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Saiba mais sobre a vida e obra do teólogo José Comblin

30/03/2011 13h20 - última modificação 02/04/2011 20h21

Falecido no dia 27/03/2011, na Bahia, o teólogo belga foi um dos principais teóricos da Teologia da Libertação.

 

José Comblin nasceu em Bruxelas (Bélgica), no dia 22 de março de 1923. Em 1940, entrou no Seminário Leão XIII, em Lovaina (Bélgica). Fez estudos de Ciências Biológicas e Filosofia de 1940 a 1942.

De 1946 a 1950, cursou a Faculdade de Teologia em Lovaina, tornando-se Doutor em teologia.

Sua ordenação sacerdotal se deu em 9 de fevereiro de 1947, em Malines.

Como sacerdote, exerceu a função de vigário cooperador na paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Bruxelas, de 1950 a 1958.

Impulsionado pelos apelos missionários para países da África e da América Latina, solicitou ao seu Cardeal que fosse enviado para a América Latina. Atendendo à solicitação do Bispo de Campinas que desejava sacerdotes doutores para contribuir na formação de seu clero, foi enviado para o Brasil, onde chegou em 30 de junho de 1958.

De 1958 a 1962, em Campinas, SP, foi professor no seminário diocesano e na Universidade Católica de Campinas. Além disso, foi convidado para ser assistente diocesano da JOC (Juventude Operária Católica).

Em 1959 foi professor no Studium Theologicum dos Dominicanos em São Paulo.

Novos apelos levaram o Pe. José Comblin ao Chile.

De 1962 a 1965 foi professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Santiago (Chile).

Também o Brasil vivia sob a ditadura militar, mas no Nordeste florescia uma Igreja comprometida com o mundo dos pobres e Comblin ouviu o chamado de Dom Hélder Câmara e foi estabelecer-se em Pernambuco.

De 1965 a 1968 foi professor no Seminário regional do Nordeste em Camaragibe e professor no Instituto de Teologia do Recife.

 

A "Teologia da Enxada"

No início dos anos 70 passou a orientar uma experiência de formação de seminaristas que buscavam um estudo mais comprometido com a realidade e adequado ao exercício do ministério no mundo rural. José Comblin criou, então, um modo de estudo que depois ficou conhecido como Teologia da Enxada.

Ao mesmo tempo foi convidado a dar aulas no Equador e assim, de 1968-1972 foi professor de teologia no IPLA (Quito, Equador). Passou a dar assessoria à diocese de Riobamba, cujo bispo, Dom Leônidas Proaño, foi um símbolo do compromisso com a causa indígena no Equador. Até 1985 passava duas quinzenas por ano em Riobamba e continuou freqüentando a diocese até a morte de Dom Leônidas Proaño, em 1988.

José Comblin estava fortemente inserido na Igreja de Dom Hélder que marcava o cenário nordestino e nacional pelo seu compromisso com as causas populares. Dava assessoria a Dom Hélder na elaboração de posicionamentos, documentos e intervenções. A Igreja de Recife e Olinda era uma grande esperança para os pobres.

Considerado subversivo e ameaçador ao sistema, José Comblin foi expulso do Brasil em 24 de março de 1972. Decidiu, então, retornar ao Chile, onde já tinha atuado por 4 anos e contava com um círculo de amigos. Assim, estabeleceu-se em Talca onde residiu de 1972 a 1980, quando foi expulso do Chile. Conseguiu retornar ao Brasil, com visto de turista que exigia renovação a cada 3 meses, o que o obrigava a sair do país a cada 3 meses durante 6 anos, para renovar o visto. Finalmente, em 1986 foi anistiado e recebeu novamente o visto permanente.

 

Formação de lideranças populares

Com o grupo da Teologia da Enxada e o apoio do Arcebispo Dom José Maria Pires, de João Pessoa, fundou, em 1981 no Avarzeado, PB, o Seminário Rural. Posteriormente denominado Centro de Formação Missionária, a experiência estabeleceu-se em Serra Redonda, PB. Teve o objetivo de formar sacerdotes e missionários populares para a evangelização da população rural, com uma metodologia adequada e levando em consideração e cultura camponesa.

