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Jean-Louis Ska aborda as tendências do estudo do Pentateuco na última década

Conferência foi realizada no VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica

31/08/2016 17h27

Ontem (30) foi realizada a segunda conferência do VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica, na Universidade Metodista de São Paulo. O evento é promovido pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Metodista e a Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB).

O teólogo belga Jean-Louis Ska participou com a discussão “Pentateuco: História, Tradução e Exegese”, a mesa ainda contou com a participação de Vicente Artuso, da PUC do Paraná, que coordenou a mesa e Telmo Figueiredo, membro da ABIB, que realizou a tradução do italiano para o português.

A conferência falou sobre as tendências do estudo do Pentateuco nos últimos dez anos. Ska é uma autoridade no assunto, além de ser professor de Exegese do Antigo Testamento no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, já escreveu diversos livros, incluindo “Introdução à Leitura do Pentateuco”, publicado no Brasil.

Perguntas fundamentais dos últimos 10 anos

Para iniciar a conversa, Ska ressaltou que com o livro Deuteronômio, reencontramos a lei e o mundo jurídico da Torá, tema pelo qual Eckart Otto trabalhou para devolver importância, pois acredita que a solução dos problemas do Pentateuco não vem das narrativas, mas sim das leis. Por outro lado, John Van Seters sustenta que o Código da Aliança seja mais recente do que o Código Deuteronômico e que a Lei de Santidade.

Ska explica que duas tendências importantes da pesquisa são a reforma de Josias e a natureza de Deuteronômio. No passado, a reforma de Josias foi considerada historicamente importante, porque teria acontecido a purificação de elementos estranhos e centralização do culto em Jerusalém, por meio da destruição dos cultos rivais.

No entanto, surgem perguntas a respeito do valor histórico da narrativa, pois a arqueologia não confirma nenhuma destruição maciça de altares ou de santuários no período que precede imediatamente a conquista de Jerusalém em 585 a.C e existem indícios de que o santuário de Betel tenha continuado em atividade mesmo durante o período do exílio, enquanto o templo de Jerusalém estava em ruínas.

“Por outro lado, a narrativa é mais bem interpretada como uma tentativa de dar ao Deuteronômio e à centralização do culto as suas cartas de recomendação. Isso foi ampliado e enfeitado para justificar a ordem das coisas instauradas na época da reconstrução do segundo templo. Foi reconstruído um só santuário, e por isso havia um só altar, um só sacerdócio e um só centro administrativo na província persa de Yehud”, diz Ska.

O estudioso continua: “era necessário demonstrar que a reforma não era uma inovação introduzida pelos exilados que voltaram da Babilônia. Ela tinha raízes antigas num evento precedente ao exílio e podia ser colocada sob a autoridade de uma grande figura, o rei Josias, que, por sua vez, não tinha feito nada mais que tornar efetiva uma lei esquecida, a de Moisés. O “livro achado” é um argumento conhecido no mundo antigo que serve geralmente para justificar reformas e inovações”.

A segunda tendência recente citada por Ska, é a descoberta de uma nova cópia do chamado tratado de vassalagem de Esarhaddon, filho de Senaquerib. Descoberto em 1955 em Nimrud, tem como primeira finalidade assegurar a sucessão de Esarhaddon a favor de seu filho Assurbanipal, sobretudo porque ele não era o primogênito. O professor compara Deuteronômio e o tratado de sucessão de Esarhaddon na questão da sucessão. Deuteronômio se apresenta como o testamento de Moisés, proclamado diante de todo o povo durante as últimas horas da sua vida.

“Uma das perguntas essenciais do livro é sobre o pós-Moisés: o que vai acontecer depois da sua morte, quando o povo tiver entrado na terra prometida? Como enfrentar as incertezas do futuro? Assim como o tratado de sucessão de Esarhaddon procura com todos os meios assegurar a continuidade da dinastia e a estabilidade do Império”, comenta.

“O Deuteronômio revelou-se determinante nos estudos sobre o Pentateuco, desde o tempo de W. L. M. de Wette. Isso se mantém ainda hoje, por dois motivos principais: Primeiro, porque é um dos escritos que podem ser identificados e datados mais facilmente, sobretudo graças aos paralelos neoassírios. Segundo, porque fornece uma das chaves mais importantes para interpretar a função da Torá na existência de Israel. O Deuteronômio faz depender a existência do povo, e de todas as suas gerações, não da sua força militar, não da sua economia, não da sua política, não dos seus recursos materiais ou humanos, mas sim unicamente da fidelidade à Torá de Moisés”, finaliza.

A respeito das discussões sobre autores e redatores, Ska acredita que “temos bons motivos para pensar que na composição do Pentateuco existam traços de trabalhos de escribas que se assemelham àqueles dos documentos encontrados em Qumran e atestados nas comparações entre o Texto Massorético, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta. E tudo isso apesar das amargas críticas daqueles que negam a existências de ‘editores’ ou ‘redatores’”.

Para finalizar a conferência, Ska declarou: “Os problemas da exegese – seja diacrônica, seja sincrônica – são problemas reais, não inventados. Portanto, resta somente uma coisa a fazer: retomar o caminho que conduz aos textos para relê-los com mais atenção e mais gosto”.

Ska respondeu a algumas questões do público que acompanhava a conferência. Confira:

Sendo a exegese a alma da teologia, tendo havido no início do século 19 fortes intervenções do magistério pontifício no tempo da exegese, por motivos pastorais, após a celebração do Sínodo da palavra em 2008. Qual é hoje o panorama das relações entre a pesquisa exegética e a edição?

Existem várias tarefas do exegeta, a primeira tarefa delas é compreender bem o texto. E depois tem o conteúdo teórico, que recolhe a pesquisa do exegeta e compõe um comentário, a partir seja de um texto ou de um conjunto de textos ou de teoria. E depois tem a tarefa do pastor, do pregador, que recolhe o trabalho do exegeta, do teólogo, e propõe a assembleia eclesial, a igreja propriamente dita, o seu alimento espiritual cotidiano.

É como a cozinha na qual, no caso, o exegeta é quem escreve a receita. O teólogo, é o cozinheiro e o pastor é o que serve a comida. E o importante, quando o povo está com fome, é dar a comida e não a receita. E quem é o cozinheiro deve conhecer bem a receita, para fazer bem o alimento, no contrário o povo continua com fome. Complementando: Se o povo tem fome, você tanto pode dar o pão, como pode ensinar o povo a fazer o próprio pão, para não ter mais fome.

Que relações podem ser estabelecidas entre a proibição do derramamento de sangue em Gênesis 9, de 5 a 6, com a ação de Moisés em Êxodo 2:12, visto que não se fala do sangue do egípcio assassinado, mas do seu escondimento na areia. Única alusão ao termo hall, no livro do Êxodo e depois o sacerdotal inocentado, estaria justificando Moisés de seu ato?

Nesse texto em que ocorre o assassinato do egípcio por parte do Moisés, a ligação é muito tênue. O texto não é muito claro sobre a identidade do egípcio, e tudo isso acontece antes da vocação de Moisés, e nessa passagem ele usa de violência, num primeiro momento e depois ele é objeto da violência, ele sofre a violência. Depois de sua vocação nos capítulos 3,4 de Êxodo, ele já não usa mais de violência em sua vida.

VII Congresso Brasileiro de Pesquisa Bíblica

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