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"Sim, eu sou tutor do meu irmão!" Programa de Tutoria da FaTeo completa 10 anos

30/03/2010 18h36 - última modificação 30/03/2010 18h39

Em 2010, o Programa de Tutoria da Faculdade de Teologia completa 10 anos. Ao longo desse tempo, essa proposta de acompanhamento e cuidado pastoral ao corpo discente da FaTeo foi amadurecendo e hoje está plenamente consolidada.

Mensalmente os alunos se encontram com seus/suas tutores/as em reuniões criativas de partilha e enriquecimento mútuo. O cuidado pastoral a cada estudante é oferecido e expresso concretamente em apoio espiritual, acadêmico e material.

Por ocasião do primeiro encontro, acontecido no dia 29 de março de 2000, o Prof. Luiz Carlos Ramos compartilhou a reflexão pastoral que transcrevemos abaixo, como registro histórico e memorial dessa prática tão significativa na vida de todos da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista.


SIM, EU SOU TUTOR DO MEU IRMÃO!

(Gênesis 4.8-10)

Luiz Carlos Ramos


Gênesis 4.8-10 (JFA-ERAB): 8 Disse Caim a Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando e-les no campo, sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e o matou. 9 Disse o SE-NHOR a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão? 10 E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim.


“Respeito o Cristo dos Cristãos, mas desprezo o cristianismo deles.” Essa foi a frase dita por Mahatma Gandhi, a respeito do cristianismo praticado pelos colonizadores cristãos que tanto espoliaram e escravizaram em seu empreendimento colonialista na Índia. De fato, temos que admitir que um cristianismo que seja indiferente ao sofrimento do próximo não merece respeito; um cristianismo, ou mesmo uma religião, que seja conivente com a opressão e o assassinato desumano do seu irmão, do seu próximo, é absolutamente desprezível.

O texto de Gênesis 4 talvez possa nos dar alguma ajuda para tratarmos dessa questão. O episódio narrativo de Caim e Abel se insere no contexto do conflito histórico entre os pecuaristas nômades e os agricultores sedentários do antigo Oriente Médio... Enquanto os pastores precisavam caminhar livremente pelas terras circunvizinhas em busca de pastagem e água, os agricultores tendiam a privatizar a propriedade e a expulsar quem as invadisse... Na perspectiva bíblica, Deus aceita (hebr. sha’ah = respeita, considera) o sacrifício dos pastores proscritos, e rejeita (não respeita, não considera) a oferta dos agricultores egoístas que expulsam seus irmãos pecuaristas da terra. Esse é o palco do episódio narrativo que culmina com a tragédia do assassinato de Abel por seu irmão Caim.

Na narrativa, um termo chama a atenção: “tutor”. O substantivo “tutor” aparece em, pelo menos, duas passagens bíblicas – uma no AT, neste trecho de Gênesis 4 (v.9); e outra no NT, em Gálatas 4.2. Em Gálatas o termo é usado no seu sentido forense/jurídico, significando aquele que protege, ampara ou dirige, o defensor de alguém, principalmente no período em que esse alguém é considerado incapaz de responder por si próprio. Já, em Gênesis “tutor” é usado no sentido agrícola (lembremo-nos que Caim era lavrador – cf. v.2), significando “estaca ou vara fincada no solo para amparar e sustentar uma planta cujo caule é flexível ou demasiado débil” (cf. Dicionário Michaelis).

Hoje, 29 de março de 2000, estamos implementando o sistema de tutoria na FaTeo. E me parece que a concepção que devemos ter em mente não é a de Gálatas, mas a de Gênesis. Assim, gostaria de propor que, por oposição, podemos aprender, com a história de Caim e Abel, que suportes um/a tutor/a deve oferecer para seu irmão, para sua irmã.

O primeiro suporte que um/a tutor/a deve oferecer é a sinceridade (versus a Falsidade de Caim)

Caim parece gentil, amável e interessado quando convida seu irmão (’ach): “— Vamos ao campo” (v. 8a) [no original, conversam, quando estavam no campo]. Sabemos que as intenções de Caim não eram as melhores, por isso sabemos também que seu convite é falso e hipócrita.

Todos/as temos “amigos” como Caim que nos chegam sorrindo, cheios de gentilezas, mas que atrás estão escondendo um punhal. Ora, um tutor deve, ao contrário, ser absolutamente sincero (do latim sin+cere = sem cera). No Teatro da Antigüidade, era prática comum os atores usarem máscaras de cera para representar. O teatro é representado por duas máscaras: uma sorrindo e outro chorando. Daqui deduzimos que uma pessoa sincera é aquela que não usa máscaras: não emite sorrisos forçados nem “lágrimas de crocodilo”.

Devemos, portanto, assumir um compromisso em nosso grupo de tutoria: aqui ninguém será obrigado a representar. Aqui podemos ser autênticos, e ninguém será reprovado por isso. Podemos nos alegrar com os que estiverem alegres, e poderemos chorar com os que estiverem tristes. Ninguém precisa esconder seus sentimentos, sejam eles de contentamento ou de pesar.

Além da sinceridade, o/a tutor/a deve ainda oferecer um segundo suporte, o da lealdade (versus a Deslealdade – traição – de Caim)

Caim trai terrivelmente a confiança do irmão que aceita o convite para passear com ele no campo. Em lugar de desfrutar de alegres momentos de lazer, Abel foi vítima de uma traição cruel e fatal (v. 8b): Caim “se levanta” (quwm = colocar-se acima, sobrepujar) violentamente contra Abel.

Todos já passamos pela experiência de sermos traídos por algum amigo ou amiga. E essa é uma experiência que provoca a morte de muitas amizades. Um tutor, ao contrário, deve ser extremamente leal. Jamais agirá pelas costas. Jamais trairá voluntariamente a confiança de seu irmão ou de sua irmã.

Nosso compromisso ético, portanto, implicará em lealdade para com os nossos colegas do grupo de tutoria. Não teremos o direito de falar ou agir “pelas costas” uns dos outros, umas das outras. O que tivermos que tratar ou resolver, deverá ser feito aberta e francamente.

Mas não basta ser sincero e leal se o/a tutor/a não oferecer o terceiro suporte, a solidariedade (versus a Indiferença de Caim)

Quando perguntado por Deus sobre o seu irmão, Caim respondeu: “— Não sei: acaso sou eu tutor (shamar) de meu irmão?” (v. 9). Eis aí a semente da indiferença para com o próximo que tanto indignava Gandhi. “Não tenho nada com isso”. “Não estou nem aí”. “E eu com isso?” São todas expressões correntes na experiência cotidiana de todos nós.

O tutor seria, então, aquele que é solidário. Aprendemos que o amor de Deus por nós (e que ele espera de nós) é mais do que o amor físico (que depende de nossas qualidades estéticas), e mais do que o amor fraterno (que depende de nossas qualidades morais), aprendemos que o amor de Deus é a completa solidariedade (que é gratuita e incondicional). Não o amor de quem tira, mas o daquele que dá a vida pelo/a seu/ua irmão/ã.

Não basta ser sincero, e não ser desleal, é preciso ser solidário: isto é, amar concretamente.

Concluindo

O texto de Gênesis que nos inspira termina por nos mostrar que Deus é o Tutor dos tutores. Ele é o nosso sustento. A sua sinceridade, lealdade e solidariedade é tal que ele ouve até a voz dos que já não têm mais voz: “E disse Deus: Que fizeste? A voz (qowl = grito) do sangue de teu irmão clama da terra a mim” (v. 10). Não, não é por acaso. Nós somos mesmo apoio e suporte, tutores e tutoras de nossos irmãos e irmãs!


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