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"A missão de Deus hoje" é o tema da 59ª Semana Wesleyana

06/04/2010 18h58 - última modificação 18/06/2010 18h54

Motivada pelo centenário da primeira Conferência Missionária Internacional (Edimburgo, 1910), a Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo e o Centro de Estudos Wesleyanos promoveram a 59ª Semana Wesleyana, de 24 a 28 de maio de 2010, com o tema "A Missão de Deus hoje" e a presença do pastor metodista do Sri Lanka Wesley Ariarajah, doutor em teologia e professor da Drew University, dos Estados Unidos.


A programação da Semana:

SEXTA-FEIRA, dia 28 de maio


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O último dia da Semana Wesleyana foi momento de refletir sobre os desafios propostos e celebrar a esperança, nascida da fé, de que a vitória é certa!

O professor Paulo Ayres e o professor Luiz Longuini Neto fizeram a síntese dos dias de palestras, na mesa presidida pela professora Suely Xavier (foto acima).

Paulo Ayres destacou que existem diversos projetos missionários em conflito em todas as igrejas cristãs e esse impasse será superado apenas por meio do diálogo. Luiz Longuini compartilhou de sua experiência de dez anos como pastor no Morro da Coroa, Rio de Janeiro, onde vivenciou terríveis dramas sociais e afirmou que só foi capaz de trabalhar naquele contexto graças à sua sólida formação teológica. "Não fiquem achando que teologia é coisa do demônio. Não rejeitem a leitura, a informação. Ela é importante para termos boa visão missionária".

Após este momento de reflexão, iniciou-se um culto com celebração eucarística e pregação do pastor e professor Wesley Ariarajah.

Ele se baseou no texto bíblico de Hebreus 12.1-2. Disse:

Temos aqui uma imagem de corrida de revezamento. As pessoas passando o bastão de uma geração a outra, desde Abraão, Wesley, os missionários que trouxeram o Evangelho ao Brasil... Vamos começar a corrida e correr os riscos com paciência e perseverança. Não podemos entrar nessa corrida com muita ansiedade. Outros já correram a primeira parte. A única coisa que é exigida de nós é fé e fidelidade. Não somos responsáveis por terminar a corrida, mas por correr e passar o bastão ao próximo que continuará. Vamos correr olhando para Jesus, que é o pioneiro, que deu início à corrida e a terminará. A última parte desta corrida será corrida por Jesus, que leva a corrida à perfeição. Sabemos, portanto, que venceremos.Corramos a nossa parte com confiança e esperança na vitória.

QUINTA-FEIRA, dia 27 de maio


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Após a devocional criativa e alegre, valorizando a cultura popular brasileira e lembrando do povo sertanejo que busca na fé a força para viver, o professor Wesley Ariarajah iniciou a palestra intitulada Repensando a missão para o século 21. Analisando o atual momento em que vivemos ele disse:

“Em 1910, quando se organizava a Conferência Missionária de Edimburgo, o continente europeu era visto como cristão. Hoje, grande parte do continente secularizou-se. Persistem pequenas comunidades de fé, enquanto as grandes catedrais estão vazias. Nos Estados Unidos, os cristãos fiéis também são minoria. O que se vê é uma sociedade conectada à ideologia capitalista e consumista. E na África, onde se diz que o cristianismo está crescendo, na verdade o que vemos é o crescimento da teologia da prosperidade e não o chamado ao discipulado cristão. Não quero, no entanto, ser pessimista. Mas precisamos pensar como responder a esta realidade”.

Para responder a esta questão, o professor voltou-se à Bíblia. Revisitando o Antigo Testamento, ele analisou o conceito judaico de missão. E observou que Javé, o Deus da Justiça, que havia libertado o povo do Egito, tornou-se, na compreensão do povo judaico, o Deus de todas as nações.

Em Amós 9.7, o profeta diz que Deus não libertou apenas os filhos de Israel, mas libertou também outros povos: Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes? - diz o SENHOR. Não fiz eu subir a Israel da terra do Egito, e de Caftor, os filisteus, e de Quir, os siros?

Isaías 19.24-25 diz: Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra; porque o SENHOR dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança. “Lembre-se que Assíria era inimiga de Israel; Egito havia mantido cativo o povo. No entanto, a bênção de Deus é para todos”.

E nas visões escatológicas as nações também são reunidas. Deus é Deus de todas as nações. Como em Apocalipse 21.3: Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.

Caberia, então, ao povo judaico ser testemunha de Deus diante dos outros povos. “Não há nenhuma tentativa em transformar as pessoas em judias. Até hoje o judaísmo não é proselitista”, afirmou o teólogo.

Deus escolheu Israel para ser testemunha entre as nações, mas Israel não recebe a incumbência de converter os outros povos ao judaísmo. O povo de Israel recebe a incumbência de testemunhar a ação de Deus – e neste sentido seu papel é uma necessidade absoluta.

