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Professora da FaTeo representa o Brasil em reunião do Conselho Mundial de Igrejas e conta como foi

06/09/2012 11h55 - última modificação 06/09/2012 12h01

Minha participação na reunião do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas, ago-set 2012

Magali do Nascimento Cunha

Acabei de participar da reunião ordinária do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas, realizada a convite do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, na Academia Ortodoxa de Creta (Grécia), de 28 de agosto a 5 de setembro de 2012. Foi a última reunião antes da 10ª Assembleia do CMI (2013, Busan, Coreia do Sul) e, por isso, enfatizou o tema e subtemas da Assembleia para reflexão (“Deus da vida, guia-nos para a justiça e a paz”), com estudos bíblicos e conferências, e tratou do planejamento do evento e das atividades dos programas do CMI até o final do período entre assembleias.

A reunião tem uma agenda densa para os 150 delegados que representam as igrejas-membros dos diferentes continentes. Vale lembrar que fui eleita na Assembleia de Porto Alegre, a nona, em 2006, com mais quatro delegados da América Latina. Represento, portanto, a Igreja Metodista no Brasil, mas também as igrejas-membros da América Latina. Participei desde 2006 de cinco reuniões do Comitê Central, no total, e de mais três reuniões de subcomitês temporários (avaliação da Assembleia de 2006 e reflexão sobre o formato da Assembleia de 2013), de uma “mesa redonda” com agências financiadoras do CMI e de três reuniões do Comitê Permanente sobre Consenso e Colaboração (Diálogo Protestante-Ortodoxo).

Destaque 1 – Momentos de estudo e reflexão

Os estudos bíblicos diários trouxeram o tema da Paz e da Justiça, bem como os cultos do final do dia. Foi importante momento de aprendizado e incentivo ao aprofundamento desta oração que é o tema da Assembleia de Busan.

A reunião foi realizada na Grécia num momento dramático para aquele país no que diz respeito à situação econômica. A Grécia está financeiramente quebrada, como é noticiado frequentemente na mídia de todo o mundo. Num dos painéis, o de Justiça Econômica, ouvimos a apresentação de uma economista sobre a situação, as causas e consequências e perspectivas futuras. Foi alarmante ouvir sobre os efeitos na vida das pessoas: é grande o número de pessoas na Grécia sofrendo de depressão e o número de suicídios aumentou em 40%. Há uma Declaração publicada ao final da reunião sobre isto com uma abordagem teológico-pastoral: https://www.dropbox.com/s/wh5lqh9m3whqebk/WCC%20Statement%20on%20the%20current%20financial%20and%20economic%20crisis%20%20with%20a%20focus%20on%20Greece.docx

Outro painel importante com tema que será alvo das reflexões em Busan 2013 foi denominado “A Igreja como comunidade de mulheres e homens”, ressaltando os desafios em torno do gênero e da busca de justiça e paz nas relações entre mulheres e homens, não só na sociedade de um modo geral mas também dentro das igrejas.

Houve ainda dois painéis para estudo de documentos que serão apresentados na Assembleia de Busan: (1) “A igreja em busca de uma visão comum de fé”, da Comissão de Fé e Ordem; (2) “Juntos em busca da missão pela vida”, da Comissão de Missão e Evangelização (documento que atualiza/contextualiza o importante documento sobre missão de 1983: “Missão e Evangelização, uma afirmação ecumênica”). Há ainda outros três documentos, que não foram discutidos em painéis, mas que foram colocados à disposição para estudo das igrejas em preparação para a Assembleia de Busan: (1) “Economia da vida, justiça e paz para todos”, resultante do processo AGAPE (Globalização Alternativa dirigida aos Povos e à Terra), criado pelo Comitê Central depois da Assembleia de Porto Alegre; (2) “Perspectivas teológicas sobre Diaconia”, resultante de uma conferência sobre o tema realizada em junho deste ano,  pelos programas do CMI relacionados à diaconia e missão; (3) “Clamando por uma comunicação pela vida, pela justiça e pela paz”, produzido pela Associação Mundial pela Comunicação Cristã (WACC). Quem tiver interesse nesses documentos pode me solicitar: há versões em espanhol.

