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Um jeito wesleyano de ver o mundo e ler a Bíblia: Semana Wesleyana 2011

24/05/2011 16h45 - última modificação 30/05/2011 13h46

SEMANA WESLEYANA 2011

Palestra semana wesleyana 24 maio manhã

Segunda-feira:

19h30

Por que reconsiderar John Wesley hoje?

 “A herança wesleyana é maior do que a Igreja Metodista”. Em sua palavra de saudação aos/as  participantes vindos/as de todas as regiões do Brasil e de diversas igrejas evangélicas, o professor José Carlos de Souza, enfatizou a abrangência da teologia que une pessoas de diversas denominações cristãs. O professor Paulo Roberto Garcia, reitor da FaTeo, também destacou o significativo momento de diálogo e cooperação que vivem as igrejas de tradição wesleyana, unidas, no dia 21 de maio, em uma grande celebração que lotou o Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo. “Hoje a FaTeo tem em seu corpo discente maioria de não metodistas, cumprindo sua vocação de capacitar quadros para a Igreja de Cristo”, afirmou o reitor.

A presença do Prof. Dr. Howard Snyder como conferencista da Semana é outro fruto deste profícuo diálogo entre as igrejas herdeiras da teologia de John Wesley.  Professor do Seminário Tyndale, no Canadá, o Prof. Snyder é também pastor da Igreja Metodista Livre. Como pastor e professor, ele viveu no Brasil entre os anos de 1968 e 1975, o que possibilita aos/às ouvintes o conforto de ter as palestras proferidas em português.

Snyder iniciou sua conferência lembrando que é praticamente impossível falar em John Wesley sem citar duas palavras: Bíblia e Povo. Leitor voraz e curioso, interessado por uma ampla gama de temas, John Wesley tinha as Escrituras como centro de sua fé e visão de mundo. Por isso, o título “homem de um só livro”  cabe-lhe tão bem.  À luz das Escrituras, o teólogo inglês buscava ampliar o seu foco de visão, olhando com atenção para os fatos sociais e políticos de sua época, para os avanços científicos, para a saúde, para a educação, para a natureza. “Ele tinha o hábito de pensar teologicamente sobre tudo”, disse o professor.

Essa forma abrangente de olhar o mundo, incomum para a sua época, traz ricas lições para os dias de hoje. Segundo o professor Snyder, Wesley enxergava a redenção do mundo, desfigurado pelo pecado, pelos olhos da fé.  E assim, sob a graça de Deus, vislumbrava a restauração da imagem divina no mundo com uma expectativa real. A começar pelo ser humano, feito à imagem de seu Criador. “Ver o mundo de maneira wesleyana é ver a imagem de Deus em todas as pessoas”, disse Snyder. Para Wesley, homem e mulher, sem distinção, trazem em si uma imagem divina que foi desfigurada pela queda. Mas o potencial para o bem persiste. E a graça assegura que qualquer pessoa possa se voltar para Deus e ter a  imagem divina restaurada.  “A imagem de Deus nos conecta ao restante da criação”, acrescentou Snyder.  “Deus está em todas as coisas. Devemos ver o Criador no espelho de toda criatura”. Por isso, John Wesley também se interessa pela natureza e pelo bem estar dos animais, como criaturas feitas por Deus, expressões da sabedoria divina.

A salvação, para John Wesley era, portanto, a restauração da imagem de Deus na vida das pessoas, na natureza e na sociedade. Daí seu caráter comunitário. “A imagem de Deus é social e relacional”. Preocupado com a justiça social, com especial atenção Wesley voltou seu olhar aos pobres. “Os pobres mostram que o poder divino não depende de posição social, educação ou credenciais, mas unicamente da disposição para estar a seu serviço.  Por isso os movimentos carismáticos nascem como movimento dos pobres”, afirmou o professor.

Se somos wesleyanos hoje, conclamou o professor, devemos viver uma vida devota, santa e disciplinada, pautando nossas atitudes nas Escrituras e buscando viver em comunhão cristã. Otimismo – baseado somente na graça - também é marca metodista; bem como a paixão pela evangelização, sobretudo aos pobres. Disciplinados, devotos, otimistas, apaixonados: assim são aqueles/as que têm, nos dias de hoje, um jeito wesleyano de viver.