Em Atos1.6, os discípulos perguntam a Jesus ressurreto: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” Jesus responde a partir da compreensão judaica:

Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra. Atos 1.7-8.

Da mesma maneira, afirma Ariarajah, o apóstolo Paulo não teria, originalmente, a intenção de converter os gregos. Foi à Ásia Menor para convencer os judeus de que Jesus era o Messias e acabou “tropeçando” nos ouvintes gregos.

“Não estou dizendo que não devamos espalhar o Evangelho”, disse o palestrante. “Evangelho é Boas Novas e precisa ser anunciado. Haverá comunidades que se tornarão cristãs, mas esse não é o objetivo da missão.

Ele conta que na Ásia conversão é uma questão complicada. Embora conversão seja a transformação dos corações na direção de Deus; para muitos/as cristãos/ãs a conversão é vista como tirar uma pessoa de uma comunidade para levar para outra. Por isso, a missão cristã é temida, não é tida como missão de cura. O mesmo não ocorre, por exemplo, com o budismo, explicou Ariarajah. O budismo começou como religião pequena no norte da Índia. Hoje é majoritário no Sri Lanka, China, Índia, Tibet, Japão, Tailândia, Taiwan, Hong Kong... “O budismo é a religião de missão mais bem sucedida no mundo”, diz ele. “Nunca houve um império budista. O budismo nunca foi promovido pela espada. Como o cristianismo, com todos os recursos, não conseguiu o que o budismo conseguiu?”, questiona o professor.

Ele disse que estudou o budismo e hinduísmo. Com a platéia da Semana Wesleyana, compartilhou algumas de suas percepções:

"Na tradição Theravada, o monge budista não pode tocar em dinheiro. Suas posses são mínimas: uma muda de roupa, sandálias, uma navalha para raspar a cabeça, uma cuia para receber as doações de alimento. Pela manhã, ele sai pela vila com a vila e o povo lhe dá o alimento e pede orientação. Esse monge depende 100% dos outros para sua sobrevivência. Ele não tem nada a oferecer a não ser o ensino budista. As missões cristãs foram para a África e todas as pessoas ao redor delas são extremamente pobres. A missão é que tem dinheiro e provê todas as necessidades da população no entorno. Nossos missionários/as tornam dependentes todas as pessoas ao redor deles/as".

Em Mateus 10.6-11, Jesus envia os discípulos para a missão com as seguintes orientações:

Curai enfermos, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expeli demônios; de graça recebestes, de graça dai. Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre nos vossos cintos; nem de alforje para o caminho, nem de duas túnicas, nem de sandálias, nem de bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento. E, em qualquer cidade ou povoado em que entrardes, indagai quem neles é digno; e aí ficai até vos retirardes.

“Os budistas levaram a sério a ordem de Jesus e os cristãos não”, afirmou o palestrante, gerando uma reação de surpresa mas, também, aprovações. "Não existe missão possível a não ser a humilhação da cruz e o esvaziamento".

Wesley Ariarajah também destacou que o budismo não busca converter pessoas, as influenciar a cultura da sociedade. Os cristãos também devem buscar transformar a vida das pessoas e não membros para suas igrejas. “A Igreja não existe para si mesma. O único motivo de sua existência é servir à missão. Deus não quer salvar a Igreja, mas o mundo. A Igreja deve ser instrumento usado por Deus para a missão”.

A palestra da manhã de quinta-feira, que seria repetida à noite, certamente estimulou os/as participantes da Semana Wesleyana a refletirem sobre o compromisso com a missão. A palestra não repercutiu da mesma maneira entre os espectadores, nem era essa a intenção do palestrante. Seu objetivo, plenamente alcançado, foi abrir portas para o diálogo. Num tema complexo como o desafio da missão em um mundo que sofre constantes transformações, as opiniões sobre o tema também se dividem. Veja abaixo alguns depoimentos:

José Augusto Silveira Neto, metodista, aluno do Curso Teológico Pastoral: Estou gostando muito. Esse é o lugar que temos para refletir sobre essas questões. Lá fora não temos essa oportunidade. Temos que estar preparados para quando essas questões chegarem às nossas igrejas e gabinetes pastorais.

Bispo Adolfo Evaristo de Souza, da Região Missionária da Amazônia: O mundo do Wesley Ariarajah é diferente do Brasil. O que ele apresenta é fruto de uma reflexão alta, a nível de tratamento com lideranças mundiais. Para a grande maioria dos alunos é difícil; já existem alunos vindo me procurar com dúvidas, os alunos novos têm grande dificuldade em lidar com essas questões; só quem já está na militância há muitos anos consegue. Para mim está sendo muito bom. Ser testemunha implica no conhecimento profundo de Cristo, no qual a pessoa já superou diferenças humanas e consegue manter testemunha de Cristo.

