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A perspectiva dos gêneros nas novas práticas jornalísticas

30/09/2016 18h46

Foto: Pedro Zuccolotto

Arthur Marchetto

Pedro Zuccolotto

Os gêneros são conceitos importantes no estudo de hábitos de consumo: eles representam uma visão de mundo. São uma das formas de expressão da cultura e do tempo histórico e social em que estão inseridos. Tomando de exemplo o Romance, um importante marco na história da literatura, ele não só demonstrava a transformação do pensamento político-cultural-literário, como também estabelecia uma expectativa de leitura na classe literária que o lia. Tal perspectiva é sentida em todos os gêneros, desde a novela até o jornalismo.

Por isso que, no “olho do furacão” das transformações na imprensa, os estudos de gêneros jornalísticos podem auxiliar a interpretar o momento. Marli dos Santos, docente na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), tratou do assunto e comentou algumas perspectivas nesses estudos e os problemas que são enfrentados. “Dentre as novas coisas que se precisa saber estão as narrativas transmídia, o jornalismo de dados, a cultura hacker e também uma revisão dos valores éticos e da credibilidade jornalística”, disse a professora.

Sobre as narrativas transmídia, comentou sobre a apropriação da linguagem do HQ ou de mini-docs para a produção de reportagens. Por exemplo, em uma reportagem composta por depoimentos e infográficos todos os dados se complementam mas, em sua individualidade, eles têm autonomia. “Isso só é possível porque você tem características na internet que facilitam essa possibilidade de uso multimídia, de hipertextos e hiperlinks”, afirmou Santos.

Além disso, o jornalismo apresenta uma tendência de ser estruturado por dados, criado pelo excesso informativo, o big data - um espaço com diversos algoritmos de informação. Hoje é possível fazer o jornalismo investigativo utilizando a apuração por meio do jornalismo guiado por dados, mas “nós não temos ainda formação no Brasil para isso”, explicou a docente. Com esse espaço, o jornalista precisa incorporar na sua prática uma cultura hacker: hábitos colaborativos, de abrir os arquivos e ter transparência na informação.No momento sensível, “quando você não é mais o arauto, quando você tem outras pessoas que informa, você precisa aprimorar o seu fazer, para você ter um reconhecimento com um discurso social importante”, pois, caso contrário, o jornalista não tem nenhum papel, conclui Marli.

Confirma a íntegra da entrevista abaixo: 

CÁTEDRA UNESCO/UMESP: Qual a importância de se estudar gêneros?

Marli dos Santos: O estudo de gêneros é importante porque se a gente tomar como referência o Bakhtin, ele vai nos dizer que a gente se comunica por meio de gêneros. O gênero aciona uma visão de mundo que nós temos. O Bakhtin fala que nós temos gêneros primários e secundários. Os primários são aquelas interações que ocorrem no cotidiano e os secundários são os que exigem uma elaboração e que vão fazer parte de um determinado repertório – como o jornalismo, ou a novela.

Por exemplo, quando a gente vai assistir uma novela, nós acionamos um repertório já enquadrando a novela. A novela é ficção, tem uma característica X, tem um mocinho, tem um bandido... tem algumas novelas que uma vez ou outra mudam um pouquinho essa narrativa, mas a gente já tem uma noção do que é novela e já a assistimos com essa perspectiva de ser um produto da ficção. A mesma coisa ocorre com o jornalismo: quando a gente assiste a uma reportagem, uma notícia, uma entrevista ou um comentário vamos acionar alguns esquemas cognitivos que vão nos ajudar a perceber as coisas e a dar qualidade às coisas. Então o gênero nos ajuda a organizar a nossa realidade, o nosso entendimento da realidade, porque se a gente não tivesse o gênero seria muito difícil a gente divisar, por exemplo, ficção de realidade. A gente sabe que o jornalismo está atrelado à realidade, embora seja uma representação, um discurso, ele tem uma ligação com a materialidade dos fatos e é isso que a gente deseja: a percepção que a gente tem quando assiste um telejornal ou lê um jornal. O gênero é fundamental na comunicação.