Todos estes estudos na reunião tiveram apresentações orais e estudos em grupos no plenário para aprofundamento e recomendações de ações da parte das igrejas.

Destaque 2 – Momentos de definições sobre a Assembleia de Busan 2013

Além de se ter enfatizado o tema da Assembleia de Busan para estudo, foi dedicado tempo especial para ouvir os relatórios dos comitês formados para preparação da Assembleia. Detalhes como infra-estrutura, programa geral, formato dos momentos de cultivo da espiritualidade e panorama sobre a Coreia e suas igrejas foram apresentados no plenário para discussão, correções, adendos e aprovação. Será uma assembleia que buscará mais tempo para interação entre as igrejas e os parceiros do CMI, com especial atenção à participação mais ampla de igrejas do Sul Global, em especial as pentecostais.

A 10ª Assembleia acontecerá de 30 de outubro a 8 de novembro. A perspectiva é de 760 delegados das igrejas-membros mais os cerca de 3.000 participantes entre delegados não-votantes  (representantes membros fraternos e outros parceiros), assessores e convidados. 50% das igrejas ainda não fizeram as indicações de nomes de delegados (o prazo terminou em 31 de julho mas foi estendido). Das igrejas do Brasil apenas a Evangélica de Confissão Luterana fez indicação. Isto é ruim porque perdemos oportunidades na “repescagem”, que é uma cota reservada para indicações do Comitê Central a partir de sugestões de nomes das igrejas (cuja maioria só pode enviar um delegado). 50% dos assentos são preenchidos pelo Comitê Central com estes nomes sugeridos pelas igrejas, além dos delegados que nomeiam, para que o CMI garanta o balanço da participação de leigos, mulheres, jovens, indígenas, pessoas com deficiência. De lá da reunião mandei uma mensagem aos responsáveis nacionais pelas relações ecumênicas da Igreja Metodista, Bispo Stanley Moraes e Revda. Joana D’Arc Meirelles, apelando para que a Igreja Metodista mande logo suas indicações ressaltando este incentivo da participação ampla.

Este atraso na indicação também é ruim porque os encontros preparatórios regionais para delegados e participantes já acontecem neste semestre. No Brasil, o encontro será em São Paulo/Guarulhos de 29 a 30 de setembro – este mês! – juntamente com uma consulta sobre Justiça Econômica promovida pelo CMI e pela Aliança Reformada Mundial, que tem o apoio do CLAI. Se os delegados não são indicados já ficam de fora desta preparação. A Assembleia do Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI) que acontece em fevereiro de 2013 também será oportunidade de articulação de delegados e participantes de Busan.

Material sobre a Assembleia (logo e recursos de divulgação e estudo) podem ser baixados no site do CMI: www.oikoumene.org.

Destaque 3 – Momentos de avaliação e decisão

A outra parte significativa da reunião é a avaliação da vida e do trabalho do CMI e encaminhamentos decorrentes. Foram três momentos: (1) as palavras  do Moderador  Rev. Walter Altmann e do Secretário Geral Rev. Olav Tveit; (2) o relatório do Secretário Geral, desta vez sobre o período entre Assembleias (Documento “De Porto Alegre a Busan”); (3) participantes em trabalho em diferentes comitês relacionados à dinâmica do CMI com apresentação de relatórios para aprovação em plenário. Sou membro do Comitê de Programas do CMI – o trabalho desse comitê durou um dia e meio da reunião.

Vale destacar que a crise financeira que o CMI vive desde o início dos anos 2000 tem gerado periódicas reduções de staff e atividades. Isto somado à avaliação do Comitê Central em 2010, de que há que se rever a forma de governo e a distinção entre Conselhos e Comitês e o trabalho de execução, levou à criação de um grupo de trabalho em 2010, que apresentou relatório final nesta reunião de Creta, para reestruturação do sistema de governo do CMI. Foi discussão intensa de duas reuniões do Comitê Central (2011 e 2012), pois foi demarcada a preocupação de se ter postos de liderança que garantam e facilitem a realização da vocação do CMI que é articular as igrejas, integrá-las, dando voz e participação. Fui convidada para ser uma dos três reatores à proposta do Comitê de Governança, antes da discussão em plenário. O texto da minha fala pode ser acessado em https://www.dropbox.com/s/sidimmcrt67va5j/on_governance_magali_cunha.docx. Depois de alterações propostas do plenário, foi aprovado o projeto e alterações foram feitas na constituição do CMI com clarificação das funções e periodicidade de reuniões.