José Carlos de Souza, pastor metodista e professor da FaTeo: O encontro tem sido provocativo, no bom sentido. Leva-nos a pensar conceitos que estão sedimentados no senso comum da Igreja e nos remete a repensar com seriedade as fontes da nossa fé.

Danielle Mozena, budista, aluna da FaTeo (presencial): Estou achando muito legal. O evento tem sido muito moderno, totalmente compatível com as necessidades do saber teológico hoje.

Gladstone Nascimento, pastor de Ribeirão Preto: Estou achando muito vago. Muito acadêmico e pouco prático. Missão cristã sem Cristo não existe. Posso ter diálogo, mas não posso omitir o caminho.

Ricardo Durães, aluno da FaTeo (EAD, de Salvador): Estou gostando do tema principal. Muitas coisas precisamos que repensar. A missão de 100 anos atrás não será igual à missão de agora. O que não muda é a essência da Palavra, mas precisamos abrir a visão para algumas coisas, a fim de alcançar o mundo que muda.


QUARTA-FEIRA, dia 26 de maio

Palestra da noite


Conferência: Repensando a missão na tradição metodista

A noite de quarta-feira foi dedicada a pensar a missão no contexto metodista. O professor Wesley Ariarajah lembrou aos presentes que falaria na qualidade de ministro metodista desafiado a exercer a missão cristã no Sri Lanka, país asiático no qual 65% da população é budista; os cristãos não chegam a 8%. “Não conheço muito o Brasil, mas naturalmente são contextos diferentes. Vocês terão que pensar o que significa missão em um país em que, ao menos nominalmente, 99% da população é cristã”.

Ele acredita que cada tradição religiosa pode trazer uma contribuição específica para o contexto religioso de um país. Qual seria a contribuição metodista? “Esta era uma pergunta que Wesley fazia a si mesmo: por que Deus levantou o povo metodista na Inglaterra? Hoje precisamos fazer a mesma pergunta”.

Segundo Wesley Ariarajah, algumas pessoas pensam que revitalizar o metodismo é voltar aos tempos de Wesley com a mesma metodologia. Não se trata disso. John e Carlos Wesley são referências que nos inspiram. Mas, o que a experiência do “coração aquecido” pode nos ensinar para os dias de hoje? Wesley Ariarajah afirma que “o coração aquecido” foi uma certeza interior do Evangelho que resultou na prática da missão. “Sua primeira compreensão não foi ir para o resto do mundo, amas atuar dentro de seu próprio contexto”. Wesley teria, assim, agido como Jesus agiu, desafiando o seu próprio povo.

Segundo o professor Ariarajah existem três palavras que precisam ser bem compreendidas no âmbito da Igreja: evangelismo, missão e testemunho. O evangelismo é anunciar o Evangelho e convocar as pessoas a aceitá-lo – é uma das vocações da Igreja. Missão é como a Igreja atua na sociedade, nas áreas da saúde, educação, justiça social, promoção humana: são as várias formas de dons e ministérios. Já o testemunho é como as outras pessoas nos vêem. “O simples fato de existirmos projeta uma imagem sobre outras pessoas”.

Wesley utilizou uma ilustração simples para explicar o poder do testemunho cristão. “Imagine que você viu um acidente, mas não está envolvido nele. Você pode testemunhar sobre o que viu. Se estivesse sentado num dos carros, mas sem nenhum ferimento, poderia dar um testemunho diferente de quem viu o acidente de longe. Mas se você foi o motorista e, por causa do acidente, teve o seu braço quebrado, nem precisará falar nada. As pessoas vão olhar para o seu braço engessado e perguntar se você sofreu um acidente. Assim deve ser o testemunho cristão. A testemunha mostra o que Deus fez em sua vida para as pessoas. A mensagem do Evangelho está de tal modo entranhada na vida dela que ela é uma prova do que Deus faz. John Wesley queria que, qualquer pessoa que visse um/a metodista pudesse enxergar a diferença que Deus faz na vida das pessoas”.

“Contudo, em meu país, metodista é conhecido como aquele que não bebe, não fuma e não se envolve jogos de azar. Nós reduzimos nossa responsabilidade social à questão da bebida, fumo e jogo?”, lamentou Ariarajah, lembrando que vivemos numa sociedade com tremendos problemas sociais, como violência, desemprego, consumismo, pobreza e discriminação racial. Onde está o testemunho da Igreja diante da sociedade atual? “O testemunho se confirma na ação”, frisou Ariarajah. “Quando a Igreja é infiel no testemunho, ela solapa Deus. Deus se torna incapaz de mostrar o que está fazendo no mundo. É Deus o missionário. Nós somos apenas apoiadores. A vida da nossa igreja e a nossa própria vida são os frutos do Evangelho que testemunham Deus. Não há igrejas neutras. Ou a Igreja está testemunhando o Evangelho ou está traindo o Evangelho”.