C: É um contrato de leitura mais abrangente...?

MS: É um contrato de leitura que você estabelece com o jornalismo – isso na visão de Charaudeau, um teórico que trabalha com a análise de discurso. Então você tem a essa relação que você estabelece e esse repertório cognitivo que vai nos ajudar a compreender e a colocar as coisas dentro de um enquadramento.

C: É benéfico para a sociedade dispor de vários gêneros?

MS: Na verdade, é uma construção. O jornalismo não cria gêneros à revelia. Os gêneros estão inseridos em contextos históricos, culturais e sociais. Então, por exemplo, quem separou primeiro a opinião da informação foi um cara que era editor do Daily Current em 1701. Em um primeiro momento, ele precisava diferenciar o periódico que ele dirigia porque ele estava perdendo leitores – naquela época se fazia comentários e gêneros opinativos sobre as guerras –, e ele resolveu separar opinião de informação. Só que naquela época, início de século XVIII, o contexto era um contexto que exigia análises, explanações, visões sobre os fatos muito mais que informação porque o processo de urbanização não tinha ainda se configurado, estava em um momento de transição, saindo dos processos feudais para o mercantilismo e depois para a primeira Revolução Capitalista. O mundo estava em transição e o gênero informativo não era um gênero tão essencial para as dinâmicas sociais da época. O que as pessoas precisavam conhecer e saber era a opinião dos intelectuais, que produziam jornais, sobre os acontecimentos. Leituras políticas. O jornalismo nasce também com uma característica mais política. Não adianta você inventar fórmulas do nada. É óbvio que, depois, o paradigma que ele cria é consequentemente, a partir da prática, absorvido para se justificar uma classificação de gêneros que separa opinião de informação, mas ele quis separar opinião de informação não porque tivesse alguma proposição teórica sobre isso, mas porque foi uma estratégia mercadológica. Só que, naquele momento não existia um mercado de consumo de informação jornalística.

A gente só começa a entrar numa fase informativa, de primazia da notícia no século XIX e isso tem a ver com as transformações, com a urbanização, com a Revolução Industrial... as mudanças todas propiciadas que ocorrem no seio social e cultural fomentam uma necessidade de informação. As informações precisam circular e as pessoas precisam lidar com isso na urbanidade. Na metade do século XIX para o início do século XX, uma primazia da notícia que segue com o primado da reportagem, que surge principalmente lá para os anos 20, anos 30, quando ocorre o Crash da bolsa de valores dos EUA. Muito se atribuiu à imprensa, porque a imprensa comprava os releases, as notícias que eram vendidas ou veiculadas a partir das empresas de relações públicas. As relações públicas nascem com a assessoria de imprensa, criada pelo Ivy Lee em 1906. Aí a partir dessa empreitada do Ivy Lee todas as empresas americanas tinham assessoria de imprensa que trabalham na perspectiva das relações públicas e na perspectiva da persuasão, da omissão, do cala boca, do jabá... e toda a imprensa é levada a comprar aquilo que as empresas vendiam como informação. Só que as coisas não estavam bem e em 1929 houve um crash. Aí, você já tinha o gênero reportagem, mas ele se torna absolutamente essencial porque se cobra do jornalista. “Pô, mas então que independência é essa do jornalismo? Vocês vão comprar toda pauta que a assessoria de imprensa vender?”.

C: Então a classificação de gêneros não é algo fixo?

MS: Não, o gênero muda conforme a realidade histórico social e cultural. Você tem uma dinâmica. Antigamente, na época de Aristóteles, se achava que gênero era fixo, imutável. Mas o Bakhtin vai trazer essa outra perspectiva dizendo “olha, o gênero evolui. Ele tem a ver com as práticas cotidianas, com a cultura e com a história”. Está intrinsecamente ligado a essa produção dentro de um sistema que a gente chama de Sistema de Linguagem, que é muito mais que o idioma. A linguagem é aquilo que nos faz simbolizar e nos relacionar.

