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Entrevista: Intercâmbio com faculdade de Cuba

17/05/2006 14h56 - última modificação 25/05/2006 20h36

Em 2004 o Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião estabeleceu um convênio com o Seminário Ecumênico de Matanzas em Cuba. O professor Milton Schwantes ministrou naquela instituição no ano passado um curso de estudos do Antigo Testamento, dando início a esse relacionamento. Agora, em janeiro de 2005, novo passo foi dado com a viagem do professor Jung Mo Sung a Matanzas e Havana onde ministrou um curso intensivo e fez algumas conferências acadêmicas. A seguir, o professor Jaci Maraschin entrevista o professor Jung.

Prof. Maraschin - Como você avalia o intercâmbio que nosso Programa está desenvolvendo com o Seminário Ecumênico de Matanzas? Qual será a participação desse seminário nessa empreitada?

Prof. Jung - Eu penso que é muito importante para as duas instituições. Ao colaboramos com o Seminário de Matanzas, os nossos professores podem adquirir novas perspectivas e novas experiências no único país socialista da América que serão, com certeza, enriquecedoras para nós. Eles participam do intercâmbio com envio de discentes para o nosso programa e também com a vinda de docentes para pesquisas e atividades acadêmicas diversas.

Prof. Maraschin - Como funciona esse seminário e que tipo de estudantes participam de sua vida acadêmica?

Prof. Jung - O seminário está localizado no topo de um morro com uma belíssima vista da baía de Matanzas. Possui diversos edifícios (dormitórios, apartamentos, salas de aulas, biblioteca, refeitório, direção, residência de professores, etc.) cercados de jardins e árvores. O principal curso é o de bacharelado em teologia que forma líderes de várias denominações. O corpo discente é formado de gente de toda ilha e, por isso, vive em regime de internato, saindo nos finais de semana para trabalhos nas suas comunidades. O programa de mestrado funciona em forma de três blocos com encontros intensivos de 2 semanas cada e mais um período para a redação da dissertação. Por causa da necessidade da presença dos pastores nas comunidades e da distância, não é possível dedicação exclusiva ou presença semanal nos cursos. Quanto ao corpo docente, há pessoas de diversas denominações e nacionalidades, incluindo até um professor coreano, que fez seu doutorado no ISEDET, em Buenos Aires.

Prof. Maraschin - Conte-nos um pouco a respeito da matéria que ministrou e a maneira como os estudantes cubanos reagiram nas suas aulas e fora delas? Você teve chance de visitar outras instituições além do Seminário de Matanzas? Quais? Falou para outros auditórios?

Prof. Jung - Eu ministrei o curso "Teologia e economia". Houve um pouco de dificuldade no primeiro momento por 3 motivos básicos. O primeiro foi a diferença cultural e o problema com o "portunhol". O segundo, a novidade do tema. Alguns dos meus textos já eram conhecidos do auditório, mas o tema da teologia e economia não é algo muito usual. As pessoas estão mais acostumadas com a discussão sobre ética e economia, mas não com "teologia e economia". O terceiro foi uma questão de didática. Não estavam acostumados com um professor que faz mais perguntas do que "ensina a matéria". Mas, logo conseguiram se adaptar ao meu modo de "construção do conhecimento em sala de aula" e o resultado final foi muito bom. A avaliação final que fizeram foi muito positiva, tanto em termos de didática quanto em termos de "conteúdo". Nós tivemos também uma boa interação fora da classe, no refeitório, nos jardins, ... que também foi muito enriquecedora. Nessas conversas pude conhecer um pouco mais de como anda a vida cotidiana do povo simples de Cuba. Além do Seminário, eu estive em Havana fazendo alguns contatos. Fui à Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade de Havana, onde tive uma conversa muito proveitosa com um grupo de professores e alunos sobre o tema da teologia e economia, desejo e economia, e as questões atuais do capitalismo e alternativas possíveis. Depois fui ao Departamento de Estudos Sócio-Religiosos do CIPS, onde tive uma conversa com a equipe de pesquisadores sobre a situação dos grupos religiosos em Cuba e a relação entre a religião e a economia cubana. Por fim, neste mesmo, dia fui também ao Centro de Estudos da América e me encontrei com o vice-diretor do Centro e com uma economista, os dois já velhos conhecidos meus, e conversamos sobre a situação cubana e os projetos de pesquisas em andamento no Centro, e fiz uma breve exposição sobre o novo posicionamento das grandes empresas com respeito à ética e a responsabilidade social das empresas. Além dessas atividades mais acadêmicas, eu dei uma palestra sobre a globalização econômica e a revolução tecnológica para um grupo de lideranças no Centro Kairós, uma ONG ligada à Igreja Batista em Matanzas. Após a minha fala, tivemos um caloroso debate - alimentado também por mojitos - sobre o futuro de Cuba dentro desse cenário mundial.