Para Wesley Ariarajah, “é preferível que nos tornemos minorias fiéis do que ter uma maioria traindo o Evangelho”. “O que procuramos em missão não é sucesso, mas fidelidade”.


QUARTA-FEIRA, dia 26 de maio

Palestra da manhã


MISSÃO E DIÁLOGO


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Na manhã em que os/as participantes da 59ª Semana Wesleyana refletiram sobre Diálogo e Missão, a liturgia teve a participação de dois alunos que, não sendo metodistas, estudam Teologia nesta casa, compartilhando suas experiências de vida e fé: Danielle Mozena, budista, e Marcos José Martins, evangélico pentecostal (agora no programa de Pós Graduação, após se formar em Teologia na FaTeo)


Em sua segunda conferência, Wesley Ariarajah falou sobre “Missão e Diálogo”. Voltando à experiência de Edimburgo, ele destacou que, a partir dos empreendimentos missionários de 1910, a religiosidade dos povos alcançados pela missão começou a se tornar uma questão existencial para os missionários. Ao conhecerem os hindus, por exemplo, eles encontraram um povo que cultivava uma profunda e rica religiosidade. Deus não estaria agindo em meio aquele povo? Já não estaria em ação na vida das pessoas da Ásia antes que os missionários chegassem?

Estas questões tornaram-se cruciais para os missionários não apenas porque diziam respeito à missão, mas porque abordavam a própria natureza e atuação de Deus.

Depois de muitos estudos, diz Ariarajah, eles chegaram à conclusão de que Deus já estava trabalhando naquele povo. Naquela época, sobretudo nos Estados Unidos, o secularismo aparecia como uma ameaça à fé. Os missionários começaram, então, a pensar que todas as forças religiosas deveriam se unir para combater o secularismo.

Essa questão foi discutida especialmente na Conferência Missionária de 1938, realizada em Tambaram, na Índia. Como documento preparatório ao evento, o missionário Hendrik Kraemer (1888-1965) preparou um estudo de 200 páginas. “Ele afirmava que toda a religião é um sistema fechado de símbolos, nos quais se incluem a idéia de Deus, pecado e salvação. Assim, não se poderia extrair partes deste sistema fechado, ou seja, adotar apenas determinados valores de uma religião ou outra, como algumas pessoas chegaram a sugerir. Para Kraemer, ainda que em todas as religiões existam valores significativos, todas as pessoas teriam que ser confrontadas com o Evangelho de Jesus”, disse Wesley Ariarajah. Alguns missionários trabalhando na Ásia não aceitaram esta interpretação. Não concordaram com a idéia de que a Revelação só ocorre dentro do Cristianismo. Em 1938, no entanto, a maioria dos participantes da conferência missionária assumiu as posições de Kraemer. A discussão continuaria no futuro.

Em 1971 surgiu um novo programa no CMI para tratar especialmente do Diálogo Inter Religioso. O Concílio Vaticano II, terminado em 1965, também havia chegado à conclusão de que era necessário o relacionamento com outras religiões e fora criado um secretariado de relações com não cristãos, denominado hoje Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso.

Segundo Wesley Ariarajah, a Conferência de Nairóbi de 1975 (quinta assembléia do Conselho Mundial de Igrejas) foi a primeira grande oportunidade de se discutir seriamente a questão do diálogo. Foram convidados consultores de outras religiões e o resultado foi uma grande controvérsia. Três pontos foram especialmente polêmicos:

  1. o diálogo inter-religioso não levaria ao sincretismo?;
  2. o diálogo com outras religiões não vai contra a tarefa missionária? Se aceitamos o diálogo com outras religiões, deixaremos de fazer missão?;
  3. e o que dizer da unicidade e finalidade de Jesus Cristo?

Foi necessário que uma nova reunião fosse convocada, um ano depois, apenas para tratar dessas questões. Muito se estudou e muito se discutiu. O professor Wesley Ariarajah resumiu as conclusões a respeito dos três pontos controversos:

  1. O diálogo inter-religioso não levaria necessariamente ao sincretismo. Quem quer se envolver no diálogo deve ter clareza de suas convicções de fé. O sincretismo pode acontecer até mesmo fora do diálogo (“o próprio cristianismo é a religião mais sincrética do mundo”, lembrou Ariarajah. Ele reúne elementos da filosofia grega e do imperialismo romano, só para citar dois exemplos).
  2. É necessário deixar de lado o tipo de missão feito no tempo das colônias, no qual o cristianismo era levado junto com a espada. “Chegou a hora de nos livrarmos dessa missão colonizadora. O diálogo é onde a missão autêntica pode ocorrer”. Ariarajah lembrou que quando estava no sopé do Himalaia, em um diálogo cristão-hindu, os cristãos puderam dar um importante testemunho quando se colocaram contra o sistema de castas, afirmando o amor de Deus a todas as pessoas, sem distinção. Em contrapartida, foram questionados pelos hindus acerca da forma opressora com que o cristianismo se implantou nas colônias, numa prática que contraria a mensagem cristã do amor. “É isso o que acontece no diálogo inter-religioso”, disse Wesley Ariariajah. “O desafio mútuo. O diálogo nos ajuda a ver como os outros nos enxergam e nos dá autocrítica. Passamos a nos conhecer melhor”.
  3. Quanto à unicidade e finalidade de Jesus como salvador, os estudos não puderam chegar a uma conclusão diante de questão tão complexa. Contudo, os teólogos fizeram algumas considerações: Deus ama todo o mundo. Todas as pessoas estão sob a providência divina. O Espírito de Deus está em atividade desde o início e está em todos os lugares: "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito."(João 3:8).

Wesley Ariarajah dedica-se ao estudo do diálogo inter-religioso há vários anos. Em um de seus livros, The Bible and People of Other Faiths (Geneva: WCC Publications, 1985, ainda sem tradução em português), ele diz que focalizamos toda a nossa compreensão em versículos isolados, como Mateus 29.19 (Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo) e João 14.6 (Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim), sem estudar outros textos bíblicos bastante esclarecedores sobre a questão. Um deles seria livro de Jonas: em sua interpretação, trata-se de um texto de protesto contra a perspectiva que o povo tinha da atuação de Deus. Outro texto significativo o diálogo de Jesus com a mulher samaritana no capítulo 4 de João. Diante da polêmica que dividia judeus e samaritanos -- adorar em Jerusalém ou no monte Gerizim? – Jesus responde:

Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade. João 4.21-24

Citando o teólogo Hans Küng, Ariarajah concluiu: "Nunca haverá paz no mundo enquanto não houver paz entre as religiões. E nunca haverá paz entre as religiões enquanto não houver diálogo. Os cristãos têm a responsabilidade de contribuir para a busca da Paz. Assim, diálogo é parte da missão".


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Ariarajah, Sérgio Marcus, Anivaldo Padilha e a professora Magali Cunha



TERÇA-FEIRA, dia 25 de maio


Período da noite


Na noite do dia 25 de maio, a mesa coordenada pela Reverenda Joana D´ Arc, Secretária para Vida e Missão da Igreja Metodista, recebeu os palestrantes Paulo Ayres (bispo metodista e professor da FaTeo) e Carlos Queiroz (da Diaconia) para ministrar palestra sobre “Projetos missionários em conflito no campo religioso brasileiro”. O relato a seguir é uma colaboração do aluno da FaTeo e pastor acadêmico José Pascoal Mantovani:

Essa manhã ouvimos uma afirmação de Wesley Ariarajah sobre a competição existente já nas igrejas primitivas. Ele citou o apóstolo Paulo, que tinha uma capacidade enorme de reconhecer as necessidades da missão – fazia-se “judeu para os judeus, gentios para os gentios”, mas era muito comprometido com a verdade do evangelho. Uma das coisas que o bispo Paulo aprendeu com Wesley Ariarajah é que abrir-se para o outro não significa deixar suas próprias convicções.

Um dos livros de Wesley Ariarajah tem a ver com a seguinte questão: será que eu traí o Evangelho?

O campo religioso brasileiro nas últimas quatro décadas vem se caracterizando pela crescente diversidade religiosa, ainda que o cristianismo (católico e evangélico) siga sendo hegemônico. O censo religioso de 2000 levantou números que demonstram que vivemos em um país dividido em protestantes e católicos, mas existe uma diversidade religiosa.

Até o final do século XVIII, o que valia era a religião patriarcal. Não existia possibilidade de mudar de religião, pois quem tomasse essa atitude simplesmente se excluiria da comunidade. Quando Dom João toma a decisão de fugir de Portugal, das tropas francesas que estavam em seu calcanhar, ele teve que fazer um acordo com a Inglaterra, que exigiu uma série de concessões. Uma das garantias era, além da abertura dos portos, a permissão da entrada da religião dos ingleses. Logo, percebe-se que a entrada do protestantismo no Brasil foi uma manobra política. A verdade é que somente a partir de 1970 existe uma pluralidade no campo religioso brasileiro.

Na década de 50 ocorre o avanço da Umbanda, que se fortalece no Rio de Janeiro e em outros lugares do Brasil. Nessa mesma época, cresce o pentecostalismo. Existe uma época do grande apogeu da Igreja Assembléia de Deus.