A partir de então, passou a dedicar-se prioritariamente à formação de lideranças populares.

E desde 1995 passou a residir na Casa de Retiros São José, em Bayeux continando a dar assessoria às diversas entidades de formação de lideranças populares no Nordeste, além da assessoria teológica para os mais diversos grupos eclesiais ou sociais no Brasil, na América Latina e no Nordeste. Quando morreu, estava no interior da Bahia, onde ministrava um curso para comunidades de base.  

 

Uma vida na América Latina a serviço da libertação. Entrevista especial com José Comblin

IHU = 18/6/2008

 

Nesta entrevista, muito franco, José Comblin afirma que não haverá outra geração como a de Medellín . “Uma geração como aquela que fez Medellín só acontece uma vez na história. Quando diversos países se encontram com a mesma perspectiva, é milagroso! É muito difícil se imaginar que isso possa se reproduzir novamente”. Um pouco da sua história pode ser lida nesta entrevista. Um pouco apenas, visto que a história de quem dedicou praticamente uma vida toda à América Latina, como é seu caso, é bastante longa e profunda.

José Comblin é teólogo. Participou do primeiro grupo da Teologia da Libertação. Esteve na raiz das equipes de formação de seminaristas no campo em Pernambuco e na Paraíba (1969), do seminário rural de Talca, no Chile (1978) e, depois, na Paraíba, em Serra Redonda (1981). Estas iniciativas deram origem à chamada Teologia da enxada. Além disso, esteve na origem da criação dos Missionários do Campo (1981), das Missionárias do Meio Popular (1986), dos Missionários formados em Juazeiro da Bahia (1989), na Paraíba (1994) e em Tocantins (1997). É autor de inúmeros livros.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor veio para o Brasil?

José Comblin – Eu vim a pedido do Papa Pio XII, que tinha um temor tremendo do comunismo. Ele fez um apelo, na década de 1950, a todos os episcopados do mundo para mandar sacerdotes à América Latina com o intuito de salvar o continente do comunismo,  porque estava convencido de que este ia invadir toda a América Latina. Aí, então, todas as dioceses foram avisadas pelos seus respectivos bispos de que o Papa tinha pedido isso. O meu bispo deu a entender que não gostava muito da idéia, mas, já que era um pedido do Papa, se houvesse algum candidato ele iria examinar. Aí me apresentei porque já estava cansado de ficar lá (na Bélgica) e procurava uma oportunidade para sair do país. Quase todos que saíram de lá para lutar contra o comunismo viraram comunistas (risos). Porque, chegando aqui, logo se viu que quem tinha preocupação social era visto como comunista. Então, foi isso. Havia muitos “comunistas” e por isso havia a impressão de que o país iria se transformar. Agora, comunista mesmo, do partido...

Trabalhei por quatro anos em Campinas e um dia estava trabalhando com os operários de lá e perguntei se havia comunismo no país e eles me responderam que sim. Então, eu disse que ainda não tinha visto e me falaram: “Sim, tem muitos comunistas em Campinas, mas a metade é da polícia que está infiltrada”. Era, de fato, um número insignificante diante do temor do Papa. Getúlio Vargas tinha acabado com o comunismo.

Antes de vir, sabia que precisava vir para a América Latina e que era necessário escolher entre a língua espanhola e o português. Escolhi o português, mas é claro que eu não sabia nada do Brasil. Ninguém, aliás, conhecia o país. Então, com dois colegas, respondemos ao pedido do arcebispo de Campinas. Ele queria três sacerdotes que fossem doutores, mas nunca explicou o motivo e para quê. Ficamos lá quatro anos e ele nunca disse o que queria. Depois de quatro anos, eu falei: “Eu tenho a impressão de estar sobrando; o senhor permite que a gente vá buscar outros desafios?”. E ele nos respondeu: “Ah! Pois não, pois não”. Eu só soube a explicação 30 anos depois. O bispo não estava satisfeito com o reitor da Universidade Católica. O reitor administrava a universidade como um negócio e não tinha lá nenhuma pessoa para substituí-lo e aí foi pedir lá fora. O reitor logo entendeu e criou todo um movimento de resistência e queria defender sua posição. Então, o bispo viu que o reitor tinha uma força social muito grande e, depois de quatro anos, ele nos liberou e cada um foi procurar outro trabalho.