C: Há algum jeito específico do gênero traduzir o ambiente em que está inserido?

MS: Os gêneros são expressão da cultura e do seu tempo histórico e social. Se for verificar, as classificações vão se alterando ao longo do tempo. Há propostas diversas sobre classificação de gênero. O próprio Marques de Melo, que é um dos pioneiros na classificação, evolui na classificação: primeiro ele trabalha com dois gêneros e hoje ele trabalha com cinco gêneros. Há alguns autores que comentam que é preciso sempre fazer a pesquisa da prática para nós podermos verificar como as novas narrativas vão evoluindo ao longo do tempo, como que os jornalistas vão se expressando e criando novos formatos a partir de formatos antigos. Agora a gente sabe que existem alguns gêneros que se expressam em vários formatos, por exemplo, a narrativa é um gênero mais perene que vai se expressando em diversos formatos: conta a história do homem desde sempre, tanto na tradição oral quanto na escrita e depois nas diversidades todas que a narrativa se expressa. Ela também vai evoluindo, vai mudando as formas, as sobreposições, as hibridizações, o que dependem também da tecnologia.

C: Como essa classificação pode afetar o meio jornalístico?

MS: Quando você faz o projeto editorial de um veículo você não pensa na classificação de gêneros, não pensa como os acadêmicos pensam ou como se aprende na escola. O jornalista quando vai fazer um projeto editorial pensa na sua proposta editorial, fazendo um veículo que presta serviços. Quando o jornalista presta serviços de uma maneira mais informativa e mais rápida, ele já está falando, para nós, como estudantes de jornalismo ou pesquisadores de jornalismo, que está trabalhando com gênero utilitário – conforme a classificação do Marques. Se você diz “eu quero prestar serviços na área cultural e desenvolver um projeto editorial” você já vai estar pensando intuitivamente em alguns formatos. É intuitivo para o jornalista. Ele aprende isso sistematicamente na universidade e vai aplicar intuitivamente porque o gênero está atrelado à prática.

Se eu quero, por exemplo, produzir um veículo eu vou pensar em alguns gêneros específicos, mas não que eu vá falar “aqui tem que entrar reportagem” ou pensar nisso academicamente. Eu vou pensar isso em termos editoriais, querendo aprofundar os assuntos, trazer mais interpretação, mais opinião... se esse jornal tem um caráter opinativo então eu vou usar coluna, comentário ou resenha, que são gêneros ligados ao universo que se expressa a partir da opinião explicitada do jornalista.

C: Mas isso não acaba atrapalhando ou interferindo no trabalho jornalístico? Mesclando fato e opinião, por exemplo?

MS: Eu acho que se os jornalistas não entendem a diferença entre um gênero e outro, eles podem confundir.

C: Mas e no receptor...?

MS: Aí depende da perspectiva teórica que você trabalha. Na visão de Chaparro, opinião e informação convivem no mesmo gênero. Você não faz informação sem escolhas. Escolher é ter posicionamento, é um processo opinativo. Eu tenho várias informações e vou escolher um repertório para colocar na matéria, vou escolher um estilo de texto. A escolha é um processo de opinião – na visão de Chaparro. Ao mesmo tempo que eu produzo opinião eu produzo informação, eu não produzo opinião sem informação. Se você for verificar a argumentação que muitos fazem nas colunas, nos comentários e nos editoriais, você vai perceber que tem informação lá. Quando alguém fala “ah porque o governo lançou”, “porque o fulano disse” ou “porque as estáticas dizem” ele se baseia em informação. Nessa perspectiva, todo gênero tem informação e opinião. A opinião e a informação não se dividem. Elas não se separam, estão juntas em maior ou menor grau.

