Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Teologia e saúde: do vale de ossos secos à vida plena

Teologia e saúde: do vale de ossos secos à vida plena

05/08/2013 13h25 - última modificação 05/08/2013 13h25

5 de agosto, é o Dia Nacional da Saúde. E o que isso tem a ver com Teologia? Tudo! A palavra SAÚDE tem a mesma origem latina da palavra SALVAÇÃO; diz respeito à valorização da VIDA. Saúde física, mental, social e espiritual não se dissociam.

Para iniciarmos essa semana na qual retomamos as atividades letivas, compartilhamos um auxílio homilético do saudoso professor e pastor luterano Milton Schwantes, que fala sobre "sofrimento e esperança", inspirado pelo texto de Ezequiel. Começamos, no entanto, pelo final, pela oração proferida pelo professor:

"Deus, tu que ressuscitas da morte para a vida, tu que transformas gente desanimada numa comunidade e num povo corajoso, imploramos em favor de nós, desanimados, de pequena fé, qual vale de ossos. Põe-nos em pé, para podermos caminhar em comunidade, para podermos acreditar que é possível mudar as coisas ao nosso redor. Abriga os mais desanimados, os mais despedaçados, nas ruas de nossas cidades, nas prisões de nosso país, nos leitos de nossos hospitais. Ajuda-nos para que também nós, com nossas mãos, sejamos abrigos, ajudas solidárias a tanta dor. Queremos crer em nós, em nossas capacidades individuais, para vencer. Ajuda-nos a crermos ainda mais nas forças conjuntas, nas capacidades da comunidade..."

Seja essa a nossa oração, ao iniciarmos o semestre. Leia, abaixo, a prédica completa:

1. Sofrimentos e esperança

Os textos bíblicos do 5° domingo da Quaresma têm o sofrimento como ponto de partida. Em Ezequiel 37, estamos no vale de ossos do exílio babilônico. Em João 11, as autoridades que decidem a morte de Jesus chegam a afirmar que convém que (este) morra (v. 50). E, em Romanos 8, o que atemoriza é a escravidão (v. 15). A temática do sofrimento e da opressão terá levado a escolher estas passagens bíblicas para este domingo.

Contudo, nunca falta a esperança. Quando Romanos 8 se refere à escravidão, então o faz para testemunhar que, em Cristo, recebemos o espírito de adoção (v. 15), para animar-nos com a glória por vir (v. 18). Quando João se refere à morte de Jesus, decidida pelo arbítrio das autoridades opressivas, não deixa de explicá-la profeticamente: Jesus estava para morrer pela nação (v. 51). A morte de Jesus não o afastaria de nós. E, em Ezequiel 37, o vale de ossos é justamente o desafio para a ação do espírito profético: Ossos secos, ouvi a palavra! (v. 4.) Estes nossos textos falam, pois, todos da dor, do injusto sofrimento imposto a exilados e condenados desta terra, mas não deixam de olhar para frente, não permitem que, lá adiante, o horizonte se feche. Evocam esperanças em meio a sofrimentos, a ossos secos.

2. Ossos secos

A dominação destroça. Quebra a vida. Despedaça.

Às vezes, os pedaços ficam à vista de todas e todos. Aparecem sem disfarces. É quando se descobrem cemitérios clandestinos, defuntos sem cadastro, aos milhares. Aí dá muita agitação, e com razão. É quando fascistas e nazistas matam aos milhões. Estes holocaustos não podem ser esquecidos. Ficam aí aos olhos de todos. É quando nações indígenas inteiras são dizimadas, hoje e ontem. Tais genocídios, praticados na conquista das Américas, sobem aos milhões. Não há como ignorá-los.

E, ainda assim, se discute. Até quando os vales de ossos estão aí espalhados por toda a parte, aos milhões pelas esquinas da história, colocando em dúvida a própria realidade. Espalha-se fumaça, que dificulta que se veja. É o caso da interpretação dos 500 anos de massacre da América indígena, africana e latina. Há quem queira sobrepor aos milhões de cruzes que foram erguidas pela conquista, em todas as partes das Américas e de múltiplas maneiras, alguma fumaça, alguma fumacinha bonitinha, que impeça que se veja o cemitério no qual o colonialismo, o imperialismo, a dívida externa transformaram e estão transformando nossas vidas. Com tais fumacinhas gloriosas e bonitinhas, por fim, se deixa de ver, se deixa de perceber o que é, o que está diante dos olhos. Ao menos, é o que desejariam conquistadores de ontem e de hoje.

Veja, até mesmo quando tudo parece claro e transparente, quando a injustiça clama aos céus, como esta injustiça praticada contra nações indígenas, contra os povos africanos e contra crianças e mulheres, ao longo dos 500 anos de conquista, até em tais casos pode-se deixar de ver, pode-se ser levado a não enxergar os vales de ossos.

