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Semana Wesleyana 2010: conheça um pouco quem é e o que pensa o palestrante Wesley Ariarajah

14/05/2010 20h41

Wesley Ariarajah, pastor metodista no Sri Lanka, é doutor em Teologia, professor da Drew University, dos Estados Unidos e membro do Conselho Mundial de Igrejas. Ele dará conferências na 59ª Semana Wesleyana, de 24 a 28 de maio, sobre o tema "A Missão de Deus hoje". O texto abaixo é um artigo do professor Ariarajah, publicado no site do Conselho Mundial de Igrejas:

Que diferença faz realmente o pluralismo religioso?


S. Wesley Ariarajah


O desafio pessoal


Eu nasci em um país no qual mais de 90% da população são ou budistas, ou hindus ou muçulmanos. Dos 7,8% de cristãos, o ramo protestante do qual eu faço parte é apenas 0,4%. Isto naturalmente significa que eu cresci com vizinhos, colegas de classe e amigos que eram de outras tradições religiosas. Eu era um com eles na classe, no campo de futebol e em muitas ocasiões sociais. A única área em que nós, como cristãos, não estávamos juntos com nossos vizinhos (com raras exceções) era a religiosa. Na maioria das vezes, não havia animosidade entre nós como representantes de grupos religiosos. Mas nós estávamos “separados” quanto à religião. Nós não nos engajávamos em atividades religiosas comuns, não fazíamos esforços para conhecer, participar ou assumir qualquer tipo de compromisso com a vida religiosa de nossos vizinhos.

Cristãos do Sri Lanka também são ensinados na infância (por meio da Escola Dominical, sermões, aulas de religião e atividades missionárias) de que a sua é a única verdade religiosa, aquela que leva as outras pessoas à “salvação”. Isto significa que outras religiões são “falsas”, estão “em erro” ou, pelo menos, não têm a capacidade de levar as pessoas ao destino desejado. Não houve crítica ou condenação de outras religiões durante os meus dias de estudante; isto pertenceu a um período anterior. Mas nós, cristãos, fomos levados a sentir que os hindus, budistas e muçulmanos estão trilhando um caminho que não os levará à verdade. Por melhor e mais sinceros que eles sejam, eles estão equivocados. Isto significava apenas uma coisa: era responsabilidade de cada cristão ajudar os outros a encontrar o caminho do cristianismo. De fato, nós tínhamos o dever, para com nossos amigos, vizinhos e colegas, de que eles viessem a conhecer a verdade e encontrassem o verdadeiro destino de suas vidas.

Minha consciência sobre o pluralismo religioso e minha caminhada no ministério do diálogo inter-religioso começou com a pergunta: isto pode ser verdade?

O que nós fazemos da autenticidade da fé de nossos vizinhos, de sua experiência de terem sido tocados pela graça de Deus, de suas vidas altamente éticas e morais (que frequentemente nos envergonham a nós, como cristãos), de enorme riqueza de sua religiosidade e literatura devocional que testemunham uma fascinante jornada espiritual?

Assim, o pluralismo religioso desafiava a minha fé, da forma que ela se apresentava em minha tradição religiosa. Minha religião era incapaz ou resistente a levar a vida religiosa de meus vizinhos a sério. Às vezes a espezinhava; outras vezes a deturpava, mas sempre se recusou a encarar seu desafio. Eu sentia que minha fé era muito estreita; meu Deus, muito pequeno, e minha vida com meus vizinhos distorcida ou diminuída pela recusa intransigente e injusta de levar a vida religiosa deles a sério.

Em resumo, o pluralismo religioso fez a diferença – desafiou-me a rever alguns dos fundamentos no qual minha fé estava construída.

Desafiado como um pastor de igreja


Quando eu me tornei o pastor de uma igreja, a questão do pluralismo religioso assumiu outras dimensões. Eu tornei-me consciente de que a identidade religiosa, como ela era definida e experimentada, contribuía muito para as divisões na comunidade. O Sri Lanka já era profundamente dividido em termos étnicos e lingüísticos. Sua incapacidade de lidar com a pluralidade tinha resultado em um dos mais trágicos, violentos e insanos conflitos de nossos dias, que durou décadas. Comunidades religiosas, fé religiosa e princípios religiosos não foram capazes de desempenhar um papel significativo em qualquer abordagem da questão ou na tentativa de resolvê-lo. Ao contrário, a divisão religiosa ainda promoveu outro poderoso instrumento nas mãos daqueles que queriam ver a continuação do conflito.

