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Professora da FaTeo concede entrevista sobre relação entre mídia, religião e eleições

20/10/2010 20h00 - última modificação 20/10/2010 20h01

Mídia, religião e eleições. Entrevista especial com Magali do Nascimento Cunha para o site do Instituto Humanitas Unisinos

20/10/2010

A influência das mídias e das diferentes religiões no debate que cerca o segundo turno desta eleição presidencial tem sido o centro das análises sobre o possível resultado do pleito. Entender como a mídia e as religiões estão se posicionando é um dos objetivos da professora Magali do Nascimento Cunha na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. “As igrejas se tornaram protagonistas na mídia em duas situações claras: o destaque dado à candidata Marina Silva, evangélica, que teria captado bom número de votos entre os evangélicos por conta desta condição; e a inserção de valores religiosos na discussão sobre descriminalização do aborto e concessão de direitos às pessoas homossexuais”, opina.

Magali do Nascimento Cunha é graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense. É mestre em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Atualmente, é professora na Universidade Metodista de São Paulo. É autora de A explosão gospel. Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil (Rio de Janeiro: Mauad, 2007).


Confira a entrevista.


IHU On-Line: Como você descreve a relação entre as igrejas, a mídia e as eleições no atual cenário eleitoral?

Magali do Nascimento Cunha – As igrejas se tornaram protagonistas na mídia em duas situações claras: o destaque dado à candidata Marina Silva, evangélica, que teria captado bom número de votos entre os evangélicos por conta desta condição; e a inserção de valores religiosos na discussão sobre descriminalização do aborto e concessão de direitos às pessoas homossexuais – aqui católicos e evangélicos foram apresentados na grande mídia como protagonistas de uma "guerra" contra a candidata Dilma Rousseff. Este destaque às igrejas e líderes religiosos restringiu-se às posições tidas como mais conservadoras, pois não houve espaço de expressão para os setores católicos e evangélicos cujas posições são opostas às que eram expostas.


IHU On-Line – Qual tem sido o real papel das religiões nas eleições presidenciais deste ano?

Magali do Nascimento Cunha – Diante do protagonismo concedido pela grande mídia, o papel tem sido fundamentalmente o de reforçar as posições da política brasileira mais conservadora (a chamada "de direita") que tenta retomar espaços perdidos nos últimos oito anos.


IHU On-Line – Que reflexão você faz sobre o poder da mídia e da mídia alternativa em relação à questão eleitoral e à formação de opinião ou decisão de voto?

Magali do Nascimento Cunha – É um poder significativo, haja vista que temas como descriminalização do aborto e direitos homossexuais foram pautados pela repercussão da grande mídia com o reforço das mídias alternativas com circulação ampla de mensagens e de vídeos de campanha, no caso, contra a candidata Dilma Rousseff.


IHU On-Line – O moralismo religioso em relação ao aborto não pode ser considerado como prejudicial no cenário eleitoral em que uma questão como essa necessitaria ser discutida pela sociedade?

Magali do Nascimento Cunha – Sem dúvida. A discussão tem sido passional, desvestida de conteúdos que tratem com a densidade que o tema merece.


IHU On-Line – Qual foi a real importância do voto evangélico no primeiro turno e o que ele pode conseguir para o segundo turno?

Magali do Nascimento Cunha – O voto evangélico não foi decisivo. Eu não tenho pesquisa sistematizada sobre isto, mas conclusões a partir do acompanhamento que tenho feito do noticiário. O protagonismo foi pautado pela grande mídia que definitivamente apoia Serra. Se voltarmos às eleições de 2002, em que havia um candidato evangélico, Anthony Garotinho, vamos verificar que ele teve quase o mesmo percentual de votos de Marina. Se levarmos em conta que a juventude e a classe média em busca de alternativas, e uma parcela da intelectualidade frustrada com Lula e o PT, que nada têm a ver com os evangélicos, que votaram em Marina em 2010 mas não votaram no Garotinho em 2002, podemos até concluir que ele teve mais adesão religiosa naquele momento. Além do fato de a grande mídia ter “adotado” Marina, o que não aconteceu com Garotinho. De qualquer forma, assim como Garotinho, Marina teve uma votação expressiva, que não pode ser desconsiderada. Fato é que Marina Silva tem um passado de engajamento social e na esquerda, que nunca lhe rendeu apoio entre os evangélicos antes, em direção bastante diferente da trajetória de Serra.


IHU On-Line – O que significa, do ponto de vista social e cultural, que a política esteja tão presente no cenário religioso brasileiro?

Magali do Nascimento Cunha – Isto é um fenômeno bem recente. Desde o Congresso Constituinte de 1996 e a formação da primeira Bancada Evangélica e seus desdobramentos, a afirmação "crente não se mete em política" é algo sepultado. Na verdade, já não valia antes, pois omissão e indiferença já eram uma forma de fazer política. Entretanto, desde 1996, a política partidária transformou-se em pauta na vida de muitos "crentes" e igrejas evangélicas. O ano de 2010 tornou-se um ano emblemático: pela primeira vez uma candidatura evangélica à presidência foi apaixonadamente pronunciada e defendida. A assembleiana Marina Silva foi assumida e propagada, das mais distintas formas, como "a" candidata de grupos evangélicos contra mais um mandato para um governo petista, com base, fundamentalmente, em bandeiras relacionadas à moral sexual.