Este processo de pluralização do campo religioso brasileiro tem se desenvolvido dentro de um contexto de crescente industrialização e urbanização da sociedade brasileira, principalmente após a Segunda Guerra Mundial. É preciso lembrar que as periferias das grandes cidades são os locais em que as igrejas pentecostais passaram a crescer, paralelamente com a umbanda. É um processo marginal que ganha dimensões imensas.

Como conseqüência das políticas desenvolvidas durante as últimas décadas, o Brasil foi obrigado a integrar-se ao processo de globalização da economia mundial e adotar políticas neoliberais caracterizadas pela supremacia do mercado globalizado.

A crise de 1973 coloca todo o sistema capitalista em cheque, em que é desenvolvida uma nova forma de capitalismo. Quando o Plano Cruzado falhou, o Brasil não teve outra opção a não ser aceitar as exigências dos neoliberais; esse fenômeno ficou claro na eleição do Collor.

Nesse bojo, o sistema religioso está em processo. No ano de 1977 percebeu-se que a igreja pentecostal do jeito que estava não iria atender às demais camadas sociais; assim começou a nascer a Igreja Universal do Reino de Deus. A influência do mercado sobre toda a vida humana é algo muito evidente nesse tempo. Mercado, cultura e religião estão ligados.

Não se pode ignorar o fato de que a existência multivariada de ofertas de bens religiosos, particularmente nos contextos urbanos brasileiros, está intimamente relacionada com a “comoditização”, cultura possibilitada tanto pela pós-modernidade como pela globalização. Um mapa exibido no auditório demonstrou o local em que os grupos evangélicos estão inseridos, sendo que, sua concentração é nos grandes centros urbanos. Nesses centros urbanos, o que prevalece hoje é a supremacia das leis de mercado. E o neo pentecostalismo percebeu isso.

No mundo em que vivemos, as fronteiras já não mais delimitam as existências dos grupos. Na segunda freqüenta-se um grupo, na terça outro, etc. Hoje existe pouca fidelidade ao grupo religioso a que se pertence, as pessoas vão aonde “existe a bênção”. Segundo o pensamento de Z. Baumann, vemos hoje “relações líquidas” que se moldam conforme a vasilha. Essa é uma característica da pós-modernidade. A cultura que vivemos é a do consumo e da mídia: quem está na mídia tem poder, que não está, não existe.

“Dentro desse contexto urbano, pós-industrial e pós-moderno, na enorme diversidade cultural reinante hoje no Brasil, sobressai-se o crescimento vertiginoso das igrejas evangélicas brasileiras, especialmente as pentecostais, quer as do pentecostalismo clássico, quer as do neo-pentecostalismo.” Segundo Paul Freston, esse crescimento do povo evangélico tem um teto, um ponto limite.
“Para os católicos romanos, a pluralidade religiosa neo pentecostal representa uma ameaça, já que seus fieis são campo fértil para o proselitismo religioso que tem provocado seu crônico declínio dos grandes centros urbanos, ensejando, por um lado, e marginalização das pastorais populares e sociais inspiradas pela Teologia da Libertação, e, por outro, o crescimento da renovação carismática católica.” Portanto, pode-se afirmar hoje que as igrejas brasileiras, tanto a católica como as evangélicos, sendo extremamente plurais, ao longo das últimas décadas acolhem dentro delas diferentes projetos.

Diante da diversidade do campo religioso brasileiro, é importante buscar-se a identificação e explicação teológica das principais propostas missionárias em conflito, buscando-se compreender a sua relação com as propostas políticas, econômicas e culturais presentes na sociedade brasileira, disse o bispo Paulo. “Torna-se necessário, portanto, explicar os fundamentos teológicos e as práticas missionárias dessas diferentes propostas e elaborar uma teologia que dê conta dos questionamentos e crie caminhos de superação dessas influências contemporâneas”.

Rev. Carlos Queiroz

Para pensar em conflito religioso Queiroz voltou à própria infância. Ele se lembrou de quando era criança e havia um seminário católico, uma D. Raimunda que era mãe de santo e a família dele que era evangélica. Existia um senhor com um poço, que fornecia água para todo mundo do bairro; todos se reuniam em torno do poço. O único momento em que estavam juntos era quando não estavam na religião. Até mesmo em movimentos ecumênicos existem tensões de concorrência. Por isso um diálogo é muito difícil no contexto brasileiro. A religião reúne o separado, mas o reúne como separado.

O modo como uma sociedade se organiza para a produção dos bens sociais influenciará as demais dimensões da vida social, inclusive a esfera religiosa. Quando a religião transforma-se em empresa ou produto, a ótica do mercado e da concorrência também afeta a missão.