O que é acontece é que, por exemplo, a experiência sobre o jornalismo que nós temos, a cultura jornalística que o receptor tem é uma cultura voltada a uma ideologia da objetividade jornalística porque o próprio jornalista se apresenta como tal, é visto como isento e parcial, e essa é uma cultura que foi disseminada no Brasil, particularmente. Na Europa é diferente. O que acontece? Quando a pessoa vai ler uma reportagem e ela está identificada como reportagem, qual o pressuposto dela? Ela aciona um processo que é: “essa reportagem é uma narrativa sobre a realidade, é isenta de opinião, é imparcial”, mas se você for fazer a análise dos textos você vai ver, muitas vezes, a opinião e a informação colocadas honestamente e a opinião e a informação colocadas desonestamente. Por exemplo, há títulos que são verdadeiros editoriais. Então, se você não tem essa cultura do jornalismo, você acaba dando qualidade de realidade, de isenção a um tipo de texto que pode ser utilizado não com muita ética pelos jornalistas. É por isso que esses processos são complexos. Não que as pessoas vão reagir imediatamente como a mídia fala, porque existem outras questões e outros fatores nas mediações que são feitas, mas, por exemplo, a pessoa que tem menos acesso à informação ou que costuma ler apenas um veículo acaba mais influenciada na perspectiva daquele determinado veículo.

Na minha visão, opinião e informação convivem. O Marques também, ao propor a nova classificação, avança um pouco nessa discussão, admitindo algumas questões que antes no seu estudo ele não admitia. Ele trabalha com paradigma de que opinião é separada de informação. Para Chaparro, não. Para ele opinião e informação convivem, são dois lados da mesma moeda. Só que, você usa a informação na opinião para fortalecer seu argumento, e você usa, no caso, a opinião para a produção da informação porque depende do projeto editorial. Por exemplo, se eu quero fazer um veículo que tenha mais opinião, obviamente que eu tenho um posicionamento político também só que na cultura que a gente tem de recepção das informações existe uma cultura de objetividade que os próprios jornais proclamam para si.

C: Essa revisão do Marques tem sido feita desde quando?

MS: Nos anos 2000. Em 2006 ele lança essa nova classificação. Ele admite outros formatos porque ele sempre viu que para você fazer classificação você precisa ver diretamente no empírico e segundo o debate com Chaparro, que faz uma crítica direta ao trabalho do Marques de Melo, ele de certa forma avança um pouco dizendo “olha, são formatos de gêneros e formatos”. Você pode ter tipos de reportagem que priorizam uma cena, um personagem, que tem apelo mais estético que informativo... então ele vai admitindo outras expressões, outros formatos que até então no estudo anterior eram mais distantes. Ele separava muito bem essa coisa da opinião e da informação. Ele é funcionalista, então ele trabalha com a função do gênero, ele vai identificar a função desses cinco gêneros, vai desenvolver formatos para cada um desses gêneros e não é tao radical na explicitação de um paradigma que divide opinião e informação. Ele é mais ameno.

C: É possível dizer que alguns gêneros jornalísticos possuem mais status que outros?

MS: Só entre os jornalistas... A reportagem é o gênero por essência quase sinônimo de jornalismo. O repórter, aquele que faz reportagem, ele inclusive é um cara na redação mais bem visto. O repórter especial é o cara que tem uma condição diferenciada na redação e a reportagem acaba sendo o gênero mais expressivo do jornalismo porque é quando você utiliza todas as técnicas de investigação, é quando se exige do jornalista um maior repertório, uma análise e interpretação das informações. É o gênero que permite um exercício do jornalismo pleno, que tanto inclui processo de apuração amplo, processo de interpretação, um aprofundamento das questões da contemporaneidade e da atualidade...

C: Levando em conta o diálogo entre o gênero e a sociedade, como que o grupo de pesquisa que você coordena trabalha com as novas práticas jornalísticas?

MS: O grupo trabalha não só com práticas relacionadas a gêneros, mas que influenciam gêneros. É na perspectiva da tecnologia, dos novos arranjos de produção, das novas narrativas, que são atravessadas pela mudança social-cultural e também, principalmente, pela revolução tecnológica. Você tem hoje reportagens multimídia. Hoje se trabalha muito assim “como é que você vai classificar determinados conteúdos jornalísticos?”. Têm matérias que são feitas em formatos diversos. Os jornais estão se apropriando da linguagem, por exemplo, da HQ, para fazer reportagem; está se apropriando da linguagem multimídia, transmídia... então há sobreposições de conteúdo. Você pode fazer releituras diversas. Você entra na reportagem e ela pode ser porta para um documentário, uma linha do tempo, um infográfico. O infográfico, que antes não era considerado um formato jornalístico, hoje adquiriu uma autonomia narrativa.

