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Comunicação e Religião é tema de Workshop UNESCOM de abril

28/04/2017 14h35 - última modificação 30/05/2017 19h03

Foto: Fernanda Neves

Pedro Zuccolotto

Comunicação e Religião são temas que estão fortemente interligados hoje, seja pela utilização de diversas mídias pelas instituições religiosas ou pela propagação massiva da fé através de ícones midiáticos. Com isso, novas pesquisas vêm surgindo para investigar esse novo panorama, mesmo que ainda em um cenário bem plural e em constante mudança. Buscando abordar esse contexto e explanar de forma didática os conceitos relacionados às pesquisas da área, o pesquisador Ricardo Alvarenga (jornalista, mestre e doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo), ministrou, no dia 26 de abril, no Campus Rudge Ramos, em parceria com a Cátedra Unesco/UMESP para Desenvolvimento Regional, o Workshop “UNESCOM Comunicação e Religião”.

Ricardo Alvarenga iniciou o Workshop abordando o estudo social da religião. Segundo ele, por muito tempo esses estudos foram conduzidos sob as rédeas conceituais da secularização, que seria o processo de separação gradual das formas tradicionais de estruturação social baseadas na religiosidade. A modernidade, portanto, seria o momento de ápice em que a liberdade dos pressupostos religiosos criaria uma sociedade mais livre. Contudo, com o passar dos anos, a religião sofreu transformações, permanecendo, porém, enraizada na sociedade, ainda que com menos poder e mecânicas menos incisivas. “Um exemplo que eu gosto de dar é que o próprio capitalismo absorveu a questão religiosa. Vocês já foram em algum shopping e viram uma placa escrito ‘capela’? É muito comum hoje em dia. Dentro dos shoppings centers há capelas e na maioria das vezes capelas ecumênicas”, destacou Ricardo. Há também outros exemplos sobre a presença religiosa na sociedade, como monumentos históricos amplamente conhecidos – Cristo Redentor e a Bancada Evangélica no Congresso Nacional.

A vida religiosa vem sendo transformada. As religiões consideradas “fora do padrão”, diga-se, as religiões que são minoria e não estão assentadas de forma sólida, estão se popularizando. “O próprio budismo tem crescido muito, o islamismo também. As religiões de matriz africanas foram meio que ‘gourmetizadas’ e hoje em dia é ‘cult’ você ser da umbanda, do candomblé”, disse Ricardo. Ele acredita que esse aumento pode ter sido favorecido pelo maior número de políticas públicas que garantem que as pessoas possam viver e assumir a sua religião, promovendo assim um empoderamento religioso. É sempre positivo existir um pluralismo de crenças.

Assim, com o crescimento de novas religiões e a sociedade caminhando na trilha oposta à teoria da secularização, novos estudos vêm surgindo. Cada vez mais, religiões que fogem da lógica da organização institucional e hierárquica estão surgindo. No Brasil, isso vai quebrando, aos poucos, a soberania massiva do catolicismo. Como exemplo desses novos movimentos religiosos, o pesquisador cita a religião de Santo Daime – que surgiu no interior da Floresta Amazônica nas primeiras décadas do século XX e que segue doutrinas de cunho cristão e eclético e reúne tradições católicas, espíritas, esotéricas, caboclas e indígenas em torno do uso ritual do milenar chá conhecido pelos povos incas como ayahuasca (vinho das almas). “Qualquer pessoa quando falar para vocês ‘igreja’, logo você remete a algo relacionado a um templo físico. A gente vai pensar num prédio, numa estrutura física ou em alguma representação, e essas instituições fogem disso”, complementou.

Ricardo abordou ainda, a mediação presente nas religiões. Todas as crenças possuem, de alguma forma, a necessidade de se ter uma mediação – seja através de uma oração ou de um padre. As instituições perceberam que seria mais interessante abordar as comunicações direcionadas para as massas, como rádios e TVs, criando assim a mediação através da mídia. Assim, a religião está atrelada à comunicação e se torna impossível pesquisar comunicação sem considerar a religião e suas dinâmicas sociais. Com o desenvolvimento da tecnologia, grupos religiosos vêm utilizando outras ferramentas, como a conversão por WhatsApp e a transmissão ao vivo de cultos pela TV, por exemplo.

Espetáculos de massa, eventos de mídia e estrelas cristãs fazem parte do universo midiático da igreja. Hoje, existem vários cantores gospel famosos, como o Padre Fábio de Melo, eventos grandiosos, filmes e séries, como a Dez Mandamentos, e até mesmo personalidades globalizadas, como o Padre Marcelo Rossi e o próprio Papa Francisco, uma personalidade popularizada na mídia, se tornando um produto – o que foge da lógica jesuíta, que prega a propagação da fé no anonimato. “O próprio evento da vinda do Papa ao Brasil, a igreja pensa aquilo na forma de um espetáculo. Quando você olha a estrutura que foi montada em Copacabana, por exemplo, era um palco para um show”, afirmou Ricardo sobre a vinda do Papa ao Brasil em 2013. Dando outro exemplo, Ricardo citou o Templo de Salomão, construído já com um viés de espetáculo.

Por fim, Ricardo abordou as perspectivas sobre as pesquisas envolvendo Comunicação e Religião, que estão em crescimento hoje. Suas frentes principais, constituindo um amplo panorama, são Comunicação e Catolicismo, Comunicação e Protestantismo, Comunicação e Pentecostalismo, Comunicação, Religião e Política, Ciber-Religião, Recepção de conteúdo religioso nas mídias, Produção de conteúdo religioso nas mídias, Comunicação e Espiritismo, Comunicação e Religiões de Matriz Africana e Comunicação e Islamismo. Contudo, ainda existem lacunas em relação às abordagens e pesquisas sobre religiões não-cristãs com as mídias no Brasil.

 

Confira também o vídeo feito pela Cátedra Unesco com Ricardo Alvarenga sobre Comunicação e Religião:

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