 

Terça-feira:

7h30

Como Wesley usou a Bíblia

Como o  homo unius libri (homem de um só livro) lia a Bíblia? Para o professor Howard Snyder, John Wesley usou a Bíblia com o povo comum; para o povo comum, para defender o povo comum e para capacitar o povo comum. Por isso, sua leitura das Escrituras sempre esteve ligada à vida e à sociedade de seu tempo. Na tradição anglicana, Wesley aprendeu que a leitura das Escrituras é intimamente relacionada ao raciocínio e à tradição. A esses três elementos ele acrescentou um quarto: a experiência. Afinal, foi a experiência de 24 de maio de 1738 (o “coração aquecido” ao ler um comentário de Lutero sobre Romanos) que modificou significativamente seu modo de ver e vivenciar a fé cristã. Unidos, esses quatro elementos – Bíblia, Raciocínio, Tradição e Experiência – foram chamados pelos teólogos de Quadrilátero Wesleyano.

Hoje já se fala em mais um elemento integrando a metodologia wesleyana: a criação. Estudos feitos pelos professores Duncan Alexander Reily, Rui de Souza Josgrilberg e José Carlos de Souza, da FaTeo, destacaram a importância da criação como expressão da sabedoria divina. “A premissa é que Wesley estava convencido de que o centro vivo da fé cristã encontra-se revelado na Bíblia, é iluminado pela tradição, é despertado pela experiência na vida, é fortalecido pela razão, e pode ser observado na criação. Portanto, seriam cinco e não quatro elementos a moldar o quadro metodológico da teologia wesleyana”, como explica o professor Claudio Ribeiro, em artigo publicado na revista Caminhando. CLIQUE AQUI PARA LER.

A teologia wesleyana brasileira traça, então, um novo quadrilátero que traz a Bíblia ao centro, ou se, você preferir, um pentalátero. Para o professor Snyder, essa metodologia wesleyana de interpretar a Bíblia pode ser chamada  de teologia pública ou política, por trazer, de forma equilibrada, tanto o aspecto individual quanto o comunitário, que estende seus horizontes para além do ser humano, abarcando toda a criação divina.

 

Terça-feira:

19h30 –

O tema da Santidade no século 21

tema da santidade

Da esquerda para a direita: Capitão Nelson Takai, do Exército da Salvação; Bispo Adriel de Souza Maia, da Igreja Metodista; Bispo Ildo Mello, da Igreja Metodista Wesleyana e Prof. Rui Josgrilberg, professor da FaTeo.

Bispo Ildo Mello, da Igreja Metodista Livre, falou em nome da Fraternidade Wesleyana de Santidade. “Algo novo para vocês e para mim também”. Ele contou que o movimento, que reúne diversas igrejas de tradição wesleyana, como Igreja Metodista, Metodista Livre, Igreja do Nazareno e Igreja Metodista Wesleyana, busca unir líderes para orar junto e compartilhar experiências. “Nos unimos em torno da doutrina da santidade, do nosso legado histórico comum, que é muito relevante para o Brasil neste momento. Nunca se ouviu falar tanto escândalos, que alcançam até a Igreja. Nossa Igreja precisa ser santificada”, disse ele. Ele lembrou que sempre se disse que, quando tivéssemos milhões de evangélicos no Brasil, o país seria transformado. “Os milhões estão aí, mas cadê a transformação tão esperada? A Igreja está inchando, falta profundidade”.

Ele criticou também a excessiva preocupação que se tem hoje  com metodologias para o crescimento da Igreja. “Há uma idolatria, um endeusamento do método. E muitos dos métodos que estão por aí tem origem perniciosa. São métodos de manipulação que, é claro, dão resultado quando o que se quer é apenas o crescimento numérico”, disse o Bispo. Ele destacou que o crescimento da Igreja é anseio de todos. “Crescer é algo natural em tudo o que tem saúde”. No entanto, ele deve acontecer como o resultado natural de um avivamento genuíno “que nos leve à Cruz de Cristo, que provoque verdadeiro arrependimento, que faça crentes transformados”.

Capitão Nelson Takai, do Exército da Salvação, destacou que Wesley não é “propriedade” do movimento wesleyano, mas foi dado como dom de Deus para os homens, assim como outros grandes líderes que ultrapassaram barreiras denominacionais. “Não estamos aqui celebrando nossa tribo”, brincou.  “O mundo está cansado de hipócritas que falam bonito, mas não vivem o que falam”, exortou ele.  Para o capitão Nelson, devemos viver plenamente o Evangelho, a exemplo do que fez Wesley. “Ele fez uma teologia de pé no chão. Herdamos dele uma teologia feita olho no olho, nas pregações para os pobres, no campo, nas minas de carvão, entre os leigos”.

