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Força das redes sociais demonstra a necessidade da educação midiática

Palestra apresenta análise de 240 projetos de educomunicação no Brasil

11/03/2016 17h15 - última modificação 11/03/2016 17h14

"Protestos de Junho" também ecoaram no Brasil graças às redes sociais / Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Arthur Marchetto

As redes sociais têm dado voz aos cidadãos em todos os lugares que toca. A partir de 2012, movimentos como Ocuppy Wall Street e Primavera Árabe repercutiram por portais de notícias e mostraram o poder de comunicação que pessoas comuns podem ter nos dias de hoje. No entanto, a educação para a mídia ainda precisa ser debatida, principalmente no cenário brasileiro, onde tal ensinamento é feito longe dos currículos formais de educação e das políticas públicas.

A prof. dra. Mônica Caprino, especialista em Comunicação e Educação pela Universidad Autónoma de Barcelona e pesquisadora pós-doutoral do Núcleo de Pesquisa de Comunicação Comunitária – Comuni, promove uma palestra sobre “Mìdia-educação e sociedade civil: interfaces para o empoderamento da cidadania”. Promovida pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social, o debate acontece dia 14 de março, das 10h às 12h, no Auditório Capa da Universidade Metodista - Campus Rudge Ramos.

Para comentar sobre sua pesquisa e a reflexão sobre o papel da mídia-educação na sociedade atual, a professora Caprino pesquisou, mapeou e analisou 240 de projetos de educação midiática levados a cabo por organizações não-governamentais e outras instituições da sociedade civil brasileira fora do âmbito escolar. Monica trouxe para essa pesquisa sua experiência em estudos na Europa.

Cátedra UNESCO/Metodista: Como foi a experiência de pesquisa no exterior?

Mônica Caprino: Passei 4 anos em Barcelona e integrei um grupo de pesquisa (Gabinete de Comunicación y Educación) da Universidad Autónoma de Barcelona. Participei de várias pesquisas sobre a mídia-educação no âmbito europeu. O principal foco desses trabalhos era o da educação formal. Em um deles, por exemplo, estudamos como a mídia-educação se inseria nos currículos escolares dos países da União Europeia, verificando se os estudantes tinham disciplinas ou conteúdos voltados para a educação midiática. Quando voltei ao Brasil, resolvei pesquisar no meu Pós-Doutorado as iniciativas de mídia-educação no âmbito da educação não-formal, levadas a cabo por organizações não governamentais ou entidades sem fins lucrativos. Aqui na América Latina o panorama da mídia-educação é bastante distinto do europeu e observei que há muita coisa sendo feita fora do currículo escolar. Há muitas ONGs (Organizações Não Governamentais) ou OSCIPs (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que oferecem formação para que o cidadão se aproprie e use meios e processos de comunicação, seja por meio de seminários de leitura crítica da mídia, seja em oficinas de utilização de vídeos e produção de meio de comunicação comunitários. 

Cátedra UNESCO/Metodista: Como essa pesquisa se enquadra no quadro comunicacional brasileiro?

Mônica Caprino: Ela mostra o que é feito no âmbito do macro. Eu pesquiso 107 organizações e 240 projetos realizados por essas ONGs, tentando traçar um panorama de suas principais características: a quem são dirigidos, com que meios ou processos de comunicação trabalham e etc. Principalmente, procurei saber como se relacionavam com o empoderamento da cidadania e os projetos educacionais da comunicação tinham preocupações com esse fator. Acredito que conhecer esse panorama da educação não-formal com mais detalhes pode ser útil para traçar políticas públicas sobre mídia-educação no âmbito da educação formal, inspirando-se em experiências bem sucedidas.

Cátedra UNESCO/Metodista: Qual a importância das organizações trabalharem com o empoderamento do cidadão pela educação midiática e não apenas a introdução aos instrumentos e modos de uso?

Mônica Caprino: Isso é fundamental, principalmente quando pensamos na educação midiática que está relacionada com o uso de todos os meios de comunicação e tecnologias. A educação midiática não pode estar voltada simplesmente para ensinar o cidadão a usar computador, internet etc., mas precisa estar direcionada a que ele se aproprie dos meios e processos de comunicação e se torne um produtor de conteúdo e/ou mensagens comunicacionais.

O empoderamento pressupõe o protagonismo dos sujeitos e de sua consciência crítica sobre o entorno e o contexto. A educação para a comunicação pode fazer com que os cidadãos se empoderem, pois passam a se apropriar de meios e tecnologias. Além disso, deve oferecer instrumentos para o pensamento crítico sobre os meios de comunicação e as ferramentas necessárias para o uso dessa comunicação e o discernimento desejável para que se expressem de maneira a agregar valor não só ao indivíduo mas também à sua comunidade.

Cátedra UNESCO/Metodista: O empoderamento do cidadão afeta o funcionamento das empresas de mídia?

Mônica Caprino: Não sei se afeta o "funcionamento" das empresas de mídia, mas com certeza o crescimento e uso cada vez mais expandido de novas tecnologias e meios de comunicação resulta em um panorama comunicacional distinto ao vivido até os anos de 1990. A circulação de informação hoje, sem discutir a qualidade, é muito maior do que há 20 anos. Hoje se tem muito mais possibilidade de ser emissor de um conteúdo, embora nem sempre as pessoas exerçam essa possibilidade de maneira consciente e crítica. As redes sociais já viraram "mídias sociais". A questão é que a mídia-educação coloca é justamente a possibilidade de "educar" ou ajudar o cidadão para este cenário comunicativo do século XXI. Como eu disse no início, muitos países já fazem isso na educação básica, onde os alunos vão discutir o poder da imagem frente ao receptor, vão produzir vídeos ou jornais escolares etc. Aqui, as iniciativas dentro da escola já existem mas ainda são esparsas. Ou seja, a educação para a comunicação, mídia-educação, educomunicação ou de qualquer outra maneira que for chamada, sempre deveria passar pela questão do empoderamento. Ensinar alguém a usar um meio de comunicação ou tecnologia, fazer com que alguém tenha uma visão crítica sobre a comunicação existente ou que seja capaz de produzir formas alternativas de comunicação sempre é uma questão de poder. Se você empodera com certeza mexe com quem já detém o poder e, além disso, também torna as pessoas mais críticas diante dos conteúdos que recebe pelos meios de comunicação tradicionais. 

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