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Comunicação e desigualdade de gênero

A questão necessita de mais incentivo, reflexão e estudo para ser superada

08/03/2016 19h25 - última modificação 08/03/2016 19h42

Victoria Roman

A comunicação historicamente colabora para as conquistas feministas, não apenas ao ampliar a visibilidade de suas causas, mas ao ser vetor de debates polifônicos. Nesse contexto, é destacada a importância de suas profissionais primeiramente como ativistas e, gradualmente, conquistam posições dentro do jornalismo, publicidade, relações públicas e outras.

Um dos exemplos foi a pioneira, Francisca Senhorinha da Motta Diniz, que fundou em 1873 o semanário O Sexo Feminino. Esse jornal, além de trazer assuntos literários, informava as leitoras sobre os avanços das mulheres no exterior e fazia campanhas pelo voto feminino. No século seguinte, em 1934, um mês depois das mulheres conquistarem o direito ao voto no Brasil foi criada a revista Walkyrias pela paulista Jenny Pimentel de Borba. Em sua primeira edição o recado da diretoria já deixava claro as posições ideológicas da revista: “Walkyrias acolherá tanto os ataques como a defesa de todos os assuntos para esclarecer as mulheres, neste momento em que fomos elevadas à categoria de cidadãos”. Uma das colaboradoras, Bertha Luz, liderou junto com outras mulheres, durante 15 anos, uma campanha que pressionou o governo e congressistas pela liberação do voto feminino.

 A desigualdade de gêneros, um dos muitos desafios que a mulher ainda enfrenta todos os dias, não exclui a Comunicação. A professora da Pós Graduação da Universidade Metodista de São Paulo, Magali Cunha, diz que “as desigualdades presentes nos processos de comunicação entre mulheres e homens são reflexo das desigualdades que vivemos nos mais diversos espaços da sociedade”.

 Magali também fala sobre a falta de incentivo no meio acadêmico e na comunicação para participação feminina, “carecemos de mais incentivo, reflexão e estudo. A academia ainda é um espaço muito masculino bem como as redações das mídias noticiosas, as agências de publicidade, de relações públicas, enfim, o campo de trabalho em comunicação”. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, Magali também é Mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Cátedra UNESCO/Metodista: Qual a importância do papel da mulher na Comunicação?

Magali do Nascimento Cunha: As mulheres e os homens são seres humanos com igual capacidade de comunicar e de "tornar comuns" seus sentimentos, opiniões, conhecimentos sobre experiências da vida. Diria, portanto, que a comunicação é uma vocação e um direito humano, portanto, um direito igualmente referente a mulheres e homens, como humanos que são. Tanto as mulheres quanto os homens têm muito a contribuir com os processos de comunicação nos níveis micro e macro das nossas sociedades.

Cátedra UNESCO/Metodista: Você acredita que a mulher conquistou totalmente o seu espaço na área ou ainda há desigualdades?

Magali do Nascimento Cunha: As desigualdades presentes nos processos de comunicação, entre mulheres e homens são reflexo das desigualdades que vivemos nos mais diversos espaços da sociedade. Estas desigualdades resultam da formação da cultura patriarcal historicamente construída que colocou nos homens (pais, maridos, irmãos, tios) a responsabilidade de conduzir e prover a vida da família, da coletividade, e de determinar o destino das mulheres que não seria outro além de gerar filhos e administrar a casa. As conquistas por espaço social, para além da casa, alcançadas pelas mulheres ao longo do século XX e ampliadas no XXI são muitas mas ainda refletem elementos da cultura patriarcal que continuam colocando os homens como cabeças na família, em espaços de trabalho, na política, no valor do salário e na produção intelectual. 

Cátedra UNESCO/Metodista: Quais os nomes que mais inspiraram ou ainda te inspiram até hoje? Qual a contribuição dessas mulheres para a área?

Magali do Nascimento Cunha: Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, a jornalista e militante política, que viveu intensamente as primeiras décadas do século XX no Brasil, é sempre uma inspiração. Militante comunista, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas. Era muito comprometida com as causas da justiça para homens e mulheres. Fazia jornalismo com base neste comprometimento, o que é um desafio para jornalistas hoje, mulheres e homens, tão reféns do mercado e de mídias aliançadas a grupos de poder que promovem injustiça e divisão social. Pagu é o nome do importante Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade de Campinas e do caderno de estudos que ele publica.

Cátedra UNESCO/Metodista: Você tem alguma mensagem que incentive as mulheres que buscam o seu espaço na academia, ou na própria área de comunicação?

Magali do Nascimento Cunha: Carecemos de mais incentivo, reflexão e estudo. A academia ainda é um espaço muito masculino bem como as redações das mídias noticiosas, as agências de publicidade, de relações públicas, enfim, o campo de trabalho em comunicação. Basta perguntar por autores destacados na comunicação, e vamos ter uma lista grande de homens, e como primeiras menções, senão as únicas. Vemos várias apresentadoras na TV, mas poucas como referência em análise/avaliação social, em comparação com o número de homens que desempenham este papel. Isto mostra o quanto ainda temos que refletir, estudar e conquistar para que haja, não competição, mas reconhecimento igual às contribuições que homens e mulheres têm a oferecer na área.

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