Ele lembrou, também, que Wesley combateu a escravatura, criou escolas e atendimento de saúde e trabalhou para a reforma do sistema prisional.  O ministério social desenvolvido pelo Exército da Salvação é a expressão dessa maneira wesleyana de entender a salvação, como igualmente pessoal e social. “Em nossa teologia, o mundo é nossa paróquia”, lembrou.

A exemplo de Paulo na carta aos Efésios, o Capitão Nelson conclamou aos herdeiros do movimento weslyano que busquem “reavivar o dom “ se quisermos ver um Brasil melhor. O mesmo Espírito Santo que aqueceu o coração de John Wesley, disse ele, “pousa sobre nós” e nos anima, tal como animou Wesley, para o serviço de Deus. “Vamos gastar a nossa vida nisso”.

Quarta-feira

7h30

A estrutura e função da Teologia Wesleyana

Na manhã da quarta-feira, o pastor e professor Howard Snyder destacou algumas ênfases teológicas de John Wesley:

1)      A imagem de Deus - presente na humanidade (homem e mulher) e, secundariamente, em toda a Criação.

2)      A graça preveniente (ou precedente) - a graça de Deus que precede, converte e santifica. “A atuação de Deus está no mundo, ainda que num mundo desfigurado pelo pecado”.

3)      Salvação como cura -  muito antes de se falar em “saúde integral”, Wesley já se preocupava com a cura em todas as dimensões: alma, corpo, espírito, relacionamento. Salvação é reconciliação com Deus, consigo mesmo e com a natureza.

4)      A perfeição cristã – “andar como Ele andou” e “ter a mente de Cristo” não era uma utopia para Wesley, mas uma meta real e cotidiana, construída na caminhada da fé.

Segundo o professor Snyder, essas ênfases wesleyanas configuram uma teologia profundamente missionária, integral e comunitária.

Colação de Grau

Esta é a turma dos formandos de 2010. Reunidos na Semana Wesleyana, eles tiveram sua colação de grau na tarde quarta-feira. Parabéns!

Quarta-feira

19h30

A Economia (oikonomia) de Deus.

O professor Snyder iniciou sua palestra esclarecendo o conceito de Oikonomia, derivada da palavra grega oikos, que significa família ou lar. Num sentido mais amplo, a oikonomia quer dizer o Plano de Deus para a sua oikos, entende-se a Igreja como a oikos de Deus, como se pode ver nos versículos 9 e 10 de Efésios 1: “E nos revelou o mistério da sua vontade; de acordo com o seu bom propósito que ele estabeleceu em Cristo, isto é, um plano (oikonomia) a fazer convergir em Cristo todas as coisas”.

“A oikonomia é o plano para se cuidar da casa”, explicou o professor. O conceito foi se ampliando com o passar do tempo. A oikos, vista como cidade, gerou o conceito de administração, economia. Entendida como toda a família humana da terra, gerou o termo ecumenismo.

Ele disse que a oikonomia tem quase o mesmo sentido de “Reino de Deus” e engloba todo o mundo criado por Deus. “Na Bíblia, os céus e a terra, na maioria das vezes tem o sentido de todo o mundo criado, não são duas realidades diferentes e incompatíveis”, afirmou o professor. Deus tem um plano para toda a sua criação e para todos os seus filhos e filhas de todos os povos.

Segundo o professor Snyder, esse conceito de ecologia, com base nas Escrituras, nos ajuda a pensar teologicamente e em termos da missão. É um ponto de contato importante com a sociedade atual e interligação entre a prática da fé individual e pública – nada mais wesleyano, portanto.

Quinta-feira

7h30

Painel: A Teologia Wesleyana no século 21

             Integrantes do Centro de Estudos Wesleyanos

Palestra prof. Rui SW 2011

O professor Rui de Souza Josgrilberg traçou um panorama da teologia wesleyana no Brasil.  Nos anos 50, disse ele, a teologia wesleyana passou a ser reconhecida no mundo, o que só ocorreu no Brasil a partir dos anos 70. Antes, achava-se que não havia uma “teologia wesleyana”, ou que ela não era muito profunda. Contudo, os “esforços missionários” para trazer a teologia wesleyana ao Brasil começaram cedo: em 1888 foi lançada no Brasil a primeira edição dos Sermões de Wesley , com apenas 12 sermões. Um volume desta obra pioneira encontra-se, hoje, guardada no setor de Obras Raras do Centro de Memória Metodista.

