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Semana do Meio Ambiente: compromisso de fé X sistema predatório

05/06/2013 11h55 - última modificação 05/06/2013 12h11

“A Terra é do Senhor e tudo o que nela há” (Salmo 24:1)

 

O dia 5 de Junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente, oportunidade de refletir sobre a responsabilidade cristã diante da Criação.

Durante vários anos, ecologia e sustentabilidade foram palavras associadas a uma parcela muito pequena da população. Quem falava em “meio ambiente” seria uma elite privilegiada que, tendo conquistado o básico para sua sobrevivência, podia se dar ao luxo de discutir temas supérfluos, enquanto degustava sua salada orgânica. Afinal, em um país onde ainda existem bolsões de fome e miséria, quem se importa com a caça às baleias ou a matança das foquinhas? – só para citar um dos tantos comentários carregados de preconceito.


Foi no norte do país, entre o povo pobre dos seringais, que a mente brasileira começou a se abrir para a compreensão de que o ser humano depende da terra para viver, ser vivo que é, um dentre os demais espécimes de fauna e flora. Adotar uma política de sustentabilidade ambiental podia ser a diferença entre ter ou não comida no prato. Chico Mendes mobilizou o povo, ganhou projeção internacional, influenciou outras lideranças. Marina Silva chegou a ser considerada como alternativa política ao Poder Executivo e conquistou a simpatia do povo brasileiro, especialmente entre os que, a exemplo de Marina, professam a fé evangélica. Contudo, as questões ambientais, que, pouco a pouco começam a ser mais discutidas no país, ainda estão distantes do cotidiano das igrejas.

Claro que há bons exemplos a serem seguidos. A Igreja Unida do Canadá é uma das que busca inserir a experiência da fé na vida cotidiana e, no contexto do país, tem assumido posições políticas a favor da pequena propriedade rural e apoiado projetos de agricultura sustentável. Ainda na década de 90 desenvolveu um projeto de horta orgânica destinada à alimentação de moradores de rua. Hoje, esse projeto ganhou dimensões ainda maiores, buscando envolver toda a comunidade local. O plantio de uma horta é não apenas uma experiência comunitária de aprendizado e sociabilidade, como uma alternativa real de alimentação mais saudável e barata para a população local. Dependendo da área plantada, pode ser um meio de sustento financeiro na zona rural, com a criação de cooperativas. No Brasil, a organização A Rocha busca conscientizar igrejas evangélicas para as questões ambientais (veja abaixo).

Penso nas igrejas brasileiras inseridas em áreas desmatadas, urbanas ou rurais, com risco de desabamentos e enchentes – onde já ocorreram tantas tragédias ambientais provocadas não pela vontade de Deus, mas pela ação humana. As igrejas tendem a responder com rapidez diante de desastres ambientais. Correm a levar roupas, alimentos, palavras de conforto. Poderiam, no entanto, fazer mais: poderiam ajudar na prevenção das tragédias.

Ações ambientais educativas podem salvar vidas. Que tal uma parceria com a Defesa Civil da Cidade, promovendo palestras e cursos? Como identificar uma área de risco? Como proteger um morro de inevitável desabamento, antes que as chuvas se intensifiquem? Ações cidadãs capitaneadas pelas igrejas também podem mudar a configuração de uma cidade.

A Igreja poderia (e deveria) ser a voz do povo na reivindicação de melhores condições sanitárias e estruturais. Criança com diarreia também é problema ambiental; previne-se com água tratada e maior responsabilidade no destino do lixo industrial e doméstico. Mas o sistema econômico predatório faz vítimas não apenas entre as pessoas mais carentes do país, que sofrem os efeitos da degradação do meio ambiente sobre seus próprios corpos. Pessoas de todas as classes sociais e idades (as crianças, muito especialmente) são vítimas de uma economia antiecológica que determina a busca da felicidade no fugaz prazer do consumo. Continuamente criam-se desejos materiais a serem atendidos, enquanto a teologia da prosperidade valida o acúmulo de bens como sinal da bênção divina. O resultado é uma perene insatisfação. Enquanto isso, a terra se consome e se degrada. E o Senhor da Criação certamente olha para tudo isso e vê que não é bom.

Suzel Tunes

 

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A NOVA CRIAÇÃO

A ecologia não era assunto da moda nos tempos do teólogo John Wesley – embora os londrinos já reclamassem das lareiras a carvão que enchiam o céu de fumaça. Contudo, a teologia wesleyana fornece pistas importantes para a abordagem dos problemas ambientais da atualidade. É o que explica o teólogo Theodore Runyon, no livro A Nova Criação – A teologia de João Wesley hoje.

Somos “mordomos” de Deus, dizia Wesley. Não possuímos nada. Apenas detemos a custódia de um mundo que pertence ao Criador. João Wesley acreditava que todos os elementos da natureza, mesmo os que parecem insignificantes, têm lugar legítimo na ordem estabelecida por Deus; e a humanidade é dotada de intelecto para compreender e defender esse lugar.

Esse papel que nos cabe faz parte da “imagem política de Deus” que portamos como seus filhos e filhas. Segundo Wesley, a imagem política é um dos modos pelo qual a humanidade reflete o seu criador. À humanidade, como imagem política, foi dada a responsabilidade especial de ser o “canal de comunicação” entre o Criador e o resto da criação, de modo que “todas as bênçãos de Deus fluíssem por meio dela até as outras criaturas”. Assim, a humanidade é a imagem de Deus na medida em que a benevolência de Deus é refletida nas ações humanas para com o resto da criação.

Ao nos compreendermos dentro do contexto do mundo natural e em relacionamento com o resto da criação, encontramos nosso lugar na família da natureza. Veja o que diz o próprio Wesley, em seu livro A Survey of the Wisdom of God in Creation (Uma investigação sobre a sabedoria de Deus na criação):

Ao nos identificarmos como sujeitos na filosofia natural, entramos em uma espécie de associação com as obras da natureza e nos unimos no concerto geral de seu extenso coral. Assim, ao nos inteirarmos e nos familiarizarmos com as obras da natureza, tornamo-nos como um membro da sua família, um participante das suas venturas; mas enquanto permanecermos ignorantes, seremos como forasteiros e hóspedes em terra estranha, desconhecedores e desconhecidos.


Para saber mais:


A Nova Criação - A Teologia de João Wesley hoje - Theodore Runyon, SBC, Editeo, 2002.

Meio Ambiente e Missão. A Responsabilidade Ecológica das Igrejas – coletânea de textos apresentados na 51ª Semana Wesleyana, realizada de 20 a 24 de maio de 2002, com organização de Clóvis Pinto de Castro. Editeo, 2003

 

E MAIS:

A Rocha Brasil (ARB) é uma organização cristã ambientalista que tem como vocação a educação ambiental, o trabalho com comunidades e a conservação. Ela faz parte d’A Rocha Internacional (presente em outros 19 países) e está no Brasil desde 2006, tendo como principal projeto  a educação ambiental e mobilização social nas igrejas evangélicas, capacitando pastores, missionários, educadores e líderes comunitários para se envolverem de forma prática nas questões socioambientais locais. Em seu site (http://www.arocha.org.br) ela oferece diversos recursos para quem quer refletir e aprender sobre questões ambientais. Alguns exemplos:

 

* Estudo bíblico Missão Integral e Mordomia da Criação

 

* Artigos sobre meio ambiente e fé cristã

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