IHU On-Line – E, hoje, olhando para trás, como o senhor analisa a sua vida na América Latina?

José Comblin – Isso foi a salvação, porque eu, há 60 anos, estava muito consciente do movimento de descritianização da Europa, que hoje já está quase completo. Os sinais já eram claros naquele tempo. A Igreja estava no governo da maioria dos países, havia uma democracia cristã, escolas poderosas, organizações, sindicatos... Mas faltava fé! Como passar a vida toda assistindo uma decadência? Primeiro, eu procurei ir para a África, mas não não foi possível e, em seguida, veio Pio XXI com essa campanha e aproveitei. Foi muito interessante. Toda etapa entre 1960 e 1985 foi uma aventura muito grande, uma época muito interessante.

IHU On-Line – E como foi seu retorno para o Brasil depois do exílio?

José Comblin – Houve dois retornos. Em 1962, eu recebi um convite da Faculdade de Teologia da Universidade do Chile. Como não tinha nada definido no Brasil, aceitei o convite deles e assinei um contrato de três anos. Nas férias, eu vinha passear pelo Brasil e aí Dom Hélder me convidou. Ele já estava no Recife. Ali fiquei sete anos. Em 1972, aconteceu a expulsão do Brasil e voltei para o Chile que estava sob o governo de Allende. Pensei que naquele país poderiam acontecer coisas interessantes. Só que um ano depois aconteceu o golpe. Fiquei lá até 1980 e fui expulso do Chile também. Nessa época, as portas do Brasil voltaram a se abrir para mim e com isso voltei. Dom Hélder já estava no final do seu mandato e procuramos Dom José Maria Pires, arcebispo da Paraíba, que tinha a mesma inspiração, mas era bem mais jovem. Dom José Maria Pires nos acolheu e acolheu todos os projetos que a gente tinha.

IHU On-Line – Pode nos contar um pouco sobre o seu trabalho teórico antes de vir para o Brasil?

José Comblin – Antes de vir para o Brasil, não fiz muita coisa de Teologia. Depois dos estudos, fui enviado a uma paróquia onde fiquei oito anos. Fiz alguns cursinhos sem significado importante, algumas assistências... Nada de importante.

IHU On-Line – Como o senhor analisa hoje a presença da Igreja em sua vida e a sua presença na evolução da Igreja Católica?

José Comblin – Parte dessa resposta você precisa perguntar aos outros o que eles acham. Para mim, foi muito interessante. Eu aproveitei muito. Eu pude conviver com Dom Hélder por muitos anos, assim como com Dom Leônidas Proaño, no Equador, com Manuel Larraín , no Chile... Com todos os grandes da Igreja latino-americana. Conheci os grandes bispos de Medellín pessoalmente, colaborando muito, porque andei muito pela América Latina. Depois veio um novo pontificado e aí a coisa mudou. Mas, como eu digo sempre, uma geração como aquela que fez Medellín só acontece uma vez na história. Quando diversos países se encontram com a mesma perspectiva, é milagroso! É muito difícil se imaginar que isso possa se reproduzir novamente. Daqui a mil anos, talvez. Foi uma situação privilegiada para mim.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a evolução da Igreja e das religiões?