Prof. Maraschin - Todos nós sabemos que o pequeno país do Caribe sofre as conseqüências do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. De que maneira o povo enfrenta as dificuldades naturais decorrentes dessa situação?

O problema econômico de Cuba vai muito além do bloqueio econômico. É claro que o bloqueio é uma peça chave nas dificuldades da economia cubana, e as últimas medidas do governo Bush contra Cuba pioraram a situação, mas há também outros problemas. Eu penso que em termos sociais, o grande desafio para Cuba é o surgimento de "dois Cubas", como temos "dois Brasis": os cubanos que têm acesso ao dólar - seja porque trabalham em empresas "mistas" ou porque trabalham no setor de turismo ou recebem ajuda do exterior (dos Estados Unidos agora ficou muito difícil enviar dinheiro para Cuba) - e os que não têm. A grande maioria da população que não têm acesso ao dólar vive em uma situação muito difícil, porque o salário em peso cubano dos que trabalham para o Estado (mais de 70% dos trabalhadores) está muito defasado em relação aos preços das mercadorias nas lojas não subvencionadas pelo Estado. Esse pessoal vai se "arranjando", das mais diversas formas, para poder "completar o mês". Uma das formas é o "desvio" dos produtos das empresas estatais por parte dos funcionários, que está se tornando tão rotineiro e comum que pode corroer a cultura socialista implantada em Cuba. Em termos econômicos, o grande desafio para Cuba é a criação de um novo modelo econômico que vá substituindo o vigente - de forte controle e propriedade estatal -, que seja capaz de possibilitar uma integração mais eqüitativa na economia mundial e que resguarde as conquistas sociais das camadas mais pobres da população.

Prof. Maraschin - Que papel cabe às igrejas na tentativa de se criar o novo tipo de sociedade buscado pela revolução de Fidel Castro? Elas são ouvidas? Que fazem?

Prof. Jung - A situação das igrejas cristãs em Cuba é muito polarizada. A grosso modo, as igrejas e os grupos religiosos se dividem entre os que são contra e os que são a favor da revolução. É uma pena, pois isso dificulta diálogo e reflexão crítica por parte das igrejas e grupos de cristãos em busca de um futuro melhor para Cuba. Eu penso que as igrejas cristãs poderão cumprir um papel importante - papel profético, de soluções pacíficas e de defesa dos mais pobres - nos momentos de turbulência que poderão e provavelmente surgirão em Cuba no futuro próximo. Para isso seria muito importante um processo de diálogo e reflexão por parte dos diversos setores de cristianismo cubano que os prepare devidamente para uma presença social importante em caso de uma crise mais profunda na sociedade cubana. Eu penso que a teologia e as comunidades teológicas têm um papel importante nessa preparação. É claro que precisamos de líderes carismáticos que se façam ouvir em momentos de crise, mas também é muito importante que a comunidade teológica ofereça o seu serviço debatendo e produzindo reflexões que iluminem o povo a seguir um caminho de mais justiça social e da defesa da dignidade humana do povo.

Prof. Maraschin - Obrigado professor Jung. Espero que suas reflexões possam ser discutidas em nossas salas de aula e em nossas conversas do dia a dia.

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