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Diário do Grande ABC e o AI-5

14/12/2018 13h15 - última modificação 17/12/2018 12h56

 Antonio de Andrade

Este texto faz parte do projeto “Memória da intransigência: censura aos meios de comunicação no Brasil ao longo do Século XX” em fase de desenvolvimento na Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação.

Na edição de 31 de julho de 1968 o Diário do Grande ABC, principal publicação que cobre, desde 1958 o cotidiano da denominada Região do Grande ABC, chegava às bancas com uma manchete inusitada: “Brasil Vive Ditadura”. A ousadia causou impacto na imprensa nacional, cerceada na época por um rígido controle por parte dos órgãos de censura.  A ousadia editorial deixou de ser punida pelo fato da declaração ter sido feita por Amaury Kruel, influente general do Exército e personagem de destaque na consolidação do golpe de 1964. Na função de comandante do 2º Exercito, sediado em São Paulo, abortou as tentativas de resistência civil ou militar por parte dos apoiadores de João Goulart. Posteriormente, insatisfeito com o autoritarismo repressivo que tomou conta do sistema autoritário, rompeu com o governo militar e passou a denunciar os desvios que estavam ocorrendo nas principais cidades do país.

A pretexto de combater a contestação que se espalhava pelo país, inclusive em setores dissidentes dentro do próprio regime, o governo agiu de forma radical, decretando o Ato Institucional de número cinco (AI-5), abraçando o regime ditatorial em sua forma mais extremada, ampliando a repressão a todas as modalidades de procedimento democrático.[1] Em 15 de dezembro de 1968 o Diário alertou seus leitores quanto ao fato de estar submetido à censura prévia, face à decretação do novo Ato Institucional.

A direção deste jornal foi informada ontem, através da Delegacia de Polícia local, dos termos de um telegrama do Sr. Secretário de Segurança Pública do Estado, estabelecendo a censura prévia ao noticiário jornalístico. Diante do Ato Institucional n. 5, temos que acatar os seus desígnios (...). Não é hora ainda de julgamentos, assim querem as autoridades. Porém essa hora vai chegar a qualquer momento. Pedimos a Deus para que, em chegando a hora, esta revolução possa justificar-se não pelo que fez agora, mas o que fará daqui por diante.

Em 22 de dezembro de 1968, uma semana após a edição do AI-5, ciente da situação de intolerância que varria o país e da ausência de perspectivas a curto prazo, o jornal registraria, em lacônico e premonitório editorial: “Uma subversão mais grave ameaça a Nação: a subversão moral”. Mesmo com as restrições às quais estava submetido o jornal manteve arriscada coerência editorial, denunciando os abusos e reivindicações que se sucediam em ritmo acelerado: “Presos no Rio diretores do Correio da Manhã” (08/01/1969); “Campanella[2] entre os cassados” (17/01/1969); “Metalúrgicos reivindicam 45% de aumento” (26 de janeiro de 1969); “Líderes sindicais reuniram-se ontem em São Bernardo” (20/04/1969).

Aos poucos a direção do jornal foi constatando a ocorrência de uma movimentação sindical incomum em sua área de cobertura jornalística e que, apesar de todo cerceamento imposto pelo AI-5, uma nova realidade sindical estava sendo timidamente gestada, porém com potencial para tomar forma e se espalhar pelos centros industriais de maior destaque. Na época estimava-se em cerca de150 mil o número de metalúrgicos assalariados na região do ABC[3]. Aos poucos o noticiário relativo às atuações sindicais, passou a ocupar espaço considerável, em especial nos editoriais redigidos pelo diretor Fausto Polesi.

O sindicato sentiu a possibilidade de ter um veículo de divulgação de seus programas e ideais. E o jornal começou a ecoar as reivindicações dos sindicalistas, dentro desta linha de defesa da comunidade. O jornal passou a ser procurado pelas lideranças. Em várias eleições o jornal foi o ponto de aglutinação (...). O jornal nunca tomou partido, sempre se manteve imparcial, dando cobertura às diversas chapas que aparecessem.[4]

Em 15/02/1970 o Diário abordaria, pela primeira vez, a nova postura dos sindicalistas de São Bernardo do Campo na matéria: “O que este novo sindicalismo oferece”.  Na oportunidade foi entrevistado o líder metalúrgico Paulo Vidal Neto, eleito em 1969 para presidir o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de São Bernardo do Campo. Paulo Vidal fora eleito em abril de 1969, numa chapa na qual contava com o metalúrgico Luiz Inácio da Silva no cargo de suplente do Conselho Fiscal. A nova liderança sindical contava, ainda,   com a firme adesão da militância católica progressista,  oriunda das Comunidades Eclesiais de Base, com presença ativa nos bairros periféricos onde as demandas sociais eram crescentes. 

A partir de 1974, com a aceleração da crise advinda da crise do petróleo e que redundaria no fim do denominado “milagre econômico brasileiro”, o ritmo de crescimento da economia diminuiu radicalmente, acelerando o processo inflacionário gerando intensa deterioração no poder aquisitivo da população, dando origem a protestos e reivindicações impensáveis até então.  

