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Palestra do Metô XP aborda investigação jornalística sobre sequestro de crianças durante a ditadura militar

Jornalista compartilhou sobre produção de livro e suas experiências durante a investigação

18/10/2018 20h15 - última modificação 23/10/2018 14h51

Jornalista, escritor e documentarista, Eduardo Reina compartilhou sobre sua experiência no jornalismo investigativo

Bons jornalistas devem estar ligados 24 horas por dia, tratar todas as pautas como se fossem uma manchete de publicação e trabalhar duro na apuração, com pesquisa, levantamento de dados e procura por personagens. Para Eduardo Reina, que ministrou a palestra “A Redescoberta do Jornalismo Investigativo na Imprensa Brasileira” durante encontro do Metô XP de 18 de outubro, essa apuração é a alma do jornalismo.

“Nada aparece pronto. A informação pode cair no seu colo do nada, mas se você não conseguir trabalhar essa informação, ela não vira uma notícia sozinha”, disse. Para ele, a facilidade gerada pelos recursos tecnológicos atuais, como redes sociais, buscadores na internet e acesso a dados e informações, é ferramenta importante para o jornalismo investigativo, mas existe uma acomodação entre profissionais do meio. “Precisamos buscar detalhes, revelações, histórias inéditas ou contadas por outros ângulos”, ressaltou.


Cativeiro Sem Fim

A partir da provocação, Reina compartilhou o processo de produção do livro Cativeiro Sem Fim, a ser lançado nas próximas semanas pela Alameda Editorial e Instituto Vladimir Herzog. O livro reportagem contará a história de 19 bebês, crianças e adolescentes sequestrados durante o período da ditadura militar brasileira, tema praticamente não abordado na literatura e na imprensa. “É uma pauta invisível. A ditadura terminou há mais de 30 anos e nunca se falou isso no Brasil”, revela.

O palestrante explicou que o interesse pelo tema começou a partir de uma comparação com períodos ditatoriais em países vizinhos. “Na Argentina, a ditadura militar sequestrou 500 filhos de militantes políticos contrários ao regime (os pais foram mortos). Existiu também esse tipo de crime no Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia. Eu pensei: 'caramba, isso nunca existiu aqui?'. O Brasil tem um território tão grande, tanta gente envolvida, tanta gente perseguida". 

Para chamar a atenção sobre o tema, Reina escreveu o romance Depois da Rua Tutoia (11 Editora), lançado em 2016. Em forma de romance, a obra conta a história fictícia de uma bebê, filha de militante política, sequestrada na década de 1960 e entregue para uma família de empresário paulista que financiava a repressão. Deu certo. Foram descobertos 19 casos reais, até agora, no Brasil.

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Obra contará história de bebês, crianças e adolescentes sequestrados durante a ditadura militar
Desafios da investigação

O trabalho investigativo para o livro Cativeiro Sem Fim contou com uma pesquisa ampla e minuciosa, que contou com quatro anos de trabalho. Foram 20 mil quilômetros viajados pelo Brasil, mais de 120 entrevistas, 19 mil páginas de livros lidas e buscas em bibliotecas, jornais, revistas e documentos.

Reina compartilhou diversos detalhes sobre como encontrou personagens e conectou histórias, das suas viagens na região do Araguaia (onde ocorreu a guerrilha do mesmo nome e 11 crianças foram sequestradas), das dificuldades em obter informações, do medo envolvido no compartilhamento das experiências e até de intimidações sofridas.

Casos de seis sequestros de filhos de camponeses do Araguaia estão comprovados. Os nomes das vítimas constam, inclusive, em relatórios do Exército. Há ainda cinco filhos de guerrilheiros sequestrados. Os outros crimes descobertos pelo jornalista ocorreram no Mato grosso, Rio de Janeiro, Recife e Paraná. 

“Os militares acreditavam que se tirassem essas crianças da convivência da família conseguiriam modificar a índole delas. Na Argentina havia um manual de orientações para os militares no caso de sequestro de filhos de militantes políticos. Crianças de até quatro anos poderiam ser doadas para famílias simpatizantes ao regime. Acima de quatro anos era aconselhado a matar, porque havia o entendimento de que a criança já estava comprometida ideologicamente com os pais”, compartilhou.

Ao final do evento, o jornalista respondeu perguntas dos participantes, revelou bastidores das pesquisas e as dificuldades para se envolver em uma investigação tão profunda, sobretudo diante da velocidade exigida pelo jornalismo atual.

Confira mais eventos do Metô XP.

Veja mais fotos da palestra: 

Palestra: Jornalismo Investigativo

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