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Sobre oliveiras e violência: um relato na Palestina

05/11/2012 10h40 - última modificação 05/11/2012 10h56


E fica a lição das Escrituras, Deuteronômio 20:19 “Quando você está atacando uma cidade e a guerra se arrasta, você não deve cortar as árvores com seus machados. Você pode comer o fruto, mas não cortar as árvores. Acaso a árvore do campo é um homem, para que a trates como inimigo?”

 

O boletim "Conexão Online", informativo da Igreja Metodista - 3ª Região Eclesiástica, tem acompanhado o jovem metodista Alexandre Pupo Quintino, que está desde o mês de setembro na pequena vila de Yanoun, localizada na Palestina. Ele foi um dos escolhidos pelo Programa de Acompanhamento Ecumênico à Palestina e Israel, EAPPI (da sigla em inglês), do Conselho Mundial de Igrejas (World Council of Churches). O jovem viverá naquela localidade até dezembro e já sente na pele o que é viver sob ocupação de forças israelenses.

Veja a seguir um de seus relatos que está disponível no seu blog "Sacrário Pessoal".

A temporada de colheita das oliveiras é uma das experiências mais marcantes que eu tive aqui na Palestina até agora. As famílias se juntam, primos e parentes vem de longe para ajudar a colher as azeitonas que levaram um ano para chegarem no ponto certo. Aqui em Yanoun algumas oliveiras chegam a ter mais de 2.000 anos e antigas lendas contam sobre como a Sagrada Família passou por aqui no caminho de volta de Belém à Nazaré. Essas árvores trazem histórias, trazem lembranças e são importante parte do sustento das famílias palestinas. O azeite produzido vai durar um ano e servirá toda a família, o excesso será vendido nos mercados da região.

Hoje cedo parti para acompanhar Yasser, Jalal, Talal e Aymed na colheita de suas oliveiras. A família parte com uma escada, para alcançar os galhos mais altos, e panos que ficaram no solo para recolher as azeitonas. O trabalho começa cedo, antes que o sol fique insuportável, e logo duas, três, quatro oliveiras vão sendo limpas de seus frutos. A família aproveita esse momento para conversar e rir. Talal, o mais velhos dos irmãos me contou que a Universidade e as escolas dão 3 dias de folga para que os estudantes possam se juntar a suas famílias nessa atividade.

Porém, a boa conversa e o trabalho foram interrompidos por uma péssima notícia.

Nosso contato de Qaryut ligou. No primeiro dia da colheita, 10 de Outubro, ao chegarem no campo para colher as oliveiras os moradores encontraram 120 oliveiras cortadas pelos colonos na madrugada. Oliveiras de pelo menos 1.000 anos, que nunca mais dariam frutos. O movimento havia sido grande naquele dia, fomos cobrir o incidente e duas redes de televisão palestina estavam lá, além de uma rede israelense. Os soldados nada fizeram, duas câmeras de vídeo da colônia registraram o ataque dos colonos, mas essas imagens nunca serão usadas para incrimina-los. Hoje a notícia era tão triste quanto esta, 12 oliveiras de pelo menos 4 famílias haviam sido queimadas. Mais uma vez, ao chegarem para a colheita os moradores encontraram suas árvores cobertas de combustível e ardendo em chamas. A violência é sem fim, ela consome a vida aos poucos.

Ao chegarmos no local do incidente foi difícil conter as lágrimas. Uma senhor idosa de pelo menos 70 anos chorava e erguia as mãos para cima perguntando: “Por que?”. As oliveiras das quais essa famílias tiraram sustento à anos nunca mais dariam frutos. Nunca mais. Enquanto as lagrimas escoriam pelos rostos de Anne e Eva, minhas companheiras do EAPPI, muitas perguntas rolavam pela minha mente.

O que leva alguém a cometer tamanha crueldade? Até que ponto essas pessoas estão dispostas a ir para conseguirem o que querem?

As oliveiras que uma vez foram palco de reunião da família, da alegria da colheita e da partilha do alimento, estavam mortas. E com elas essas famílias vão morrendo também. Amanhã eles terão medo de ir para suas terras, e aos poucos a ocupação vai tirando suas vidas, tirando a esperança. E assim as pessoas não vivem mais, apenas tentam sobreviver e  assim tentam resistir.

E fica a lição das Escrituras, Deuteronômio 20:19 “Quando você está atacando uma cidade e a guerra se arrasta, você não deve cortar as árvores com seus machados. Você pode comer o fruto, mas não cortar as árvores. Acaso a árvore do campo é um homem, para que a trates como inimigo?”

Acaso a árvore é um inimigo?

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