A partir dessas possiblidades você tem uma evolução nas narrativas, nos diferentes formatos que mesclam muito, às vezes, a opinião e o comentário junto com a reportagem, aquele texto mais informativo, aí você acopla um minidoc, que tem uma estética que muitas vezes traz a perspectiva de um dos lados... Você tem dinâmicas emergenciais que vão fazer com que os formatos acabem se aprimorando.

Agora, o conceito da reportagem permanece. Ele pode ser um híbrido, pode ser uma sobreposição de formatos. Então você não tem só aquele texto que é reportagem, você tem o infográfico, o minidoc... toda aquela composição hoje é nomeada ou reportagem 360 ou reportagem multimídia, mas os formatos têm autonomia. Se você tira do conteúdo e apresenta só o minidoc ele tem sentido.

C: É o que o Marques de Melo classifica como tipo?

MS: Exatamente. Você tem um gênero informativo, então você tem que olhar o gênero informativo e tem o que? A reportagem. Ela tem como primazia, como prevalência, levar a informação contextualizada, atribuir significados aos acontecimentos a partir da fala de fonte, das informações que são agregadas das interpretações que são feitas pelo repórter, mas hoje uma reportagem não depende só do texto, ou do vídeo ou do áudio. Separadamente você pode fazer uma composição. Você pode, por exemplo, fazer um infográfico, um depoimento... se você pegar individualmente um depoimento ela é uma entrevista, como outro formato ela tem autonomia, mas ela, hoje, é inserida em um conjunto informativo, um conjunto de formatos, que dão como resultado a ideia de reportagem porque aprofunda, dá novos significados e contextualiza a informação. Só que, se você for olhar aquilo que compõe, são formatos que tem autonomia dentro de uma reportagem multimídia. Isso só é possível porque você tem características na internet que facilitam essa possibilidade de uso multimídia, de hipertextos e hiperlinks, enfim... 

C: Então a internet não amplia esse leque de classificações, ela refina?

MS: Eu não sei te dizer. Eu acho que a gente está ainda no meio do furacão. Aí você tem, por exemplo, especialistas, como a Raquel Long, que estudam a reportagem multimídia, e a reportagem multimídia é composta de diversos formatos jornalísticos. Ela produz um efeito de reportagem, mas a sua narrativa é diferente porque absorve a logica transmídia. A lógica da narrativa transmídia é uma narrativa complementar, não é uma narrativa unívoca, ou seja, eu posso ter informação vendo só o infográfico ou a linha do tempo. Ele complementa uma informação, mas são formatos que têm autonomia.

Acho que a gente vai ter assim: a reportagem multimídia, a coluna interativa... a gente vai ter sempre um elemento ou outro que vai caracterizar essa evolução do gênero, essa mudança no formato na linguagem e na forma de se narrar. Por exemplo, eu participei de um evento no qual eles estudavam aquele vídeo “Humanos” que as pessoas fazem depoimentos, e foi considerado pelo grupo como uma prática jornalística. Foi altamente questionado. O fato da pessoa dar o depoimento pode ser considerado jornalismo? Qual a diferença do depoimento que está aqui, nesse site, de um depoimento que está em um outro espaço na revista? Você tem espações diferentes que precisam ser estudados. O Marques, quando faz a classificação de gênero, usa a mídia impressa. A mídia impressa é a mãe dos gêneros, no caso do jornalismo, mas ele vai adquirindo outros formatos e evoluindo a partir do suporte.

C: As redes sociais e os movimentos de jornalismo colaborativo também afetam essa classificação?