José Comblin – Depois da aventura do Concílio, chegou João Paulo II, o Papa polonês. Sabendo que era polonês, já se podia prever tudo o que iria acontecer depois. Polonês é autoritário. Na Polônia, nunca houve experiência democrática: o chefe é o chefe, simplesmente. Ele era assim. Era muito gentil e amável, mas autoritário. Os novos bispos nomeados pelo Papa eram piores do que os que estavam antes. Isso ainda continua. Alguns se salvam, claro. A impressão que se tem é que primeiro se escolhe aqueles que têm obediência à Santa Sé. Essa é a primeira condição. A segunda é não ter pensamento nem iniciativa, para não se comprometer. Criou-se uma ideologia e um tipo de religião para poucos. Muita gente escapa, mas globalmente é a hierarquia que fala. Às vezes, alguém levanta a palavra, como Dom Luiz Cappio . A primeira vez que ele fez o jejum veio uma carta de Roma obrigando-o a deixar dele, isso porque o Lula mandou um embaixador à Roma, porque ele não conseguiu fazer com que Dom Luiz cessasse o jejum. Durante o segundo jejum, Roma foi mais prudente, mas ele me contou que recebeu uma carta que recomendava a desistência. Ele me disse que como era uma recomendação, e não ordem, não tinha por que aceitar a recomendação, até que houve o incidente do desmaio e ele finalmente deixou do jejum.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o trabalho teológico atual?

José Comblin – Faltou outra geração da Teologia. Agora todos têm mais de 70 anos e depois disso um ou outro se destacou. Coincide com o fato de que todos os seminaristas que estudam fora vão para Roma. Precisamos de uma nova geração que não queira estudar em Roma, mas até agora isso ainda não aconteceu. No Terceiro Mundo, apareceram, depois da crise sacerdotal posterior ao Concílio, seminaristas com um nível intelectual muito fraco. Na medida em que o nível intelectual é fraco, eles são mais autoritários e se agarram no direito canônico. Mas, hoje, os evangelizadores são os movimentos, pois João Paulo II sempre desconfiou dos religiosos. No entanto, esses movimentos são burgueses. De qualquer modo, o mundo sempre muda...

No entanto, se hoje a Igreja não se move é porque a sociedade não se move. O que acontece na América Latina são sinais positivos, porque a influência que os Estados Unidos têm sobre ela não conseguiu derrubar Chávez e Correa. Vamos ver o que acontece na Bolívia! Agora, depende do Lula, porque se grandes países aceitam a divisão da Bolívia isso se dará tranqüilamente, mas, se o Brasil e Argentina se opõem, o projeto de divisão não andará. De qualquer maneira, só a eleição de um índio mostra que a sociedade latino-americana também está mudando.

 

DEPOIMENTOS SOBRE JOSÉ COMBLIN

 

Tive o privilégio de ser aluno do Comblin e depois encontrá-lo algumas vezes nos eventos de leitura bíblica na América Latina. A última vez foi na vinda dele na FaTeo, em 2003, para uma palestra no lançamento do livro que a Paulinas publicou homenageando-o quando completou 80 anos, “A esperança dos pobres vive”. Ele sempre impressionou pela clareza de pensamento e pela paixão com o compromisso das causas populares. Perdemos um grande companheiro de caminhada e de esperança.

Prof. Paulo Roberto Garcia, Reitor da FaTeo

 

Comblin. Estive com ele duas vezes. Em uma, no espaço público, um daqueles cursos que a Vozes realizava em Petrópolis. Aprendi muito com ele(s), especialmente quando se tratava da radicalidade evangélica. Na outra, em um pequeno apartamento de Pinheiros. Meu amigo e colega de USP, Phillippe Willemart, fora padre operário. Deixou a batina e se casou, mas manteve amizades fortes na Igreja. Comblin se escondeu durante um tempo no apartamento de Phillippe, em 1971 ( será que não me engano?) e ali o encontrei, com voz pausada e suave. Meu amigo quis que eu o saudasse, até por que eu ainda o conhecia somente pelos textos. Sempre radical. Santo Deus, parece que não temos substitutos para essa gente. Ou me engano?

Prof. Luiz Roberto Alves, coordenador da Cátedra Celso Daniel da Universidade Metodista de São Paulo

 

Como já é de conhecimento de todos, o Pe. Comblin partiu para a eternidade (27 de março de 2011). Como ele sempre amou a América Latina, aqui passou grande parte de sua vida. Um pouco menos do que desejou, em função de sua deportação ocorrida durante a ditadura militar. Recentemente plantou uma árvore (pau Brasil) e, informou que ali desejaria ser sepultado.  Vale a pena ler o texto no qual ele faz um lindo comentário sobre o encontro de Medellín (Conferência Episcopal) ocorrido na década de 60 (ano de 1968, se não me engano). Foi um marco de abertura para a comunidade católica, seguido do encontro de Puebla. Pós Puebla, os movimentos se fizeram e se fazem mais devagar e os avanços raros.

