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Testemunha ocular: Professor da FaTeo fala sobre os 30 anos do Plano de Vida e Missão da Igreja Metodista

03/07/2012 13h15 - última modificação 03/07/2012 13h16

O rev. Rui de Souza Josgrilberg atuou nos batidores do Plano para Vida e Missão da Igreja Metodista. Ele acompanhou cada detalhe da Consulta Nacional em 1980 e foi um dos assessores do texto aprovado no Concílio Geral de 1982. Na época, o rev. Rui Josgrilberg já havia concluído o doutorado na França e trabalhou ativamente para ampliar os horizontes missionários da Igreja Metodista. Com simplicidade e perspectiva única, o professor da Faculdade de Teologia Metodista em São Paulo compartilha com os leitores do Expositor Cristão sua visão sobre os 30 anos do documento.


Texto e foto: Marcelo Ramiro/Expositor Cristão – julho 2012

 

Expositor Cristão: Como o senhor visualiza a Igreja Metodista no Brasil, 30 anos depois do Plano para Vida e Missão?

 

Rui Josgrilberg: Posso dizer que ficou faltando muita coisa para a implementação do Plano para Vida e Missão. Mas, também eu creio que nós não ficamos no zero. Acho que muitas coisas aconteceram e foram feitas. Por exemplo: a implantação do Dons e Ministérios, é fruto do Plano.

 

O documento se fundamenta em serviços e depois vem uma proposta, em outro momento, para organizar a igreja desta forma. Só que o Dons e Ministérios não foi implantado dentro de uma visão correta do Vida e Missão.

 

Expositor Cristão: Por quê?

Rui Josgrilberg: Teve gente que simplesmente transformou o que era antes, comissões e guias leigos, em outra estrutura sem mudar a filosofia, sem mudar os horizontes. Além disso, houve muitas mobilizações sociais e públicas em torno do Plano para Vida e Missão. Manifestações por causa da época, pois ainda estávamos vivendo os reflexos da ditadura.

 

Eu acho que o Plano para Vida e Missão está sempre como um alerta para as igrejas que se acomodam e vivem a missão mais voltada para si. O Plano é sempre um alerta para mostrar que a missão de Deus é no mundo e não internalizada. Neste sentido, há muitos aspectos positivos. Mas, é claro, o documento ficou longe daquilo que se pensou que

pudesse realizar na vida da igreja.

 

Expositor Cristão: O que se pensava na época em relação a repercussão do Plano? Qual o motivo da frustração?

Rui Josgrilberg: O que se esperava ali é que o Plano para Vida e Missão realmente deslanchasse. E houve uma repercussão muito grande! Mas, aconteceu que a primeira publicação completa do Plano foi feita pela Unimep – Universidade Metodista de Piracicaba. A igreja não reagiu muito bem a isto. Faltou realmente a Área Geral tomar a frente e publicar o Plano com uma palavra forte do Colégio Episcopal, símbolo da igreja. Faltou isto.

 

Estrategicamente foi um equívoco muito grande. Houve um erro estratégico. Na época isto não foi percebido. A Unimep não tinha maldade, todos estavam interessados em promover o Plano para Vida e Missão. Nós começamos a perceber o equívoco, 10 anos depois.

 

Expositor Cristão: Quer dizer que parte da Igreja Metodista não valorizou o Plano para Vida e Missão?

Rui Josgrilberg: Infelizmente parte da igreja não presta muito a atenção para os seus documentos. Mas, a Igreja Metodista tem um elemento diferenciado, que é justamente esta possibilidade de abertura. De repente, pode acender uma brasa aqui outra ali e a coisa pega fogo. O documento está aí! Não está morto! Embora, não esteja forte, mas está aí. De repente ele acende! É o que eu espero.

 

Não podemos deixar de crer nisto. Já vi tantas mudanças na igreja. As coisas mudam rapidamente. E nós confiamos nisto, pois Deus move a igreja. Em algum momento esta igreja pode receber um sopro inesperado, um empurrão, às vezes, até um tombo necessário para levantar. As coisas acontecem assim.

 

Expositor Cristão: O Plano para Vida e Missão cita que o metodismo passou por uma profunda crise de identidade após a primeira metade da década de sessenta. O documento conseguiu reforçar as bases da Igreja Metodista no Brasil?

 

Rui Josgrilberg: Nos anos 60, nós nos demos conta que a formação que recebemos - mais pietista e puritana tinha um perfil mais americano e que o João Wesley que nós trabalhávamos era o Wesley americano. Quando nós nos apercebemos disto, procuramos buscar Wesley na fonte, lá nos textos originais. Fomos ler. Nós vimos que em Wesley havia muito mais.

