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