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Uma aula sobre Reforma Protestante, com o professor Duncan Reily

29/10/2012 12h55 - última modificação 29/10/2012 12h52

Em 1988, o professor Alexander Duncan Reily elaborou uma série de lições sobre História da Igreja para serem desenvolvidas nas classes de Escola Dominical. Aqui, trazemos a lição sobre a Reforma Protestante, para quem quiser conhecer, relembrar ou aprofundar o conhecimento sobre as bases do protestantismo:

 

A Reforma Protestante de 1517 (de Alexander Duncan Reily)


Há três coisas que devemos dizer bem no começo, à guisa de introdução.

Primeira:
A Reforma Protestante é um movimento de grandes proporções. Por falta de espaço, teremos que nos ater quase só à fase luterana do movimento, mas há a fase Reformada (de Zuínglio e Calvino), Radical (dos chamados "Anabatistas*", como os Menonitas), e a Reforma Inglesa.

Mas a Reforma não se restringiu aos Protestantes: há um movimento paralelo dentro do Catolicismo Romano, parcialmente espontâneo (Reforma Católica) e parcialmente uma reação à Reforma Protestante (Contra-Reforma).

Naturalmente, também, a Reforma não para no ano de 1600 (na verdade, muitos historiadores datam a Reforma de 1517 a 1648), mas ela, como uma nova expressão do Cristianismo, permanece viva até hoje.

Segunda:
Apesar de ser um movimento religioso mais do que qualquer outra coisa, o seu contexto a marcou profundamente. Muitos dos fatores já foram vistos nas três últimas lições.

Novas cidades e a crescente influência dos comerciantes (burguesia) e o desassossego dos camponeses prenunciavam o fim do feudalismo*. Contribuiu para esse processo também o nacionalismo, com o enfraquecimento da nobreza e a centralização da autoridade nas mãos dos reis. Assim, nasceram fortes estados nacionais (como por exemplo, Inglaterra, França e Espanha) que resistiam às pretensões absolutistas do Papa.

A Renascença* desperta o interesse no estudo das fontes, e a Bíblia é lida novamente nas línguas originais, enquanto o surgimento da imprensa facilita a multiplicação da Bíblia e de livros em geral. O crescente desencantamento com o papado, após 70 anos do "Cativeiro Babilônico" e 40 de cisma papal, leva os intelectuais como João Wiclif e João Hus a questionar a própria estrutura da Igreja e papado e alguns dos seus dogmas (como a transubstanciação) enquanto insistem nos direitos do povo de Deus, inclusive de pregar e receber a Santa Ceia completa (inclusive o vinho).

Muitos, de índole mais contemplativa, simplesmente deixam de lado a Igreja institucional, buscando a união com Deus diretamente por meio de contemplação e purificação, sem se preocupar com hierarquia ou mesmo com o ritual da Igreja.

Paralelamente, há um ressurgimento de religião popular em muitas formas, inclusive a dos flagelantes, os quais, num ascetismo* extremo, flagelam os seus corpos, assim criando quase um novo sistema litúrgico e sacramentai que escapa ao da Igreja Papal tão desacreditada.

Todos estes — os intelectuais, os "pré-reformadores" como Wiclif e Hus, os místicos; os flagelantes — constituem vozes de protesto que diziam claramente: "A Igreja como está, dominada pela hierarquia, inteligível só à elite, não responde nem às nossas necessidades e nem às nossas aspirações. Queremos uma Igreja renovada, mais nos moldes de Cristo e seus apóstolos".

A Terceira:

A Reforma Protestante é mais um glorioso exemplo (e eu creio que seja o maior exemplo) da ação divina; mais uma vez Deus renova Sua Igreja. Infelizmente, no processo, houve ruptura.

A Reforma
Voltemos nossa atenção para tentarmos entender o que Martinho Lutero queria fazer.

Há basicamente duas maneiras de ver a obra de Lutero: uma basicamente negativa (polêmica) e a outra basicamente positiva. A primeira tem sido mais usada e, penso eu, com prejuízo para nós e para o cristianismo. Podemos esboçar esta posição assim:
a) Justificação só pela fé e não pelas obras;
b) Só a Bíblia como regra de fé e prática, e não a tradição;
c) O sacerdócio universal dos crentes, e não só da hierarquia.

Ou como alguns preferem:
- Fé X Obra;
- Palavra de Deus X Palavra do homem;
- Povo X Hierarquia.

Reconhecemos que há alguma validade nessa abordagem, mas questionamos se é a maneira mais correta de ver a obra de Lutero e o seu significado para nós, hoje.

Questionamos se realmente foi isto o que Lutero descobriu naqueles anos antes de 1517 quando buscava tão ardentemente, como Monge Agostiniano, "um Deus gracioso" (amante e perdoa dor) a ele.