 

A gente percebeu que Wesley não era o pietista dos americanos, ele tinha um perfil mais

inglês. Isto fez que com que o próprio Plano para Vida e Missão tivesse uma introdução que reforçava um novo perfil wesleyano. Mas, foi difícil, pois a formação deixada pelos americanos era muito pietista. O Plano talvez não tivesse a intenção clara de reforçar a tradição, nem foi voluntariamente assumido nesta direção, mas acabou refletindo esta preocupação de propagar uma teologia wesleyana mais encarnada.

 

Expositor Cristão: Os metodistas assimilaram bem esta mudança?

Rui Josgrilberg: Hoje nós temos mais estudos sobre estes assuntos. Estamos sempre estudando e o Centro de Estudos Wesleyanos tem publicado textos muito interessantes. Mas, eu acho que a Igreja Metodista ainda não encarnou e não percebeu toda a riqueza da teologia wesleyana. Eu acho que seria interessante repensar algumas questões, aprofundar e desafiar a igreja de outra maneira. Os projetos que estão aí estão caminhando, mas não são tão desafiadores. A igreja hoje está voltada para o crescimento numérico, que é uma face, mas quando fica só no crescimento numérico deixa de ser uma face pra ser um desvio.

 

Expositor Cristão: O que atrapalha os metodistas neste sentido?

 

Rui Josgrilberg: Creio que esta nova identidade missionária foi quase que engolida por perspectivas missionárias que vieram de outros grupos evangélicos. Então hoje houve uma mudança muito grande na Igreja Metodista. Só que não foi uma mudança iniciada pelo Plano para Vida e Missão. No caminhar houve uma alteração de rota inesperada, causada por influências.

Expositor Cristão: Quais seriam estas influências?

Rui Josgrilberg: A Igreja Metodista cai vítima da fronteira com outras igrejas e não sabe discernir qual a melhor influência. Hoje eu conheço igrejas pentecostais que estão bem mais seriamente envolvidas profeticamente com a vida social do que a Igreja Metodista. E a igreja acho que não percebe isto. Prefere-se caminhar em uma direção – que é administrar a experiência teológica – pregar o que as pessoas querem ouvir, uma pregação que parece mais com auto-ajuda e que é contrária a mensagem bíblica. Temos que discernir bem o nosso quadro religioso e não podemos deixar que os pastores agarrem aqui e ali influências que vão facilitar o ministério deles num momento.

 

Expositor Cristão: O Plano frisa a conexidade como parte da missão da Igreja Metodista. Como o senhor avalia esta questão hoje?

 

Rui Josgrilberg: Você tocou em um ponto que eu acho essencial. A Igreja Metodista sempre foi uma igreja que tinha uma visibilidade a partir do nacional. De repente, as questões políticas levaram a uma regionalização tão extremada que hoje a igreja se pauta pelo o que acontece na Região. Aí fica, vamos dizer assim, ao gosto das lideranças regionais, olhar para o Plano para Vida e Missão ou não. O lado mais confortável é não olhar.

 

Esta regionalização enfraqueceu muito a visão missionária da igreja e fez com que as igrejas, de certa maneira, nas regiões se voltassem muito para questões administrativas,

crescimento numérico, vida interna. A visão missionária ficou muito prejudicada com essas perspectivas.

 

Expositor Cristão: Mesmo com os desvios é possível definir a vocação da Igreja Metodista a luz do Plano para Vida e Missão?

Rui Josgrilberg: A Igreja Metodista está passando por um ciclo que eu chamaria assim: aspiração de massa. Só que a Igreja Metodista não é de massa. Não temos estrutura para isto. Por mais que se assimilem outras influências, a Igreja Metodista tem que se dar conta que tem outra vocação: de ser mais sal. Temos que entender que nossa igreja não pode ser massa, senão vira tudo sal. E a sopa que vira sal ninguém consegue beber. Esta, eu creio, é a nossa vocação. Pela complexa organização da Igreja Metodista, pela formação que escolhemos dar aos pastores, não temos o perfil de igreja de massa.

 

Ela tem que crescer numa outra direção. A vocação que João Wesley viu para a igreja não foi formar massa. Ele dizia: eu não temo que os metodistas venham a desaparecer, eu temo que os metodistas se tornem uma seita insípida. Este era o grande temor de Wesley. Se Deus chamou a Igreja Metodista para ser sal, ela tem que responder a Deus de acordo com esta vocação.

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