Em 06 de setembro de 1974 o Diário noticiava a realização do primeiro Congresso do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, tendo por finalidade discutir “temas ligados ao sistema legal trabalhista, bem como o sistema sindical e previdenciário”. O evento teria significativa importância para a discussão e encaminhamento de propostas relacionadas às condições de trabalho, além da adoção do conceito de ser o ambiente sindical e de trabalho um espaço de luta. Tal postura redundaria numa firme adesão, por parte da classe trabalhadora, reforçando, em decorrência, a ação política da representação sindical.   

Em 1976 o Diário receberia o cobiçado Prêmio Esso de Jornalismo, fruto de uma série de reportagens denominada “Grande ABC: metamorfose da industrialização”, de autoria dos jornalistas Ademir Médici e Edison Motta. Em plena vigência do AI-5 a dupla de jovens repórteres ousou desafiar a propaganda oficial ao revelar que a região do ABC, conclamada como berço da moderna e pungente indústria automobilística, símbolo do progresso da riqueza e elevado padrão de qualidade de vida almejada por todos brasileiros estava, na verdade,  assolada pela favelização, desemprego, degradação ambiental, violência, índices intoleráveis na educação e saúde pública, além do crescimento, acima da média nacional, nos indicadores relacionados a acidentes do trabalho e doenças profissionais.  

Em 13 de maio de 1978 eclodiria a greve dos metalúrgicos da empresa Saab-Scania, movimento que mobilizou ao redor de 30 mil trabalhadores. Tratava-se da primeira movimentação pós AI-5, organizada de forma autônoma pelas novas lideranças. No dia seguinte, em manchete de primeira página, os leitores do Diário eram informados que:  “Metalúrgicos da Scania entram em greve por aumento”:

Cerca de 2.500 operários da Saab-Scania paralisaram durante todo o dia de ontem suas atividades, reivindicando aumento de 20 a 25%, além do índice de 39% decretado pelo governo para o mês de abril. [...] também a Ford Brasil sofreu, mais uma vez, paralisações de um de seus setores [...]. Notícias não confirmadas davam conta de que ontem igualmente na Volkswagen do Brasil e na Wheaton os funcionários pararam.

A greve espalhou-se rapidamente pelas grandes empresas da região, resultando na paralisação de mais de 200 mil trabalhadores.  Em 18 de maio o Tribunal Regional do Trabalho decretou a ilegalidade da greve, em resposta o movimento sindical ignorou a decisão, manteve a paralização e recorreu ao Tribunal Superior do Trabalho. O fato representou um marco no processo de mudança nas negociações salariais, com o governo recuando e admitindo a negociação direta entre o empresariado e as lideranças sindicais.  Durante as duas semanas de duração da greve o Diário realizou ampla cobertura, com manchetes diárias na primeira página. Em 21 de maio de 1978 o editorial “Greve na Região revela o mal geral”, tratava das causas e consequências dos movimentos que eclodiram no ABC:

Já uma vez o governo reconheceu que o Estado ia bem, mas o povo ia mal. E continua de mal a pior. A greve de agora é sinal da doença, que até agora foi suportada pelo organismo social, a troco de sua total debilidade. Os sintomas são bem característicos e revelam o mal maior que afeta todo organismo. Encará-los como passageiro distúrbio local é errar no diagnóstico.

Em 01 de abril de 1979 no editorial “Já se sente a aragem da liberdade”, o jornal destacou os resultados oriundos da mobilização dos movimentos de oposição ao regime militar, após à revogação do AI-5, que restabeleceu o direito de livre manifestação a todo cidadão, fim da censura e início do processo de anistia.

Credite-se, pois, à greve dos metalúrgicos do Grande ABC grande parcela na recuperação dos instrumentos naturais que cada cidadão possui para desenvolver sua forma de liberdade. [...] Em épocas não muito muito distantes as conveniências fariam com que não fossem feitas protestos contra a decisão do governo, porque até há pouco não se tinha hábito protestar contra os atos que partissem de Brasília; dava-se preferência ao silêncio. Mas agora os tempos são outros.

 



[1] Ato Institucional Número 5 (AI-5) editado pelo governo militar em 13 de dezembro de 1968, fato que resultou no período mais radical e repressivo do regime militar. Foi revogado em 31 de dezembro de 1978.

[2] Anacleto Campanella foi por duas vezes prefeito do município de São Caetano do Sul, posteriormente eleito Deputado Estadual e Federal. Teve o mandato cassado pelo AI-5.

[3] Nos sete municípios que compõem a atual Região do Grande ABC existem atualmente três sindicatos dos metalúrgicos: Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá; Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (São Bernardo, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) e Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul. De 1933 a 1959 havia na região apenas um sindicato de metalúrgicos, criado originalmente em Santo André. Em 1959 ocorre o desmembramento com o surgimento dos sindicatos de São Bernardo/Diadema e o de São Caetano do Sul.

[4] Fausto Polesi em entrevista gravada em 1979. Íntegra disponível na Seção de Memória e Pesquisa da Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo).

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