Prof. Luiz Silvério Silva, diretor da Faculdade de Administração e Economia da Universidade Metodista de São Paulo

 

 José Comblin deixou-nos no dia 26 de março último, depois de completar 88 anos de idade, 53 dos quais consagrados à Igreja do Brasil e da América Latina, de modo despojado, fraterno e ecumênico. Pediu para ser enterrado ao lado do Pe. Ibiapina, o grande apóstolo dos sertões nordestinos, para ele, modelo para a missão, para a promoção humana, espiritual e apostólica das mulheres e verdadeiro santo para os nossos tempos.

Louvamos a Deus por sua vida e damos testemunho de sua entrega ao estudo e à formação a serviço dos pequenos no campo bíblico, teológico, pastoral e do compromisso cristão no mundo, em prol da justiça e da transformação social. A partir dos últimos e excluídos, interpelava corajosa e profeticamente os grandes do mundo e da Igreja e as estruturas de opressão e exclusão.

Deixou a marca do seu pensamento e intuições certeiras nas Conferências gerais do episcopado latino-americano e caribenho em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida, no seu clamor insistente por uma Igreja toda ela missionária e a serviço da libertação.

Sofreu incompreensões, perseguições e exílio por parte dos regimes militares e de setores da Igreja, mas estabeleceu também fecunda cooperação com pastores como Mons. Manuel Larraín de Talca, no Chile; Mons. Leonidas Proaño de Riobamba, no Equador; Dom Paulo Evaristo Arns, em São Paulo; Dom Helder Camara no Recife e Dom Jose Maria Pires na Paraíba. Escreveu dezenas de livros e centenas de artigos e deu milhares de palestras, cursos e assessorias, por todo o continente, levando a contribuição do seu pensamento alerta e sólido, incisivo e cortante, junto com o exemplo de sua vida de teólogo e sacerdote, transcorrida na simplicidade, na pobreza e numa entrega desinteressada e generosa.

Ao mesmo tempo em que lecionava na Universidade de Lovaina, na Bélgica, iniciou centro de formação ministerial para camponeses pobres no sertão da Paraíba, preparando-os para o serviço missionário da Palavra e promoção humana, com sua Teologia da Enxada e seu profundo senso do evangelho e de que Deus escolheu os pequenos deste mundo, para confundir sábios e poderosos.

Que nosso testemunho seja apenas o pálido eco de milhares de pessoas, comunidades, dioceses e movimentos populares que estão agradecendo a Deus por sua vida e seus trabalhos.

Pe. José Oscar Beozzo,  coordenador do CESEP/Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular.                                           

 

Notícia muito triste, especialmente no meu caso, pois Comblin foi uma referência fundamental nas minhas pesquisas na área da Pastoral / Teologia Urbana. Parte de sua tese de doutorado (nos anos 60 em Bruxelas) se transformou no livro: "Teologia da Cidade".

Prof. Clovis Pinto de Castro, Reitor da Universidade Metodista de Piracicaba

 

Acabo de receber comunicado de que José Comblin, amigo, irmão, teólogo, profeta e amigo dos pobres foi ao encontro do Pai, por um infarto fulminante. Tinha 88 anos. Será embalsamado e enterrado lá onde está o Pe. Ibiapina, lugar que ele merece estar e sempre quis. Choramos sua partida e nos alegramos que finalmente, depois de uma longa e laboriosa vida, chegou ao Reino da Trindade.
Leonardo Boff, teólogo.