Quanto mais, quando os casos são bem menos massivos, bem menos evidentes às grandes luzes da história! Quanto mais se deixa de ver os vales de ossos, quando a dominação se passa às escondidas, em secreto, dentro das almas, dentro dos quartos, pelas cozinhas, nos porões.
Aliás, a maioria das dominações nem chega à luz do dia. Permanece ao lusco-fusco, perambula em esconderijos. Vive balançando e se apertando nos ônibus. Permanece atrás das panelas, submetendo-se ao destino. Desagua em quartos escuros, em choros e desesperos mil. Como fotografar tanta desgraça e opressão? Não chega a público. Não vai para o Jornal Nacional.

O vale de ossos de Ezequiel 37 poderia parecer um dos grandes vales de ossos da história. Este texto ficou tão conhecido entre nós, foi tantas vezes repetido nas comunidades, que, ao final, poder-se-ia ter a impressão de que este vale de ossos, este exílio citado por nosso profeta, teria sido um dos grandes e sensacionais acontecimentos da história universal. E este não é o caso. Assírios e babilônios deportavam aos milhares, povos atrás de povos.

Massacravam e queimavam por onde passassem. Estes aproximadamente 15 mil deportados judaítas, levados à força para a Babilônia no 6° século a.C. para este vale de ossos, são apenas uma pequena e quase insignificante parcela das dores e dos gemidos espalhados pelos donos do mundo de então. Não conheceríamos as tragédias destes exilados judaítas, não fosse a história de Israel algo especial: a memória dos e das pobres em meio à grande história universal.

O vale de ossos de Ezequiel 37 é parte das pequenas memórias, das tragédias quase esquecidas, daquilo que parece sem importância. Não saberíamos desta pequena memória, não fosse a Bíblia preferencialmente uma coletânea dos destinos dos deserdados, dos exilados.

3. No exílio


Estamos no exílio, na Babilônia, após 587 a.C., ano da destruição de Jerusalém, à qual se refere Ez 33.21: Caiu a cidade.

Ezequiel, ex-sacerdote em Jerusalém, pertencente, pois, originalmente, às elites de Jerusalém, já fora deportado em 597 a.C., por ocasião da primeira leva de desterrados (2 Rs 24,10-17; Ez 1-3). Estes exilados de 597 a.C. representam o maior número dos que se encontram na Mesopotâmia. Em 587 a.C., o número de deportados não terá sido muito grande. Nesta oportunidade, quando da destruição da cidade de Jerusalém e de seu templo, boa parte da população terá sido dizimada, seja por fome e peste, seja pela fúria dos soldados vencedores.

As perspectivas eram diminutas: Jerusalém caíra; Judá estava arrasada; templo e reinado eram ruínas; o povo estava cativo c disperso. Para os sobreviventes, os horizontes pareciam fechados. Prevaleciam lamentações e queixas (Lamentações!).

Neste ambiente, os olhos foram dirigidos ao passado. Por que nos ocorreu tudo isso? O livro de Ezequiel é incansável em descrever as razões para tamanha ruína. É o que se lê nos caps. 1-24. Explicam, profeticamente, por que Israel está arrasado. Também a grande obra historiográfica que reúne os livros de Deuteronômio, Josué, Juizes, l e 2 Samuel, l e 2 Reis se dedica à mesma pergunta: Por que acabamos neste exílio? Para esta obra historiográfica, a monarquia, com suas idolatrias e explorações, está na raiz da ruína.

Houve, pois, uma intensa preocupação em entender a trajetória que resultou na tragédia. Fez-se a história do vale de ossos.

E assim se chega ao recomeço, a uma nova visão do futuro. Esta visão utópica é, propriamente, a ênfase de Ez 37.

4. Profetiza!

A profecia, que fora tão dura e aguda na análise do passado e presente, que tão impiedosamente denunciara a exploração de reis e ricos, é porta-voz da esperança. A esperança nasce no justo lugar, onde não se deixa de ver as coisas como são, sem enfeite.

Ez 37 é, pois, fala profética. É palavra do Senhor, como destacam o v. 3 e outros. Aliás, o termo profetizar é repetido muitas vezes em nossos versículos. É um de seus termos-chaves.

