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Professora da FaTeo publica artigo no jornal O Estado de S.Paulo sobre política e lideranças evangélicas

30/07/2012 12h15 - última modificação 30/07/2012 12h15

 

Rebanho não tão unânime

Líderes evangélicos se julgam com poder eleitoral e falam em nome de todos. Para pesquisadora, há que se tomar a diversidade do grupo

O Estado de S.Paulo, 29 de julho de 2012

 

Por Magali Nascimento Cunha -DOUTORA EM CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO E AUTORA DE A EXPLOSÃO GOSPEL. UM OLHAR DAS CIÊNCIAS HUMANAS SOBRE O CENÁRIO EVANGÉLICO CONTEMPORÂNEO (MAUAD).

Qual é o poder de influência dos evangélicos no processo eleitoral? Divulgações recentes têm dado fôlego a essa reflexão em curso desde o pleito nacional de 2010: o perfil religioso do Brasil pelo Censo 2010 e uma pesquisa do Instituto Datafolha sobre o voto evangélico. Os números do Censo revelaram o já esperado: um crescimento da população evangélica, de 15,4% para 22,2% na década, e a força pentecostal no segmento (60%). Já a pesquisa Datafolha indicou que, entre os participantes do megaevento evangélico Marcha para Jesus (São Paulo, 14 de julho), 31% "com certeza" votariam em candidatos a prefeito nas próximas eleições que tenham o apoio de seus pastores, e que outros 34% dos entrevistados "talvez" votem em candidatos indicados por seus líderes religiosos. Esse dado, que sugere uma tendência à aceitação da prática de voto de cabresto entre os evangélicos, com pastores fazendo as vezes dos clássicos coronéis da política brasileira, coloca mais lenha na fogueira da reflexão.

Com base nesses números é fácil constatar a força evangélica. Não é surpresa que candidatos e marqueteiros tenham detectado a tendência, e a prática de "pedir a bênção" a líderes e igrejas seja recorrente a cada eleição, bem como que esses candidatos e seus partidos se submetam a pressões desses grupos religiosos por compromissos morais (vide a campanha de 2010).

No entanto, como a dinâmica sociopolítica e cultural não é feita de números, essa reflexão tem outros vieses. O ponto de partida é considerar que a presença das religiões na esfera pública não pode ser vista como uma ameaça à democracia nem à laicidade do Estado. Ela reflete a dinâmica sociocultural brasileira e se configura como uma forma de resposta às demandas da contemporaneidade. Não é mais possível ignorar o lugar das subjetividades, dos imaginários e de práticas coletivas deles decorrentes, entre elas as religiões, como forma de reação a questões tão diversas e plurais. Portanto, a presença de evangélicos na política não é ameaça, mas componente do processo democrático.

Outro aspecto é o reconhecimento do crescimento numérico e suas consequências. A presença mais intensa dos evangélicos na esfera pública é fato nas últimas décadas com a maiúscula expansão do pentecostalismo; a consolidação dos evangélicos como segmento de mercado e a consolidação da cultura gospel, formada pela ampliação dos mercados da música e do entretenimento (incluídas as conversões de celebridades midiáticas); a ampliação da aquisição de mídias próprias e de espaço na programação das grandes redes de TV; e a inserção no campo político, quando a máxima "crente não se mete em política" foi sepultada, dando lugar a outra: "Irmão vota em irmão". Desde o Congresso Constituinte de 1986 e a primeira bancada parlamentar, os evangélicos se consolidaram como força política. Em 2004, foi criada a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), hoje formada por 73 congressistas, de 17 confissões, 13 delas pentecostais. Com a expansão de plataformas dos movimentos feministas e homossexuais, a atuação da FPE tem sido marcada pelo tradicionalismo moral.

Um outro olhar deve se voltar à cultura evangélica do clericalismo - a centralização da prática religiosa na figura dos pastores, que os tornam formadores de opinião. Eles assumem esse papel, boa parte das vezes, para "ditar" comportamentos a partir de seus valores, com base na lógica de que "ouvir o pastor é ouvir a voz de Deus". Isso leva ao fato de muitos evangélicos votarem em certos políticos porque "o pastor indicou". As recentes pesquisas de intenção de voto, o segundo lugar com o católico Celso Russomanno, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PRB, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus (34% entre evangélicos pentecostais, 9% à frente de José Serra nesse grupo de eleitores), parecem refletir essa tendência. Aqui não há novidade: afinal, não é de hoje que padres católicos influenciam nas decisões de fiéis.

Dado esse contexto, muitos líderes evangélicos se imaginam com poder político e eleitoral e falam em nome do segmento. No entanto, há que se considerar a diversidade nesse grupo religioso: há um expressivo número de fiéis de vinculação não determinada e um significativo trânsito entre denominações. Dessa forma, o voto evangélico pode não ser resultado de uma obediência automática a líderes religiosos (daí o "talvez" da afirmativa de 34% de entrevistados na pesquisa Datafolha). Em muitos casos, por mais que o pastor diga em quem se deve votar, é o cotidiano que determina o voto, como foi o caso da expressiva votação em Dilma Rousseff entre os evangélicos em 2010. Os benefícios dos programas sociais do governo federal parecem ter tido um peso muito maior na decisão do que temas da moralidade ou a vontade de pastores.

Em tempos contemporâneos de revitalização da religião, de intensificação da presença evangélica na esfera pública e de afloramento das subjetividades, com busca de maior autonomia dos sujeitos, há que se reconhecer o lugar dos evangélicos como segmento social expressivo no Brasil sem perder de vista que são pessoas que interagem socialmente, capazes de responder "talvez" à demanda de uma liderança religiosa por voto. É um cenário social instigante, cujas novas configurações merecem ser seguidas de perto.

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