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Sem medo do passado: Diálogo Comunitário da FaTeo discute papel das igrejas na ditadura

05/09/2013 12h25 - última modificação 05/09/2013 12h25


E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
João 8:32


No dia 12 de setembro, uma mesa redonda promovida pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, instituição de ensino superior vinculada à Igreja Metodista, debaterá o papel das igrejas no período da ditadura militar. O evento, conhecido como “Diálogo Comunitário” e promovido periodicamente pelo Programa de Extensão da faculdade, reunirá em sua próxima edição dois integrantes da Comissão Nacional da Verdade: a jornalista Magali do Nascimento Cunha, professora da Faculdade de Teologia e pesquisadora da relação entre mídia e religião, e o cientista social Anivaldo Padilha, assessor da ONG ecumênica Koinonia.  Ambos são membros da Igreja Metodista e atuam no Grupo de Trabalho da Comissão da Verdade que examina a postura política de instituições religiosas em relação ao regime ditatorial.

Quem conhece a biografia de Anivaldo Padilha sabe que ele teria bons motivos para se manter distante de qualquer instituição religiosa. Em 1970, Anivaldo, militante da organização clandestina Ação Popular (AP), foi denunciado por líderes de sua própria igreja - os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos.  Na prisão, Anivaldo foi submetido a 20 dias de torturas. Quando saiu da cadeia, teve que partir para o exílio, deixando no Brasil a esposa grávida. Só conheceria o filho – Alexandre Padilha, atual ministro da Saúde – oito anos depois. Mas Anivaldo Padilha atribui à fé a força que lhe permitiu sobreviver às torturas e prosseguir na luta por justiça e ética.  E também foi testemunha do engajamento de igrejas e organismos ecumênicos em defesa da democracia.  Se houve pessoas e instituições religiosas que apoiaram aberta ou veladamente o regime ditatorial, também houve resistência e luta no meio religioso. Anivaldo Padilha dedicou os anos de exílio, inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Suíça, à mobi¬li¬zação das igrejas da América do Norte e do Conselho Mundial de Igrejas para o apoio à luta contra as violações de Direitos Humanos no Brasil.  

Igrejas na luta pelos direitos humanos e o projeto “Brasil: Nunca Mais”
Foi graças a uma intensa mobilização de igrejas que nasceu o projeto “Brasil: Nunca Mais”, responsável pela façanha de reunir, clandestinamente, cerca de 900 mil páginas de documentos oficiais que atestam violações a direitos humanos durante a ditadura militar brasileira. Desenvolvido pelo Conselho Mundial de Igrejas e pela Arquidiocese de São Paulo nos anos oitenta, sob a coordenação do pastor presbiteriano Jaime Wright e do arcebispo católico Paulo Evaristo Arns, o projeto resultou na publicação de um livro, logo após a retomada do regime civil. Foi best-seller no mesmo ano do lançamento, 1985.
Durante muitos anos os documentos oficiais que deram origem ao livro permaneceram guardados fora do país, escondidos dos agentes da ditadura. De volta ao Brasil, todo o acervo foi digitalizado e hoje está disponível no site “Brasil: Nunca Mais Digit@l” (http://bnmdigital.mpf.mp.br). A produção do BNM Digital foi realizada pelo Projeto Armazém Memória e pelo Ministério Público Federal, em parceria com o Arquivo Público do Estado de São Paulo. O projeto teve dezenas de colaboradores e contou com a parceria de diversas instituições, incluindo a Universidade Metodista de São Paulo. O Centro de Memória da Faculdade de Teologia, coordenado pelo Prof. Dr. Paulo Ayres, colaborou com a digitalização dos documentos. O lançamento oficial do site, no dia 9 de agosto, teve transmissão online realizada pela Universidade Metodista.

O resgate da memória na construção do futuro

Três décadas passaram-se e, finalmente, o que estava oculto agora se revela integralmente com o auxílio da tecnologia: o site BNM Digital pode ser acessado por qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo. Além de documentos, o acervo compõe-se de fotos e depoimentos em vídeo. “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”, como diz o lema do projeto, cunhado por Dom Paulo Evaristo Arns.

Mas nem toda a “verdade que liberta”, como sugere o versículo bíblico, é conhecida pela população brasileira.  Foi o que puderam constatar os jornalistas Ana Castro e Gabriel Mitani, diretores do documentário Coratio, que contará a história do “Brasil: Nunca Mais” (assista ao trailer).  Eles pretendem lançar o filme em 2015, aniversário da edição do primeiro volume do livro,  e saíram às ruas ouvindo o que a população pensa sobre o histórico projeto. Ficaram surpresos ao perceber que a maioria dos entrevistados sequer sabia de sua existência. “Se as pessoas não sabem o que foi esse projeto, como podemos dizer nunca mais? Só podemos nos libertar quando conhecemos as amarras que nos prendem. A tortura, a forma mais vil do desrespeito ao direito do homem e da mulher, faz parte do nosso dia-a-dia. Tortura física, psicológica, emocional. Acontece todos os dias nas cadeias, delegacias, nas ruas, em instituições como hospitais, creches, asilos, até mesmo na casa e no trabalho das pessoas. Infelizmente ainda estamos longe de dizer Nunca Mais”, alerta Ana Castro.

Nem toda a história é lembrada e, como destacam os integrantes da Comissão Nacional da Verdade, nem toda a história já foi contada. Para a professora Magali Cunha, que dividirá a mesa do Diálogo Comunitário com Anivaldo Padilha, muitas histórias e nomes foram silenciados e apagados da memória do Brasil em nome de uma história oficial comprometida com os grupos que estiveram no poder por meio da coerção e da violência.  Agora é o momento de resgatar essa memória: “A oportunidade que o Brasil tem de olhar para o seu passado recente é especial e preciosa: não só para superar os esquecimentos propositais e honrar a memória de quem trabalhou pela vida, pela paz e pela justiça, mas para refazer o seu presente, que tem muito deste passado. As igrejas tiveram participação destacada em todo este processo, seja na forma de resistência e de luta pela justiça, seja na forma de apoio ao regime com o seu silêncio ou mesmo participação ativa na repressão aos que se opunham a ele dentro e fora das igrejas. Recuperar esta memória e conhecer a verdade é processo libertador para cristãos e cristãs no Brasil que viveram este passado e sofreram com ele e para quem vive o presente e trabalha por igrejas comprometidas com a paz e a justiça do Reino de Deus”.

Suzel Tunes

Serviço
Diálogo Comunitário “As Igrejas na ditadura: memória, verdade e justiça”
Data:
12 de setembro de 2013, quinta-feira
Horários: 9h20 às 11h (matutino) e 19h30 às 21h (noturno)
Local: Universidade Metodista de São Paulo – Auditório do Edifício Ômega – Rua Planalto, 125, Rudge Ramos, São Bernardo do Campo, SP
Entrada franca


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