Para Lutero é necessário que se exerça o sacerdócio universal de todos os crentes. Talvez seja necessário uma “plebeização” do clero. “Mosquito da dengue não pergunta se a pessoa é da umbanda, evangélico, protestante, ele vai lá e infecta”, disse Queiroz. Se isto ocorre para a disseminação de doenças e do mal, Queiroz propõe que os/as missionários de nosso tempo busquem “infectar” o mundo para o bem, independente da denominação.


Período da manhã

O legado da Conferência Missionária de Edimburgo: primeira conferência de Wesley Ariarajah


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Da esquerda para a direita: o professor Wesley Ariarajah e os tradutores de sua palestra, realizada em inglês, Sérgio Marcus Pinto Lopes e Anivaldo Padilha


Bem humorado, o pastor e professor Wesley Ariarajah começou sua palestra afirmando ter boa qualificação para falar na 59ª Semana Wesleyana: afinal, é um Wesley... Lembrou que neste ano comemora-se o centenário da Conferência Internacional de Edimburgo em várias partes do mundo, graças à ação de um leigo metodista. Mas a questão da missão é assunto que ainda hoje divide as igrejas e, portanto, é necessário repensar a missão no mundo de hoje.

Wesley Ariarajah destacou que John Mott estava profundamente interessado na missão. Seu ministério começou primeiro com estudantes. Ele reunia grupos nas escolas para estudar a Bíblia e orar. Observou que reunia estudantes de diferentes denominações e, então, descobriu o potencial que havia no estudo bíblico e na oração para unir os/as cristãos em torno de um projeto missionário. Na época, as sociedades missionárias competiam nos países onde atuavam, não havia nenhum tipo de cooperação. "Mott acreditou que se as sociedades missionárias unissem esforços e recursos humanos e financeiros poderiam evangelizar o mundo nessa geração".

Ele destacou que as sociedades missionárias eram formadas por leigos, muitos dos quais haviam passado por uma experiência de reavivamento espiritual e queriam compartilhar esta experiência com outras pessoas, transmitindo o Evangelho. As igrejas não tinham controle sobre as sociedades missionárias, que eram autônomas financeiramente. Foram as sociedades missionárias que organizaram a Conferência de Edimburgo. "A Conferência não teve participação direta ou controle das Igrejas. O evento foi totalmente organizado e apoiado pelas sociedades missionárias", afirmou Ariarajah.

O ano de 1910 é considerado o ponto de partida do movimento ecumênico moderno. Houve outras tentativas antes de união de esforços, mas esta foi a primeira organizada. A partir desta primeira iniciativa surgiram outras, que resultaram na fundação do Conselho Mundial de Igrejas em 1948, que hoje reúne 350 igrejas representando cerca de 600 milhões de cristãos/ãs no mundo. Também foi a partir da Conferência de Edimburgo que começou a emergir a compreensão de que a missão não era simplesmente pregar o Evangelho, mas salvar o ser humano de maneira integral, agindo em áreas como saúde, educação e justiça social. "Evangelização e missão se juntaram em 1910", disse Ariarajah.

A Conferência Missionária de Edimburgo reuniu 147 sociedades missionárias da Europa e Estados Unidos e 1200 missionários, dos quais apenas 17 eram do chamado “terceiro mundo”. Eles estavam convencidos de que poderiam reunir esforços e cristianizar o mundo todo, disse o professor. Contudo, nem mesmo 3% da Índia é cristã; o número de cristãos na China não chega a 2% e no Japão é menor do que 1% . O que aconteceu?

Segundo Wesley Ariarajah, havia muito entusiasmo, muitos recursos investidos e muitos missionários reunidos. Para explicar porque o resultado não foi o esperado, ele voltou aos tempos de Jesus. Explicou que a missão de Jesus foi restrita ao mundo judaico. “Os gentios tornaram-se cristãos quase que por acidente”. Ele disse que Paulo, após sua dramática experiência de conversão, tornou-se um cristão zeloso. De perseguidor tornou-se perseguido e teve que sair de Jerusalém. Como era muito “teimoso”, resolveu pregar aos judeus da Diáspora, na Ásia Menor, e procurava as sinagogas para pregar. Expulso das sinagogas, foi para as praças e teve sua mensagem ouvida e aceita pelos gentios. “Paulo ficou convencido de que os gregos podiam ser recebidos como cristãos – que até então, era uma seita judaica. Contudo, a Igreja de Jerusalém não aceitou. “Tivemos então a primeira conferência ecumênica. O partido judaizante de um lado, Paulo e Barnabé do outro e Tiago, irmão de Jesus, presidindo”.

Pedro, tocado pela experiência do batismo do Espírito sobre a família de Cornélio, testemunhou a favor dos gentios. Tiago tomou então a decisão: os gregos não precisariam ser circuncidados ou seguir as leis judaicas para serem aceitos como cristãos. “Foi um voto suicida”, disse Wesley Ariarajah. O princípio da morte da Igreja cristã judaica, que acabaria desaparecendo no ano 200.

