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Biografia de Clementina de Jesus, escrita por ex-alunos de Jornalismo, resgata importância da cantora

“Quelé, A Voz da Cor - Biografia de Clementina de Jesus” traz informações inéditas sobre vida e obra da artista

13/02/2017 11h20 - última modificação 09/03/2017 16h26

Obra revela informações inéditas sobre a vida da cantora. Foto: Divulgação

Mulher, negra, pobre e empregada doméstica, Quelé – como era conhecida a cantora Clementina de Jesus – percorreu uma longa trajetória até chegar à fama com mais de 60 anos, mas poucas informações eram conhecidas a respeito desse período de sua vida. Quatro alunos de Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo assumiram a missão de contar essa história e homenagear uma mulher que rompeu estereótipos e marcou a cultura brasileira.

Hoje, seis anos depois da primeira versão do livro ter sido impressa pelos estudantes como trabalho de conclusão de curso, a obra “Quelé, A Voz da Cor - Biografia de Clementina de Jesus” está sendo lançada pela editora Civilização Brasileira, do Grupo Record, com eventos em grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, além de um evento na Metodista. São tantos compromissos que fica até difícil conversar com o grupo formado por Felipe Castro, 26, Janaína Marquesini, 35, Luana Costa, 27 e Raquel Munhoz, de 26 anos. “Estamos enrolados com os lançamentos”, se desculpa Castro em uma troca de e-mails sobre a entrevista.

Como tudo começou

Durante o curso de Jornalismo, Janaína apresentou ao grupo o último LP da carreira de Clementina, “O Canto dos Escravos” (1982), que faz uma releitura dos cantos de trabalho dos negros escravizados em São João da Chapada, na região de Diamantina, Minas Gerais. Dona de uma voz única, Clementina representava a cultura africana e os negros escravizados no Brasil, ela lançou 12 discos de sucesso e se apresentava no Brasil e no exterior, em programas de rádio e TV.

Os alunos nunca haviam trabalhado juntos até então, mas acabaram se unindo porque queriam tratar de cultura no TCC. “Pensamos em estender isso do ‘Canto dos Escravos’ em uma pesquisa sobre a cantora Clementina de Jesus, fazendo um texto mais biográfico. Como biografia é algo muito trabalhoso, e que não cabia naqueles dois semestres de trabalho de conclusão de curso, fomos orientados a fazer um livro sobre a obra artística e o legado da cantora. Foi aí que tudo começou”, explica Janaína.

Na época, não existia nenhum livro escrito sobre Clementina. As primeiras buscas revelaram apenas uma coleção de artigos lançada em 2001, um livro didático da Funarte escrito em 1988 e o documentário audiovisual “Rainha Quelé" lançado em 2011 pelo diretor paulista Werinton Kermes que foi o primeiro entrevistado para o livro.

Apesar das dificuldades em encontrar fontes para a obra, insistiram na temática: “Os professores temiam que a pesquisa ficasse emperrada por falta de informações e, por isso, sugeriram mudança”, conta Raquel, “contrariados, batemos o pé e insistimos no tema, enquanto avançávamos com uma pesquisa que indicava que, sim, havia um ponto de partida para realizar o livro”.

O professor Herom Vargas Silva, pesquisador sobre música e comunicação, foi o orientador do TCC. Ele relembra que “alguns professores acharam que o grupo não conseguiria por conta da complexidade do tema. Eu mesmo, no início, ficava em dúvida sobre a capacidade deles em dar conta do trabalho. Mas, essa dúvida foi se dissipando quando comecei a ver o quanto liam e pesquisavam, e quando surgiram os primeiros resultados. Eles eram um grupo acima da média!”.

“Achava que não conseguiriam fazer entrevistas com personalidades importantes, difíceis de atender estudantes. Pois eles conversaram, ainda na época do TCC, com figuras chave para o entendimento da obra da Clementina de Jesus. Mais ao final, perto da entrega, tive que dar uma bronca neles para que parassem de pesquisar. Já estava na hora de fechar o trabalho!”, completa o professor.

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Livro inicial retratava apenas obra e legado

“Após um ano de produção, entregamos o trabalho com mais de 30 entrevistas e 164 páginas retratando a obra e o legado da cantora”, relata Luana. O reconhecimento chegou rápido: nota máxima no TCC, vitória na Exposição de Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom) 2012, nas edições regional e nacional, e Prêmio Destaque da Metodista. Na banca, o convidado externo foi o jornalista Alexandre Pavan, autor da biografia do compositor Hermínio Bello de Carvalho, o homem que “descobriu” o talento de Clementina.

Biografia de fôlego

Com a conclusão do curso e reconhecimento cultural, o grupo continuou o trabalho de reportagem com muitas visitas ao Rio de Janeiro, mais de 60 entrevistas, consulta a mais de 600 edições de jornal impresso e leitura de livros sobre samba, música e história brasileira. O livro praticamente triplicou de tamanho em relação ao projeto do TCC, com dados inéditos sobre a vida de Clementina.

Hermínio Bello de Carvalho foi uma das figuras mais importantes deste livro, pois teve papel fundamental na carreira artística de Quelé. “Não foi fácil conquistar a confiança do Hermínio, mas assim que conseguimos isso foi um adianto e tanto. Ele nos colocava em contato com pessoas importantes e abriu muitas portas”, declara Castro.

Os autores também ressaltam a importância do pesquisador e jornalista Sérgio Cabral que conseguiu acesso a grande parte do acervo e contatos cruciais para a realização da pesquisa. Entre os entrevistados mais ilustres estão Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Beth Carvalho e Paulo César Pinheiro.

A busca por editoras, a princípio, foi um pouco frustrante. Com uma biografia completa em mãos, os jornalistas queriam publicar a obra em uma editora com cobertura e distribuição nacionais. Quando viram que a Civilização Brasileira havia publicado uma biografia de Assis Valente, sambista e compositor, procuraram a editora que imediatamente abraçou o projeto.

“Estamos sendo chamados para palestras, entrevistas, lançamentos por todo o Brasil, uma infinidade de coisas que nem imaginávamos. Mas o mais importante é perceber que estamos contribuindo para o resgate de uma figura ímpar da cultura popular brasileira. Estamos documentando uma história que nunca fora documentada. Estamos contribuindo para que uma parte de nossa história não-oficial - isso é, a dos negros, pobres e sambistas que ajudaram a construir o Rio de Janeiro tal como o conhecemos - seja perpetuada”, declaram os jornalistas.

Vargas também ressalta a importância de uma biografia como essa para a cultura nacional: “Clementina foi personagem fundamental para o samba e para a cultura negra carioca e brasileira. Curiosamente, não tinha uma biografia à altura de sua importância. Agora tem! Ela guardou de memória cantos que aprendeu com os pais e com e amigos de infância. Esses cantos se traduziram no seu trabalho gravado. Como são peças da cultura oral e da memória, teriam se perdido se ela não os recuperasse. Os registros dessas músicas nos discos que gravou já com idade avançada são fundamentais para entendermos parte da cultura afro-brasileira”.

Lançamento do livro: “Quelé, a voz da cor – Biografia de Clementina de Jesus”
Data: 22 de março de 2017
Horário: 19h às 23h
Local: Auditório Capa – Campus Rudge Ramos (Rua Alfeu Tavares, 149, Rudge Ramos. São Bernardo do Campo, SP)

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