Creio que é inegável que a Reforma realmente ocorreu no coração de Martinho Lutero quando, depois da meditação, não apenas percebeu em Romanos 1.17 uma chave para atender toda a revelação de Deus na Bíblia, como também recebeu o próprio Cristo através da Palavra. Será uma deturpação desta experiência de Lutero concebê-la em termos polêmicos! É claro que Lutero e os outros Reformadores se dedicaram à tarefa de dizer com a maior clareza possível o sentido e as conseqüências desta redescoberta!

1) É quase impossível evitar o termo "JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ" por causa da longa tradição. Podemos, pelo menos temporariamente, tentar ver o que está por baixo ou por trás destas palavras?

No caso de Lutero, não é difícil. Ele, quase morto por um raio, prometeu tornar-se monge se Santa Ana o poupasse da morte. A vida monástica (em mosteiros) em si era vista como a maneira mais certeira de chegar aos céus. E nos anos que Lutero passou no mosteiro, ele fazia o máximo para agradar a Deus e ganhar a sua aprovação. Confissões intermináveis, sacrifícios (tentava dormir no inverno sem cobertor), obediência rigorosa a todas as exigências de sua ordem. Mas, depois de tudo, Deus parecia ainda lhe condenar. Não havia meios para agradar a Deus — Lutero chegou a odiá-lo!

O que aconteceu para mudar isto? Na sua leitura da Bíblia, ele descobriu: "O justo viverá pela fé" (Rm 1.17). Mas o que é fé? Lutero descobriu que a fé que salva não é principalmente crer ou acreditar. Não é aceitar uma proposição intelectual. Crer é mais propriamente confiar. Confiar tem a ver com relacionamento! Cristo Jesus lhe chegou através da Sua Palavra e tornou-se não mais aquele juiz que lhe acusava e lhe lembrava as suas falhas e culpas. Pela Palavra, ele percebeu Jesus como seu Salvador. Daí, Deus não era realmente aquela figura distante, austera. Na face de Cristo, Lutero viu pela primeira vez o Deus gracioso que há tanto tempo procurava. Ele diz que era como que Deus lhe houvesse aberto as portas do próprio Paraíso, tão grande foi sua alegria!

E o resultado de tudo isso? JUSTIFICAÇÃO. Mas, há uma palavra melhor: PERDÃO! Afinal não é uma transação legal ou legalista. Em Cristo, o ser humano, desorientado, alienado de Deus e do seu semelhante, descobre Deus, reconcilia-se com seu semelhante e com seu mundo, descobre direção e sentido na vida. Assim foi com Lutero.

E tudo isso realmente é iniciativa de Deus! Como Lutero diria, SOLA GRATIA (só graça). Nem por esforço e nem por merecimento do ser humano, mas pela bondade do "Deus Gracioso."

Quando Lutero fala de Justificação pela fé, então, ele não está, em primeira instância, armando uma polêmica contra os "romanistas". Pois tudo isto que acabamos de descrever, conhecida como sua "Experiência na Torre", ocorreu quando ele era monge e fiel aderente à Igreja Católica Romana! Ele está nos convidando para confiar nossa própria vida nas mãos de Cristo para experimentar o perdão dos nossos pecados e conhecer a liberdade em Cristo — e livres de culpa e do egoísmo, realmente livres para servir a Deus através do serviço ao próximo.

2) SOLA SCRIPTURA — Escritura contra tradição? Sim, mas há muito mais! Lutero é apenas um dos muitos que, mediante a leitura (ou o ouvir) da Palavra, Deus o alcança. Assim foi com Agostinho, no jardim de Milão. A voz de uma criança lhe chegou dizendo: "Toma e lê..." — ele pegou no livro de Romanos e leu novamente (Rm 1313-14) e Deus lhe veio através da Palavra. João Wesley, o fundador do movimento metodista na Inglaterra do século XVIIII, também teria sua experiência enquanto alguém lia do prefácio à Epístola aos Romanos (escrito por Lutero). Afinal, Paulo havia escrito: "a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus" (Rm 10.17). Para Lutero, Cristo nos vem através da Sua Palavra. Não devemos procurá-Lo onde ele não nos prometeu nos encontrar.

Mas para Lutero, "Palavra" e "Bíblia" não são exatamente a mesma coisa. "Palavra", para Lutero, é sempre Cristo. Portanto, a Bíblia não é tanto lei, como o é para muitos. Mas, através das suas páginas, Cristo nos chega, nos instrui, nos orienta, nos mostra quem somos. A Bíblia é como um espelho, para nos revelar realmente quem somos — não necessariamente aquele bom homem ou bondosa mulher, mas muitas vezes aquele homem egoísta, aquela mulher orgulhosa, aquele jovem acomodado!

Por nos trazer Cristo e sua revelação, é também "a única regra de fé e prática". Mas para Lutero e para nós, Metodistas, isto nunca significou rejeitar o Credo Apostólico (que não é da Bíblia) e nem desprezar as formulações dos Primeiros Concílios Ecumênicos (conclaves "católicos") e suas decisões sobre Deus (Trindade) e Jesus (Encarnação, Cristologia).