A profecia não é, pois, a linguagem da fé, válida só para momentos em que se tem esperança. Quando nosso povo ainda vivia em esperanças, ténues por certo, mas ainda assim presentes e possíveis, gostávamos muito dos profetas. Aí dizíamos que os profetas denunciam e anunciam, isto é: fazem ver e analisar a realidade e provocam esperanças para um futuro melhor. E estas efetivamente são e continuam a ser tarefas proféticas. Contudo, era mais fácil promover profeticamente as esperanças quando estas ainda estavam latentes nas comunidades e na população, quando tínhamos certeza de que seria possível sair do fundo do poço, que já não poderia ficar pior do que estava, que os militares já nos haviam feito conhecer a amargura mais amarga. Aí, neste ambiente, a profecia vinha bem, sintonizava com os sonhos de sermos semente de nova sociedade. E isso não acabou. Pois a esperança é a última que morre! Mas, agora, esta esperança profética precisa resistir desde o mais profundo do vale de ossos, secos e amargurados, despedaçados e estraçalhados. E a profecia é portadora deste milagre. Não por ela mesma, não pela força de suas análises e projeções, não por razão do povo, mas no vigor do Espírito.

5. Pelo Espírito

Esta profecia que enfrenta o mais fundo do poço, que arranca vida de sepulturas, de vales com ossos desconexos, esta profecia é obra do Espírito. Provém da mão do Senhor. Esta mão do Senhor faz as vezes de um título para nosso capítulo (v. 1). O Espírito não é, pois, algo como a boa vontade, que, apesar de tudo, ainda cultivamos. Não exclui esta boa vontade, este bom ânimo, mas não o tem por suficiente, ou melhor, por adequado.

A obra profética do Espírito tem por finalidade o próprio saber a respeito de Deus, sua glória, sua manifestação. Ez 37 é um capítulo do Espírito.

Monarcas e templo haviam conduzido ao desterro. Agora, volta a irromper a era do Espírito. Reis e templo — abomináveis na linguagem de Ezequiel — haviam como que suprimido a transparência do Espírito.

De fato, é interessante observar que, em Israel, o tempo dos reis (ou seja, entre o 10° e o 6° séculos) são séculos de silêncio do Espírito. Os juízes, estes sim, estavam sob o impacto do Espírito (Jz 11.29). Ainda Saul aí se situa. Mas, depois, prevalece o silêncio. Nem os reis, nem os sacerdotes, tampouco os profetas gostam de testemunhar do Espírito (uma exceção seria Mq 3.8, se a expressão em questão fosse de Miquéias). Mas, isso muda no exílio e depois dele.

E aí Ez 37 tem força explosiva: com a profecia do Espírito irrompe o inesperado, o impossível. Um povo idólatra, uma gente injusta, um vale de ossos torna a viver. E tudo pela palavra.

6. Dize-lhes

É dizendo e falando, é profetizando que tudo muda. O profeta nem age, nem põe a mão na massa. Não junta ossos. Não age como Deus em Gênesis 2, utilizando barro e costela. Não, só a profecia, o dizer é suficiente, como em Gênesis1, escrito justamente por esta geração de exilados. O povo é re-criado pela palavra.

Na fragilidade total de exilados, a força está no poder da palavra. Isso é teológico, é o milagre de Deus. Mas é também antropológico. E, a cada dia, pode ser experimentado em meio aos pobres. Estão quebrados e cercados por todos os lados, já sem saída, qual cordeiros que vão aos matadouros, isto é, aos empregos que nada lhes pagam, aos ônibus superlotados, aos supermercados que lucram com a inflação. E, apesar disso, resistem, se bem que só lhes restam algumas palavras mal faladas, alguns desejos muito distantes, muitas crianças para pouco quarto.

Em seus pontos mais radicais, a Escritura testemunha deste vigor da palavra, milagrosa, capaz da ressurreição. Nestes seus locais de dor mais radical e absurda, os Jós são reerguidos por palavras. Em parte, são palavras ditas de uns para outros; de umas para outras. Mas, por outro, são os milagres que Deus revela em nossas vidas, dos quais nossas palavras, nossas palavrinhas ditas nas melhores das intenções, não passam de balbucios, de ver como em espelho, obscuramente.

7. Um exército sobremodo numeroso

A reconstituição deste vale de ossos tem objetivo. Não termina no vazio. Neste vale, uma vez restaurado, há terminalidade, há saída. E ela é concreta.

Importa que essa gente do exílio volte a estar em pé (v. 10), parada, erguida. Pois a opressão deixa suas marcas, resulta em pessoas curvas, tortas, caindo para os lados. O Espírito põe em pé. Ë o que reis e templos, dominantes de ontem e de hoje, temem: que as pessoas estejam paradas, em pé. Preferem pessoas arrasadas, envergonhadas, gente que se move sem ser percebida. Mas o Espírito não é assim.

Esta gente que está em pé é chamada de exército sobremodo numeroso (v. 10). Aí não há que pensar logo em militares. Pois o termo exército era usado em tempos tribais para designar a força do povo, disposto à luta para fazer frente aos opressores. O exército são estas tribos, é este sistema tribal. São, hoje, as comunidades que, na fé, participam do povo de Deus, que são preparadas para assumirem suas tarefas ao seu redor. Quando a comunidade, quando a igreja participa, se põe em pé, aí se torna um exército, para o bom combate da fé.