A partir dos anos 80, a exemplo do já se fazia na Europa, os teólogos latinoamericanos começaram a ser reunir para estudos e debates. Nos anos 90 foi criado Centro de Estudos Wesleyanos da FaTeo e logo depois o projeto Teologia Wesleyana Brasileira.

O professor destacou alguns avanços conquistados pela Faculdade de Teologia e Igreja Metodista no que diz respeito à sua herança wesleyana: a revista teológica Caminhando tornou-se um veículo importante de discussão teológica; a FaTeo tem oferecido cursos na América Latina, África e Portugal, há em andamento projeto de tradução de hinos wesleyanos e produção de novos estudos voltados à realidade brasileira, como um livro sobre criação e teologia de John Wesley sob o olhar de um teólogo da Amazônia.

Houve, também, retrocessos, destacou o professor. “Infelizmente, recuamos na nossa visão ecumênica; recuamos em nossa visão pública e profética e em nossa visão missionária”.  Segundo o professor recuamos em nosso compromisso com o pobre e, paradoxalmente, recuamos em nossa educação, que ficou menos avançada e progressista.

O professor Helmut Renders falou sobre a teologia wesleyana brasileira em suas dimensões local e global. Ele destacou os diversos interlocutores que o Centro de Estudos Wesleyanos têm, atualmente, como o Perkins School of Theology, nos Estados Unidos; o Seminário Teológico de Reutlingen, na Alemanha e diversos outras organizações e igrejas parceiras.

Quinta-feira

19h30:

Metodismo e Pentecostalismo: reflexões pessoais

Num certo dia, depois de contato com grupos carismáticos evangélicos e católicos, um pensamento chegou à mente do professor Howard Snyder: “Não tenho mais medo dos pentecostais”. Curioso, disse ele, é que até então, ele nem se dera conta de que tinha medo. Medo, talvez, de que a forma distinta de expressão da fé fosse uma ameaça à sua própria identidade. Hoje, no entanto, ele reconhece que Deus pode agir usando movimentos de diversos tipos. E vê sinceridade e uma experiência cristã genuína na vida de muitos pentecostais que desenvolvem uma teologia que ele, pessoalmente, não aceita em sua totalidade.

Snyder alerta que não deve haver uma ênfase exagerada em um ou dois dons; as o reconhecimento da importância tanto dos dons quanto dos frutos do Espírito. “Os frutos do Espírito são para todos: não posso dizer, por exemplo, que não tenho domínio próprio, mas tenho fé. Devo buscar para minha vida cristã todos os frutos. Quanto aos dons, para esses temos diversidade”. O professor reconhece que Deus atua na história por meio de diversos movimentos de renovação. Precisamos, no entanto, reconhecer que “Deus é o dono dos dons” e buscar avaliar tudo pelo padrão e exemplo de Jesus Cristo.

Sexta-feira

7h30:

O povo de Deus na perspectiva wesleyana

Eclesiologia foi o tema da última conferência da 60ª Semana Wesleyana. O professor Howard Snyder falou sobre “inovações eclesiológicas” de Wesley. Segundo Snyder, Wesley inovou ao levar o Evangelho às massas, formar um povo baseado na apropriação pessoal da graça de Deus e estruturá-lo em grupos de discipulado. Segundo Snyder, enquanto é comum, hoje, que o membro de uma igreja se filie a uma classe de Escola Dominical ou grupo de discipulado, Wesley fez caminho inverso: primeiro, a pessoa entrava no grupo e então ia se desenvolvendo na vida cristã, até que passasse a ser considerada como parte do “povo metodista” – que não era outra denominação, mas apenas um grupo inserido dentro da Igreja Anglicana (Eclesiola in Eclesia). “Wesley criou estruturas que faltavam na Igreja Anglicana”, disse o professor.

Ele falou, também, sobre as marcas do povo metodista nos dias de Wesley: um povo majoritariamente pobre, consciente de ser uma nova realidade social e da santidade interna e externa. Também era um povo que valorizava o louvor e o canto; os sacramentos como meios de graça e o ministério laico. “Ser metodista é ser ministro em termos práticos”, disse Snyder. Lições do século 18 relevantes e necessárias para os dias atuais.

Culto de encerramento SW 2011

O culto de encerramento da Semana Wesleyana 2011, conduzido pelo Exmo Bispo Paulo Lockmann, uniu a todos/as participantes na comunhão da Santa Ceia.

Texto: Suzel Tunes

Fotos: Luciana de Santana

               

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