A Sola Scriptura, de Lutero, é um desafio constante ao cristão de reexaminar hoje a Palavra para ver o que o Espírito diz à Igreja. Não basta saber o que disse a Lutero e mesmo a João Wesley, por mais importante que seja. O desafio é discernir o que Cristo diz a seu povo em nosso dia!

3) O Sacerdócio Universal dos Cristãos. Muitos entendem isto no sentido de: "Eu posso orar a Deus e confessar meus pecados diretamente. Não preciso de nenhum intermediário". Mas a doutrina* é muito mais profunda que isso. Realmente, é uma nova visão da Igreja! Wiclíf e Hus, antes da Reforma, totalmente desencantados com a Igreja hierárquica e papal naquele tempo, ensinavam que a Igreja é o conjunto dos predestinados.

Não creio que devemos enfatizar os predestinados — a Igreja para os pré-reformadores era o POVO e não a HIERARQUIA (ou simplesmente, como alguns pensavam, o Papa). Lutero retoma a mesma idéia.

O Credo fala da Comunhão dos Santos; para Lutero, isto era uma definição de Igreja! Igreja é povo, não hierarquia. Quando Lutero percebeu isto, muitas coisas começaram a se mudar.

Então, o POVO é importante no culto; tem que participar ativamente. Daí, tem que entender o que se passa, no seu próprio idioma. E Lutero traduz-lhes a Bíblia em alemão. O povo tem que louvar a Deus em cânticos, e não só o coro! E Lutero compõe hinos congregacionais apropriados ao espírito da Reforma. O culto passa a ser essencialmente o Culto da Palavra.

Uma vez que a Igreja não é hierarquia, Lutero nem estabelece uma nova hierarquia. Para ele, a Igreja é essencialmente o povo, "a Comunhão dos Santos"; por isso, a questão de ordens passa a ser coisa secundária. Há igrejas luteranas com bispos, outras sem — pois a Igreja não é hierarquia, e sim povo!

Talvez o maior desafio da Reforma para nós hoje seja o de tornar mais concreto em cada igreja local de nossa denominação o sentido de cada crente — homem, mulher, jovem, criança — ser um sacerdote ou sacerdotisa do Deus Vivo!

Para Refletir e aprofundar o assunto
Dividir a classe ou grupo em três grupos menores.

GRUPO 1 -
O grupo 1 examina o estudo e comenta o seguinte de acordo com os pontos levantados:
"Parece-nos que Lutero quis dizer o seguinte com a expressão "JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ"
Resposta:


GRUPO 2
O grupo 2 examina o estudo e comenta o seguinte de acordo com os pontos levantados:
"Parece-nos que Lutero quis dizer o seguinte com a frase SOLA SCRIPTURA"
Resposta:


GRUPO 3
O grupo 3 examina o estudo e comenta o seguinte de acordo com os pontos levantados:
"Parece-nos que Lutero pensava assim em torno do SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRISTÃOS"
Resposta:

PARA FECHAR A REFLEXÃO:
1 - Compartilhar os pensamentos essenciais com o grupão.

2 - Perguntas gerais para o grupão pensar e aprofundar mais através da discussão das perguntas a mais:

a) É comum ver pessoas hoje com sérios problemas de sentimento de culpa. Que diz a doutrina da JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ que possa ministrar a taispessoas?

b) O grupo percebe a diferença entre um simples acreditar e CONFIAR?

c) Por que é importante reconhecer que nossa justificação vem por iniciativa de Deus e é resultado da sua graça?

d) SOLA SCRIPTURA significa que a gente só deve ler a Bíblia e nenhum outro livro?

e) O SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRISTÃOS significa que não deve haver ordenação de ministros ou estudos ou preparação teológico para exercer o pastorado?

f) Qual o relacionamento entre os Dons e Ministérios e a idéia do SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRISTÃOS?

g) Sua congregação local é clericalizada (onde só o pastor decide tudo, e faz tudo) ou viive a realidade do SACERDÓCIO UNIVERSAL DOS CRISTÃOS?

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OBS: Lição extraída da página 64 da revista "História da Igreja", correspondendo a lição de nº 14 de um total de 17 (http://www.metodistavilaisabel.org.br/artigosepublicacoes/descricao.asp?n=37).

"A História da Igreja" é uma revista escrita em 1988 pelo saudoso pastor e historiador metodista Duncan Alexander Reily e estudada na Escola Dominical das Igrejas Metodistas de todo o Brasil. Narra de modo sucinto e claro a história do cristianismo, desde aquele primeiro Pentecostes com a descida do Espírito Santo sobre os seguidores de Jesus até a chegada do Metodismo no Brasil. Fala dos grandes Concílios Ecumênicos, das Cruzadas, da Reforma Protestante. Ajuda-nos a compreender quem somos nós.

Fonte: Site da Igreja Metodista em Vilsa Isabel, RJ

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