Destaque 4 – Convivência

Outros temas ordinários foram tratados como solicitações de novos membros, relatório financeiro, relatório de alocação de staffs, enfim, detalhes da vida do CMI e seu funcionamento: tudo é submetido ao Comitê Central e exaustivamente debatido.

Neste contexto vale destacar que a convivência é momento significativo. Há pessoas no Comitê Central de todos os continentes, de dezenas de países e igrejas diferentes. É um rico momento de encontro e aprendizado sobre o diferente. O ambiente em que estávamos, o Ortodoxo, é muito diferente para nós da América Latina que não temos presença forte deste grupo cristão, por isso é aprendizado especial. Os intervalos e os estudos/decisões em grupo/comitês são momentos muito importantes nesta convivência, afinal, é um Comitê de 150 pessoas – os grupos menores é que dão oportunidade de interação (na foto acima, a professora Magali - primeira, da esquerda para a direita -- com representantes latinoamericanos).

Vale destacar os encontros específicos: regionais, confessionais e de mulheres que têm espaço sempre garantido. Os latino-americanos eram poucos, cinco membros mais assessores e convidados (cerca de 10), mas tivemos um diálogo bastante significativo. Vale destacar que na reunião da região foi divulgada a realização da Consulta sobre Justiça Econômica promovida pelo CMI e pela Aliança Reformada Mundial (mencionada acima) e enfatizada a Assembleia do CLAI.

A reunião confessional é sempre oportunidade de interação com metodistas de várias partes do mundo. É sempre dada oportunidade de partilha de destaques do metodismo em cada país. Falei sobre a realização do Concílio Geral de 2012 e as ênfases da Igreja Metodista no Brasil em discipulado e missão. Falei também sobre a Faculdade de Teologia e sobre o Censo 2010-Religiões. Sou desafiada sempre com a pergunta que me é insistentemente dirigida nessas ocasiões: “como anda a questão ecumênica na Igreja Metodista no Brasil?” Relato a situação como está, ou seja, isto não é tema importante para a igreja de um modo geral e o pouco que sobrevive ainda é incômodo para muitos líderes que desejam ver a igreja ainda mais fechada.

A reunião das mulheres sempre acontece durante um jantar em que somos divididas em pequenos grupos para troca de experiências e fazemos recomendações à ação da pessoa do staff do CMI dedicada aos projetos com mulheres. É um momento muito especial de aprendizado e troca e fortalecimento das mulheres presentes, de todas as idades.

Por fim...

Nesta reunião, em particular, fui privilegiada de conhecer a Ilha de Creta, sua cultura e belezas naturais. O povo grego não é tão acolhedor como nós latino-americanos – me alarmou isto –mas lembrei da história de sua formação e de sua autocompreensão como “o” povo, sendo os demais classificados como bárbaros, e dei um desconto. A crise econômica também está afetando muito as relações pelo que ouvimos.

Os intervalos de almoço foram preciosos para explorações da região e pequenas excursões que contribuíram mais ainda para a convivência. Tivemos um dia livre que aproveitei para ir um pouco mais longe com a companhia de irmãos da Alemanha e da Argentina.

Fui privilegiada por participar deste Comitê nestes últimos seis  anos. É fato que o CMI vive uma crise de identidade e de finanças que o tem forçado a se refazer e se contextualizar. Vamos ver o que o futuro decretará das indicações deste Comitê Central. Aprendi muito, discordei, aprovei, sugeri. Cresci com tudo isto na minha trajetória ecumênica e metodista e estou cada vez mais convencida do que uma vez já escrevi: que o ecumenismo é um caminho sem volta e que as igrejas são uma forte fonte de existência para o movimento ecumênico, mas não a única, e aí está um forte desafio do Espírito de Deus que continua a soprar a despeito das vontades, pois Ele sopra onde quer e como quer, e a converter gente para o seu projeto de unidade para que o mundo creia.

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