Muitos da comunidade cristã, mesmo neste contexto, vêem-se sobretudo como portadores da “verdade”. Sua “missão” para a nação ainda é enunciada no sentido de permitir às outras comunidades de fé a oportunidade de seguir o caminho cristão. Enquanto a Igreja se sobressai em trabalho humanitário, ela tem feito pouco ou nada para ajudar os/as cristãos/ãs a terem melhor compreensão do que seus vizinhos crêem, e por quê. Não tem havido iniciativas no sentido de ajudar os/as cristãos/ãs a entender como se relacionar com aqueles/as que ouviram o Evangelho, mas escolheram permanecer hindus, budistas ou muçulmanos/as. Nem a Igreja tem dado qualquer passo no sentido de encorajar os/as cristãos/ãs a se unir com pessoas de outras fés na luta por justiça, reconciliação e paz.

O problema para mim era que a pluralidade não fazia diferença para a Igreja. Ela vivia em um mundo próprio, fictício, no qual é o grupo que tem todas as respostas para as questões da vida, que tem apenas o mandamento de pregar o Evangelho e que um dia “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor”.

Desafiado como um professor no Seminário


É dentro deste contexto que eu atuo como professor de estudantes que se tornarão ministros e professores de suas igrejas, e que terão que viver suas vidas em um mundo religiosamente plural.

Neste sentido, algumas das palavras de Wilfred Cantwell Smith* permanecem ecoando em meus ouvidos quando planejo minhas aulas no seminário. São palavras que merecem repetição:

“Formulações doutrinárias, sistemas teológicos, credos e assim por diante, em sua histórica profusão, variedade, conseqüências e seriedade, podem ser entendidas apenas como declarações por e para pessoas – e também, num primeiro e imediato sentido, sobre pessoas... Teologia é parte das tradições, é parte deste mundo. A fé está acima da teologia no coração dos homens (sic). A verdade está acima da fé, no coração de Deus".

A partir disso ele esboça a seguinte conclusão a respeito da tarefa de fazer teologia no contexto do pluralismo religioso:

“Chegará logo o tempo em que um teólogo que tentar impor sua posição, sem levar em conta o fato de que ele é membro de uma comunidade na qual outros teólogos, igualmente inteligentes, igualmente devotos, igualmente morais, são hindus, budistas e muçulmanos; ignorando que seus interlocutores talvez sejam budistas, ou tenham maridos muçulmanos ou colegas hindus; tal teólogo está irremediavelmente anacrônico, como alguém que tente construir uma carreira acadêmica ignorando o que Aristóteles ensinou, ou ignorando que a terra é um planeta menor em uma galáxia que só é vasta pelos parâmetros terrestres”.

Ele também aponta a forma como esta realidade tem afetado nossa consciência religiosa:

“Contudo, de forma incipiente, as fronteiras que separam radicalmente as comunidades religiosas umas das outras estão começando, pouco a pouco, a se tornar mais fracas ou se dissolverem, de modo que ser hindu ou ser budista; ser cristão, ou não ser um cristão, não são mais alternativas tão rígidas como pareciam a princípio”.

Citei estas palavras de Cantwell Smith não para fazer de sua teologia o sujeito de nossa discussão ou para aceitá-la acriticamente, mas simplesmente porque ele expressa de maneira clara e poderosa a realidade que eu agora experimento como um professor de teologia num contexto plural.

A percepção de Smith de que nossas histórias religiosas particulares estão sendo forçadas a se tornar partes da “história religiosa comum” da natureza humana, acerta em cheio no alvo, em minha opinião. O que essa percepção pode fazer ao nosso autoconhecimento, como comunidades religiosas; à compreensão de nossas diferentes crenças e à maneira como ensinamos, aprendemos e praticamos nossa fé, pode ser a maior contribuição que o pluralismo religioso nos traz.


Tradução: Suzel Tunes


  • Nota da tradução: O teólogo canadense Wilfred Cantwell Smith (21 de julho de 1916-7 de fevereiro de 2000) foi professor de religião comparada e diretor do Centro de Estudos de Religiões do Mundo da Universidade de Harvard. É considerado um dos mais influentes pensadores no campo das religiões comparadas e diálogo inter-religioso.

Fonte: http://www.wcc-coe.org/wcc/what/interreligious/cd34-02.html (Acesso em 13/05/2010).

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