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Programa de Tutoria completa 19 anos de Vida e Missão

Programa teve inicio em 29 de março de 2000

29/03/2019 17h36

No dia de hoje, 29 de março, o Programa de TUTORIA da Faculdade de Teologia completa 19 anos de Vida e Missão.

Foi no dia 29 de março de 2000 que docentes e discentes iniciaram o projeto de acompanhamento e cuidado pastoral. Após 19 anos de trabalho, o projeto, encontra-se plenamente consolidado. O cuidado pastoral a cada estudante é oportunizado, e se expressa concretamente em apoio espiritual, acadêmico e material.  

Parabenizamos a todos os docentes e discentes que durante estes anos investiram tempo em apoio e cuidado mútuo, bem como desejamos aos atuais grupos de tutorias um ano repleto de bênçãos.

Para celebrar este tão significativo aniversário, compartilhamos abaixo as anotações (esboço) da reflexão pastoral proferida pelo Prof. Luiz Carlos Ramos nesta ocasião.

 

SIM, EU SOU TUTOR DO MEU IRMÃO!
(Gênesis 4.8-10)

Gênesis 4.8-10 (JFA-ERAB): 8 Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. 9 Disse o SENHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão? 10 E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim.

“Respeito o Cristo dos Cristãos, mas desprezo o cristianismo deles.” Essa foi a frase dita por Mahatma Gandhi, a respeito do cristianismo praticado pelos colonizadores cristãos que tanto espo-liaram e escravizaram em seu empreendimento colonialista na Índia. De fato, temos que admitir que um cristianismo que seja indiferente ao sofrimento do próximo não merece respeito; um cristi-anismo, ou mesmo uma religião, que seja conivente com a opressão e o assassinato desumano do seu irmão, do seu próximo, é absolutamente desprezível.

O texto de Gênesis 4 talvez possa nos dar alguma ajuda para tratarmos dessa questão. O episódio narrativo de Caim e Abel se insere no contexto do conflito histórico entre os pecuaristas nômades e os agricultores sedentários do antigo Oriente Médio... Enquanto os pastores precisavam caminhar livremente pelas terras circunvizinhas em busca de pastagem e água, os agricultores tendiam a pri-vatizar a propriedade e a expulsar quem as invadisse... Na perspectiva bíblica, Deus aceita (hebr. sha’ah = respeita, considera) o sacrifício dos pastores proscritos, e rejeita (não respeita, não consi-dera) a oferta dos agricultores egoístas que expulsam seus irmãos pecuaristas da terra. Esse é o pal-co do episódio narrativo que culmina com a tragédia do assassinato de Abel por seu irmão Caim.

Na narrativa, um termo chama a atenção: “tutor”. O substantivo “tutor” aparece em, pelo menos, duas passagens bíblicas – uma no AT, neste trecho de Gênesis 4 (v.9); e outra no NT, em Gálatas 4.2. Em Gálatas o termo é usado no seu sentido forense/jurídico, significando aquele que protege, ampara ou dirige, o defensor de alguém, principalmente no período em que esse alguém é conside-rado incapaz de responder por si próprio. Já, em Gênesis “tutor” é usado no sentido agrícola (lem-bremo-nos que Caim era lavrador – cf. v.2), significando “estaca ou vara fincada no solo para am-parar e sustentar uma planta cujo caule é flexível ou demasiado débil” (cf. Dicionário Michaelis).

Hoje estamos implementando o sistema de tutoria na FaTeo. E me parece que a concepção que devemos ter em mente não é a de Gálatas, mas a de Gênesis. Assim, gostaria de propor que, por oposição, podemos aprender, com a história de Caim e Abel, que suportes um/a tutor/a deve ofe-recer para seu irmão, para sua irmã.

O primeiro suporte que um/a tutor/a deve oferecer é a sinceridade (versus a Falsidade de Caim)

Caim parece gentil, amável e interessado quando convida seu irmão (’ach): “— Vamos ao campo” (v. 8a) [no original, conversam, quando estavam no campo]. Sabemos que as intenções de Caim não eram as melhores, por isso sabemos também que seu convite é falso e hipócrita.

Todos/as temos “amigos” como Caim que nos chegam sorrindo, cheios de gentilezas, mas que atrás estão escondendo um punhal.

Ora, um tutor deve, ao contrário, ser absolutamente sincero (do latim sin+cere = sem cera). No Teatro da Antigüidade, era prática comum os atores usarem máscaras de cera para representar. O teatro é representado por duas máscaras: uma sorrindo e outro chorando. Daqui deduzimos que uma pessoa sincera é aquela que não usa máscaras: não emite sorrisos forçados nem “lágrimas de crocodilo”.

Devemos, portanto, assumir um compromisso em nosso grupo de tutoria: aqui ninguém será obrigado a representar. Aqui podemos ser autênticos, e ninguém será reprovado por isso. Podemos nos alegrar com os que estiverem alegres, e poderemos chorar com os que estiverem tristes. Nin-guém precisa esconder seus sentimentos, sejam eles de contentamento ou de pesar.

Além da sinceridade, o/a tutor/a deve ainda oferecer um segundo suporte, o da lealdade (versus a Deslealdade – traição – de Caim)

Caim trai terrivelmente a confiança do irmão que aceita o convite para passear com ele no campo. Em lugar de desfrutar de alegres momentos de lazer, Abel foi vítima de uma traição cruel e fatal (v. 8b): Caim “se levanta” (quwm = colocar-se acima, sobrepujar) violentamente contra Abel.

Todos já passamos pela experiência de sermos traídos por algum amigo ou amiga. E essa é uma experiência que provoca a morte de muitas amizades.

Um tutor, ao contrário, deve ser extremamente leal. Jamais agirá pelas costas. Jamais trairá volun-tariamente a confiança de seu irmão ou de sua irmã.

Nosso compromisso ético, portanto, implicará em lealdade para com os nossos colegas do grupo de tutoria. Não teremos o direito de falar ou agir “pelas costas” uns dos outros, umas das outras. O que tivermos que tratar ou resolver, deverá ser feito aberta e francamente.

Mas não basta ser sincero e leal se o/a tutor/a não oferecer o terceiro suporte, a solidariedade (versus a Indiferença de Caim)

Quando perguntado por Deus sobre o seu irmão, Caim respondeu: “— Não sei: acaso sou eu tutor (shamar) de meu irmão?” (v. 9). Eis aí a semente da indiferença para com o próximo que tanto indignava Gandhi.

“Não tenho nada com isso”. “Não estou nem aí”. “E eu com isso?” São todas expressões correntes na experiência cotidiana de todos nós.

O tutor seria, então, aquele que é solidário. Aprendemos que o amor de Deus por nós (e que ele espera de nós) é mais do que o amor físico (que depende de nossas qualidades estéticas). E mais do que o amor fraterno (que depende de nossas qualidades morais). Aprendemos que o amor de Deus é a completa solidariedade (que é gratuito e incondicional). Não o amor de quem tira, mas o da-quele que dá a vida pelo/a seu/sua irmão/ã.

Não basta ser sincero, e não ser desleal é preciso ser solidário: isto é, amar concretamente.

Concluindo

O texto de Gênesis que nos inspira termina por nos mostrar que Deus é o Tutor dos tutores. Ele é o nosso sustento. A sua sinceridade, lealdade e solidariedade é tal que ele ouve até a voz dos que já não têm mais voz: “E disse Deus: Que fizeste? A voz (qowl = grito) do sangue de teu irmão cla-ma da terra a mim” (v. 10). Não, não é por acaso. Nós somos mesmo apoio e suporte, tutores e tutoras de nossos irmãos e irmãs!

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