MS: Totalmente. Claro que há limites, há modelos diferentes. Há modelos de jornalismo colaborativo que é um modelo descentralizado – o modelo do Mídia Ninja. Você tem um perfil editorial, você tem um gatekeeper que vai filtrar algumas coisas, mas você trabalha com o processo colaborativo no qual, nesse modelo, o gatekeeper estabelece algumas normas de como deve funcionar aquele determinado site informativo. Mas as pessoas entram no processo colaborativo. Você pode se inscrever lá, por exemplo, e a sua ajuda não é necessariamente uma ajuda ligada às práticas jornalísticas. Você pode ajudar recebendo os repórteres na sua casa. É um processo colaborativo que diz respeito às formas de produção, à infraestrutura produtiva, que é um modelo totalmente centralizado. Esse é o processo colaborativo.

O processo participativo pressupõe uma ação muito mais efetiva do gatekeeper. É isso que a gente vê, por exemplo, nos telejornais. Então você vê lá a colaboração do cara, entra foto, vídeo, a pauta que ele manda pelas redes sociais... mas isso tudo tem um filtro maior, tem uma ação maior das rotinas e dos critérios produtivos no âmbito da grande imprensa. A grande imprensa tem uma lógica industrial de produção noticiosa que vai inserir no seu conteúdo participações, mas até um determinado limite. Há dez anos atrás todo mundo achava que tudo ia ser democratizado, mas as coisas não funcionam assim porque elas acabam sendo computadas pelo sistema e os grandes meios fazem isso agora, eles aproveitam esse conteúdo, mas ao mesmo eles são furados porque o cara que está lá com o equipamento móvel tem muito mais agilidade que o repórter.

Hoje o que muda nessa participação é que o repórter não tem exclusividade na informação. Ele não é o arauto da informação. Você tem outros sujeitos que geram informação. Pode até ser que não seja informação que tenha a chancela da credibilidade jornalística porque isso pressupõe apuração. O fato de você tirar foto de um evento, de um factual ou de um acidente, colabora no registro, mas existe um processo de produção jornalística de apuração que é feita pelos veículos, e isso tem que ser levado em consideração.

C: Então, é possível dizer que as novas práticas jornalísticas se baseiam em narrativas transmídia e nessas novas maneiras?

MS: Nem todas, porque os veículos estão se acomodando. Isso custa dinheiro, custa formação. Nós não temos ainda formação no Brasil para isso. Por exemplo, o jornalismo tem uma tendência de ser estruturado por dados, nós temos um excesso informativo e você gera o big data – aquele espaço que contém uma explosão de informações – e hoje você pode fazer o jornalismo investigativo utilizando a apuração por meio do jornalismo guiado por dados. Isso não é aprendido nas escolas, por isso que as redações têm grandes problemas. Você precisa ter gente que saiba fazer isso, gente que goste de trabalhar inclusive com dados, gente que tenha habilidades nessa área de computação. A formação do jornalista, hoje, tem que ser ampliada porque as possibilidades são muitas. Você acopla determinados métodos de apuração como o jornalismo guiado por dados, só que você precisa ter preparo para lidar com isso. Então onde eu vou investigar? O que que eu procuro? Quais são as chaves? Eu me associo a hackers? Você incorpora na sua prática uma cultura hacker, e a cultura hacker não é a cultura que a gente normalmente estigmatiza, que é o cara que rouba o dado. A cultura hacker é uma cultura colaborativa, de você abrir os arquivos, ter transparência na informação, entendeu? E isso tende, de alguma maneira, a penetrar em alguns espaços dessas redações, mas muito timidamente. Pouquíssimas têm a disciplina ligadas a isso. É só você visualizar a redação multimídia em qualquer lugar. Eu acho que a gente ainda tem uma evolução que é a criação de um espaço que tem uma lógica de composição, embora a produção não seja transmídia. É uma produção ainda que não obedece esse tipo de lógica.

C: Não só no âmbito nacional. É observável isso nos EUA também...