“Para levar a mensagem cristã ao mundo gentio, os judeus abandonaram tudo”, afirmou Ariarajah. Por sua vez, os cristãos que foram para a Índia no início do século 20 não quiseram abandonar nada, disse ele. “Os indianos tinham que abandonar sua cultura e famílias para se tornarem cristãos. Eles é que tinham que morrer para sua cultura para se tornarem cristãos”.

Segundo Ariarajah, o cristianismo foi para a Ásia como um poder colonizador. “A Ásia experimentou Jesus Cristo como um novo Júlio César”. Os cristãos chegaram na Ásia negando toda a cultura oriental e ignorando religiões com três mil anos de existência. Por isso não tiveram sucesso no estabelecimento de igrejas cristãs no Oriente. Contudo, disse Wesley Ariarajah, o cristianismo trouxe grande diferença na Índia, sendo capaz de alcançar as classes oprimidas, párias na sociedade de castas. “O cristianismo trouxe muito para mulheres, crianças e viúvas, mas não implantando-se como igreja”.

Com o passar do tempo, a concepção de missão foi amadurecendo. Especialmente após as duas guerras mundiais que abalaram o mundo – e também a confiança nas próprias instituições religiosas, que não puderam evitar a guerra e até a apoiaram – surgiu a consciência de que a missão não é da Igreja, mas de Deus. Deus está em missão e a Igreja é apenas uma serva da missão. “O objetivo da missão não é a Igreja, mas o mundo. A missão não existe para fortalecer a Igreja. Esta foi uma importante mudança de paradigma. Até aquele momento o conceito de missão era implantar igrejas”, disse Ariarajah. Deus está presente não para salvar a Igreja, mas o mundo e toda sua criação. Como igreja, somos parceiros e servos de Deus nessa missão.



SEGUNDA-FEIRA, dia 24 de Maio, 20 h: Abertura da Semana Wesleyana


Missão de Deus hoje, Edimburgo e a parábola do torcedor de futebol


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O Rev. Rui Josgrilberg, reitor da FaTeo, teve o privilégio de abrir a 59ª Semana Wesleyana na noite em que se celebrava a experiência de fé que transformou a vida do jovem teólogo John Wesley, dando início ao movimento metodista. O professor Nicanor Lopes, palestrante da noite, começou afirmando que “missão é o amor de Deus derramada sobre as pessoas” e, portanto, não pertence a nenhuma denominação. “Jamais seremos ´proprietários´ da missão, pois ela é de Deus”, enfatizou. Lembrou que o movimento metodista teve um caráter missionário e uma forte participação leiga desde seus primórdios. Não se admira, portanto, que o organizador da Conferência Missionária tenha sido leigo metodista John Mott, um “profeta da unidade” que teria seus esforços reconhecidos com o Prêmio Nobel da Paz de 1946.

Ouvido atentamente clérigos/as e leigos/as metodistas de várias partes do país, o Rev. Nicanor Lopes arrancou risos de toda a platéia quando pediu licença para, inspirado pelo brasileiríssimo clima de Copa do Mundo, ousar uma inusitada paráfrase de Lucas 15, a parábola do filho pródigo. E disse Nicanor: “Certo homem morava em São Paulo e tinha dois filhos. O mais novo era torcedor do Palmeiras, e fazia parte da torcida organizada, mas cansou de apanhar. Ele disse: ´Pai, vou embora para o Rio de Janeiro torcer para o Flamengo. Só que lá ele também se envolveu com torcida organizada e também apanhou bastante. O irmão mais velho, que era são paulino, não gostava dessas atitudes. O mais novo, cansado de apanhar, resolveu voltar para casa. Voltou cabisbaixo, com a camisa do Flamengo toda esfarrapada, disposto a pedir perdão ao pai. O pai, assim que o viu, correu a abraçá-lo e lhe vestiu uma camisa verde e amarela da Seleção Brasileira. Enfeitou a casa de bandeiras e resolveu fazer um churrascão. O filho mais velho, que estava parado no trânsito de São Paulo, chegou mais tarde em casa e viu a festa organizada. Ele ficou indignado: “Mas o que é isso? A Copa do Mundo é só daqui a um mês!” Mas o pai lhe respondeu: “Meu filho, já estamos em clima de Copa. Seu irmão voltou, hoje somos todos brasileiros. Na Copa, não tem São Paulo, Flamengo, Corinthians ou Palmeiras”. O pastor concluiu sua parábola desejando que o batismo do Espírito nos una na missão da Igreja e que esta terra do futebol celebre o projeto missionário de Deus pelo fim do divisionismo das religiões.


Texto e fotos: Suzel Tunes



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