Recebo a notícia do falecimento do mestre José Comblin com tristeza e já antecipada saudade. Fui seu aluno por diversas vezes e, como luterano, aprendi muito dele, de sua verve, de sua radical interpretação do ministério e do evangelho de Jesus. Em 1974 tive a honra, a alegria e o privilégio de fazer um intercâmbio de estudos que me permitiu viver por um ano no Recife, onde fui estudante no ITER e agente de pastoral na ACR - Animação dos Cristãos no meio Rural, onde trabalhei e muito aprendi com o pe. José Servat. Para um jovem como eu, foi algo que mudou minha vida ter estado bem perto de onde começou a experiência das CEBS e da própria teologia da libertação no Brasil. Em todo aquele tempo, respirava a influência de Comblin entre seus amigos padres e nos seminaristas da Teologia da Enxada. E fui lendo seus livros e me deixando embeber por suas interpretações e análises históricas da teologia e da história da igreja. Também sou devedor de sua teologia da missão, que de certo modo incorporei em meu próprio trabalho como missiólogo. Tenho muitos de seus livros, desde os primeiros até os mais recentes e periodicamente volto a eles e os indico a meus alunos. Comblin era de uma simplicidade quase constrangedora. Quando fiz o mestrado na F. T. N. S. da Assunção em São Paulo, Paulo Suess chamou Comblin para um curso. Pois, imagine você, ele vinha para as aulas durante toda uma semana só com uma surrada pastinha de papel nas mãos, que não me lembro de ter aberto algum dia. E nos falava durante quatro períodos sem nada anotado, e com a profundidade de sempre, desafiando para novas leituras e passos sempre mais concretos na missão de Deus. Penso que dá para chamá-lo de teólogo da ação, tanto esta palavra aparece na sua teologia e vida. Vamos ter, sim, saudades dele, muita mesmo. Ultimamente soltou o verbo contra o Vaticano e sua política nada evangélica. Foi duramente criticado, mas uma vez me disse: olha, depois dos 80 anos a gente tem esta liberdade de dizer tudo o que pensa, pois ninguém vai querer perseguir um velho. Pois ele, que nunca se intimidou, aproveitou para deixar registradas mais algumas de suas pérolas.

Prof. Roberto E. Zwetsch, Faculdades EST

 

“Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço de Jacó, num terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José” (cf. Jo 4,5s). Este foi o Evangelho que José Comblin preparava para celebrar a Missa deste 3º Domingo da Quaresma (27.3.2012). Comblin estava de passagem em Simões Filho, município logo ao lado de Salvador (BA), para fazer uma revisão de seu estado de saúde e assessorar um grupo de base. José Comblin, um poço de sabedoria, morreu sentado, junto ao poço de Jacó - a vida toda ao lado de Jesus conversando com a Samaritana, a excluída do templo, da sociedade machista e do pretório.

O templo e o pretório nunca lhe perdoaram essa proximidade à Samaritana. O fizeram refugiado em Talca (Chile), Riobamba (Equador) e, por fim, no Brasil, em Barra (BA), no sertão da Bahia, onde o profeta franciscano D. Luiz Cappio, o confessor Jose Comblin e a samaritana leiga Mônica constituíram uma comunidade teológico-pastoral.

Comblin marcava anualmente presença em nosso curso de pós-graduação em Missiologia. Provocava os estudantes com sua “Teologia da Enxada”, com sua ênfase ao laicato, com seu espírito libertário, com sua radicalidade missionária e autenticidade vivencial. Comblin sempre soube que vale virar esse mundo, viver e lutar de paixão. No terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José, Comblin era posseiro militante. De cavernas remotas trouxe notícias de vida e sobreviventes. Lutou quando era fácil ceder. Quantas lutas teve que assumir por um poço de paz!

Em Medellín, no Congresso dos 40 anos da “Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano”, em 2008, encontrei Comblin uma última vez. Depois de sua palestra, um aceno significativo que parecia dizer: adeus Medellín, adeus companheiros e companheiras. José Comblin morreu aos 88 anos numa hospedaria de Simões Filho (BA). No brasão desta cidade está escrito: Angelus Pacis, anjo da paz. Que o anjo da paz ampare nosso guerreiro na grande travessia!

Paulo Suess

 

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