MS: Sim, fora. Você tem o The New York Times, a BBC, que trabalha com isso, The Guardian, El País, alguns grandes jornais... a Globo trabalha na área de esporte com isso. Alguns conseguem, mas precisa ter investimento e a gente precisa de ajuda na formação desses profissionais porque o que se avizinha agora é a necessidade de outros domínios. Você precisa ampliar seus domínios. Claro que a gente não deixa de falar de apuração. Trabalhar com dados também é fazer apuração, não significa que você vai trabalhar só com dados. Então, por exemplo, você vai fazer uma pesquisa investigando as questões de investimento na área petrolífera, ou em qualquer setor da saúde... se você pegar os indicadores que são divulgados por causa da lei de acesso e da lei da transparência, que hoje obriga os órgãos públicos a divulgar dados, dá para fazer muitas matérias, mas a gente tem muita pouca gente preparada para lidar com esse universo.

C: Até onde eu pude perceber, me parece um ambiente muito recente, muito novo, para concluir algo. É possível destacar, por exemplo, algumas palavras que possam guiar os estudos futuros?

MS: Primeiro, a velha e boa ética... Eu acho que a gente tem incorporado questões ligadas à sustentabilidade, do compartilhamento, dessa cultura de transparência, que estão fazendo parte de um repertorio ético na contemporaneidade, embora muitas pessoas só façam o discurso e pouco apliquem essa dimensão ética. Eu acho que, primeiro de tudo a gente tem que entender que jornalismo tem um valor que é essencial, que é a credibilidade. Sem a credibilidade esse discurso não se configura. Ele não tem nem impacto, não produz nada na sociedade. Diante da abundância de informação, eu acredito que cada vez mais vai haver a necessidade de ter profissionais que saibam fazer essas leituras, as interpretações, emitir opinião, elaborar narrativas que possam ajudar o sujeito a ter uma percepção crítica sobre os dados. Esse profissional de entendimento é o jornalista. Pro jornalista se manter como uma profissão importante com um discurso importante tem que manter a credibilidade, ou seja, os critérios, o processo de apuração, soa essenciais. Só que você vai acrescentar nos processos de apuração outras práticas, que são essas ligadas ao jornalismo guiado por dados. A gente tem que mergulhar nesse universo. As informações estão aí borbulhando no cyber espaço, e a gente precisa lidar com isso. Não só dar a Googlada, porque o Google nos leva onde ele quer.

Segundo que a gente precisa aprender novas formas de narrar. Por quê? Porque os processos cognitivos também têm se modificado a partir dessa mudança da revolução tecnológica. As pessoas hoje consomem informação por equipamentos móveis. Elas não sentam mais para ler o jornal aos domingos ou leem os jornais antes de sair para trabalhar. Isso não existe mais. Temos que compreender essa nova necessidade do público para poder também aprender a elaborar narrativas que sejam complexas, que representem a complexidade do momento em que a gente vive, não é simplificar, mas entender essa complexidade utilizando estratégias e suportes que possam favorecer isso.

Resumindo, um domínio que precisa ser aprimorado no nível da narrativa, principalmente no nível do conhecimento das demandas sociais, do papel que o jornalismo tem na sociedade, e de outro lado domínio das técnicas de apuração diante das mudanças que nós temos vivenciado, diante da explosão de informação que hoje a gente precisa investigar. A gente precisa lidar com isso e a gente não sabe, e isso não é um privilégio do Brasil.

C: Então, a perspectiva é...?

MS: Ninguém sabe nada ainda. A gente está no olho do furacão. Isso em todas as áreas da comunicação e em todas as profissões, não é só o jornalista sofrendo isso não. Mas acho que ele atravessa um período difícil e a revolução tecnológica trouxe uma outra dimensão e um impacto nas formas de produzir, nas formas de narrar e na própria percepção do impacto do jornalismo na sociedade. Quando você não é mais o arauto, quando você tem outras pessoas que informa, você precisa aprimorar o seu fazer, para você ter um reconhecimento com um discurso social importante. Se a gente não tiver essa dimensão, se a gente só reproduzir, a gente não vai ter papel nenhum porque o sujeito vai ter a mesma capacidade de fazer isso e às vezes até melhor.

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