Evangélicos contra o PT e contra Luiz Inácio da Silva também não são novidade, desde o primeiro pleito para a presidência em 1989. A “demonização” da candidatura Lula já acontecia, com argumentos que expunham desde “Lula é comunista e ateu. Não podemos ter um presidente ateu” até “Se Lula ganhar vai mandar fechar as igrejas”. Tais posturas reacionárias evangélicas, somadas à triste (para não dizer vergonhosa) atuação da Bancada Evangélica no Congresso Constituinte 1986-1989, levaram à criação, em 1990, do Movimento Evangélico Progressista. Em 1989 já havia sido criado o Comitê Evangélico Pró-Lula com o objetivo de mostrar que era possível ser evangélico e ser de esquerda. Portanto, esse fenômeno é bem novo e ainda vai trazer muita coisa para ser refletida.


IHU On-Line – Que mudança sinaliza o fato dos evangélicos terem se tornado atores políticos no Brasil?

Magali do Nascimento Cunha – O Congresso Constituinte de 1996 é uma virada de página nesta história muito em função de projetos de igrejas e lideranças religiosas interessadas numa midiatização da religião. As concessões de rádio e TV foram o grande objeto de barganha naquele momento e em momentos seguintes e que resultou em maior presença das igrejas na mídia.


IHU On-Line – Qual a importância da figura política de Marina Silva em relação à questão do verde e do aborto? Como entender a importância que estes temas tiveram neste pleito?

Magali do Nascimento Cunha – Marina nunca teve apoio como evangélica tal como teve nestas eleições. Todas as causas que ela sempre defendeu como mulher da floresta, integrante de partido de esquerda e envolvida com o movimento ecumênico nunca tiveram atenção e apoio das igrejas. À medida que Marina se candidatou a presidente, a máxima "evangélico vota em evangélico" falou mais forte, aliada ao fato de ser uma mulher contra outra mulher. A simpatia deu-se pelo simples fato de Marina ser evangélica e não pelas causas que ela defende.


IHU On-Line – Em que sentido a internet foi novidade no cenário eleitoral deste ano?

Magali do Nascimento Cunha – Ela já tinha tido um papel significativo nas eleições de 2006 - vários estudos já demonstravam isto naquele momento.


IHU On-Line – Padre e pastor têm mais poder de influência para pedir ou para tirar votos?

Magali do Nascimento Cunha – Quando pensamos nos evangélicos, temos que levar em conta vários fatores pastorais: em primeiro lugar, o clericalismo que marca a realidade das igrejas e que tornam as pessoas comuns, o chamado “povo das igrejas” algo como “massa de manobra”. Sobre isto me refiro ao fato de que muitos evangélicos votam em certos candidatos porque “o pastor mandou”. Isto é realidade. Pastores são formadores de opinião e assumem este papel em boa parte das vezes não para orientar mas para “ditar” mesmo a partir dos seus valores, dentro da lógica “ouvir o pastor é ouvir a voz de Deus”. E não estou falando de pentecostais tão só, mas também das igrejas históricas, e nem só de pobres, como também da classe média. Matéria que o Wall Street Journal publicou tem um depoimento que reflete isto.

Nas igrejas históricas, isto tem acontecido bastante, ainda mais em tempos de força dos chamados movimentos celulares, em que a relação líder-discípulo é baseada no clericalismo e em autoritarismo. Fato é que boa parte destes líderes tem uma herança que está no DNA da formação evangélica no Brasil, que é o fechamento ao novo, à mudança, e a postura interesseira e corporativa, isto é, bom para o país é o que é bom para a religião. Daí a máxima “evangélico vota em evangélico”, na certeza de que estes políticos vão defender causas próprias do segmento evangélico que raramente interferem na ordem social e se revertem em “praças da Bíblia”, criação de feriados para concorrer com os católicos, benefícios para templos. Basta conferir os partidos aos quais estes evangélicos estão afiliados. Além disso, ainda tem o fator “demonização”. Isto é forte na cultura evangélica. Daí o valor que é dado à chamada “boataria”. O pessoal acredita em tudo isto porque quer acreditar e, nesse caso, o demônio faz a escolha, interessante, sempre pela esquerda. Isto é um fenômeno cultural relacionado ao imaginário religioso e político. Não foi à toa que a revista Veja publicou uma capa sobre o MST e o Stedile, cujo retrato era o próprio diabo. A mídia sabe mexer com este imaginário. É fato que desde os anos 1990, este quadro tem mudado com o surgimento de políticos evangélicos “de esquerda” e o Movimento Evangélico Progressista é parte desta história. Mas tem o DNA...


IHU On-Line – Como você avalia o fenômeno do pastor Silas Malafaia?

Magali do Nascimento Cunha – Silas Malafaia se enquadra no perfil que descrevi acima. Ele tem um discurso autoritário revestido de moderno, por conta do uso do humor, que tem um apelo forte entre evangélicos historicamente doutrinados para assimilar que o pastor tem que ter autoridade e falar forte e duro. Soma-se a isto o conteúdo apelativo da prosperidade que também tem um forte apelo. Ele tem um projeto pessoal nítido que resultou em seu desligamento da Assembleia de Deus – ele se fez muito maior do que ela. Portanto, suas afirmações são bastante coerentes com este quadro.


IHU On-Line – O que representa, do ponto de vista midiático e religioso, a presença de Serra e Dilma em Aparecida, na último dia 12 de outubro?

Magali do Nascimento Cunha – Esta é uma prática bastante comum entre os políticos. Já vimos este tipo de atitude antes em diferentes eventos religiosos. Certamente, não agrada aos evangélicos, mas acaba por ser assimilado como prática comum dos políticos. O que surpreendeu na última semana foi o candidato Serra produzir um folheto religioso, semelhante a um cartão de crédito, que, traz a frase "Jesus é a verdade e a justiça", seguida da assinatura dele. Esta ação parece ter ultrapassado os limites do bom senso do marketing político e deve levar a uma reflexão sobre o uso da religião como estratégia política.

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