É a terra! O chão para plantar e viver — este é o algo mais específico deste povo saído da sepultura, por obra do Espírito, constituído em exército/comunidades. Sem terra, talvez não houvesse como sair do vale de ossos. Sem terra, este vale das lágrimas não acaba. É o que nos contam, de mil maneiras, os quinhentos anos da América Latina: roubados da terra, pobres continuam a virar ossos. O roubo da terra se fez, em nossa história, a matriz de todos os males sociais. Por isso, este Ez 37 é tão valioso, porque correlaciona, de modo quase ingênuo, a saída da sepultura da morte e do pecado para a terra do plantio, para o salário digno. Não resta dúvida: O que é bom, é concreto.

8. Observações para a prédica


Começaria a prédica pelo tema da esperança. Por um lado, é a própria ênfase de Ez 37; por outro, é o que estamos a necessitar: olhos para o futuro. Lógico, no começo será preciso dizer algo mais geral sobre a esperança. É o tema do êxodo: a terra que mana leite e mel. É o conteúdo do novo êxodo, a ressurreição de Jesus. Mas muito prontamente iria ao concreto, às minúcias da esperança, às coisas do dia-a-dia. E é nesta direção que indica nosso texto, ao citar a terra, ao mencionar o exército/tribalismo, ao usar a expressão do pôr em pé. Há as assim chamadas esperanças pequenas, que, aliás, não são nada pequenas: a melhoria do ônibus de cada dia; concluir as lições, exigidas do aluno na sala de aula; conseguir melhorar a relação mulher-homem. Isto é importante, porque de outro jeito fica difícil experimentar o que é pôr-se em pé. Mas também não havemos de deixar de lado as questões mais amplas, difíceis, aquelas que tanto nos fazem sofrer: a destruição de nosso meio ambiente; o acesso à terra; a dignidade das crianças que agora sobrevivem nas ruas.

Certamente será preciso contar cenas de esperança, experiência em que sepulturas foram vencidas. Cada contexto terá as suas. Mas, neste momento de nossas vidas, importa mostrar saídas coletivas, histórias de comunidades que alcançaram efetivar mudanças, concretizar esperanças. Pois os donos do mundo procuram dar a impressão de que já não há saída para todos, em grupos, de que só há soluções para alguns. Ez 37 profetiza da ressurreição de um povo, de uma comunidade. A partir deste texto, será preciso dar ênfase às esperanças e soluções comunitárias.

Depois não há que esquecer o vale de ossos, este indizível sofrimento que se espalha e que cresce em nosso meio. Aí a figura dos ossos, que enchiam o vale, jogados por aí, aos pedaços sugere que se enfoque na prédica o isolamento de uns contra os outros, o individualismo, esta luta feroz de todos e todas contra todas e todos. A vida cai aos pedaços, quando na família velhos e jovens já não se dispõem a um mútuo aprendizado, quando os ricos esmigalham os mais pobres.

O Cristo solidário até a cruz abre nova realidade: a de que se junte em comunidade aquilo que estava despedaçado.

9. Subsídios litúrgicos

1. Confissão de pecados: Deus da Vida, vivemos com falta de vida, porque tudo anda aos pedaços. Não conseguimos realizar o que gostaríamos de ver feito. Por dentro andamos quebrados, desanimados. E a pobreza aumenta, a cada dia. Ameaça a todos nós, com vidas ainda mais destruídas. E participamos destas destruições. Ajudamos a piorar, porque não nos mantemos em amor e justiça. Deus da Vida, tem piedade de nós!

2. Leituras bíblicas: Recomendo as duas leituras previstas, ambas do Novo Testamento. Complementam o texto da prédica. São: Romanos 8.11-17 e João 11.47-53.

3. Intercessão:
Deus, tu que ressuscitas da morte para a vida, tu que transformas gente desanimada numa comunidade e num povo corajoso, imploramos em favor de nós, desanimados, de pequena fé, qual vale de ossos. Põe-nos em pé, para podermos caminhar em comunidade, para podermos acreditar que é possível mudar as coisas ao nosso redor. Abriga os mais desanimados, os mais despedaçados, nas ruas de nossas cidades, nas prisões de nosso país, nos leitos de nossos hospitais. Ajuda-nos para que também nós, com nossas mãos, sejamos abrigos, ajudas solidárias a tanta dor. Queremos crer em nós, em nossas capacidades individuais, para vencer. Ajuda-nos a crermos ainda mais nas forças conjuntas, nas capacidades da comunidade...

Fonte: Portal Luteranos

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: