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Professora da FaTeo comenta manifestações políticas e posicionamento das igrejas

21/06/2013 12h40 - última modificação 21/06/2013 12h41

sexta-feira, 21 de junho de 2013
Manifestações políticas nas ruas do Brasil: e as igrejas?

Por Magali do Nascimento Cunha
blog: http://midiareligiaopolitica.blogspot.com.br/


Motivados por protestos contra o aumento do preço das tarifas de transporte público, centenas de milhares de brasileiros e brasileiras têm se manifestado nas ruas de diferentes cidades de todas as regiões do Brasil e até de outros locais do mundo, por mais de uma semana. Inicialmente reivindicando a redução de R$ 0,20 no preço majorado da passagens, as manifestações ganharam maior proporção nos últimos dias e passaram a expressar insatisfações da população com diversas situações que envolvem a realidade brasileira, desde a baixa qualidade da saúde e da educação públicas até a votação de medidas no Congresso Nacional classificadas de retrocesso, como a Proposta de Emenda Constitucional, a PEC-37 que retira a competência do Ministério Público de processos de investigação de crimes, restringindo as ações às polícias federal e civil dos Estados e do DF. Observa-se, também mais recentemente, presença notável de expressões conservantistas entre manifestantes como pedidos pelo fim dos partidos, pelo retorno de um governo militar ou pelo impeachment da Presidente Dilma Rousseff. Casos extremos de vandalismo em vários locais também foram observados, dentro da lógica de que pessoas má intencionadas em meio a multidões se sentem livres para fazer o que bem desejam e soltar os seus mais violentos instintos. Ações policiais repressivas truculentas também entram na contabilidade dos movimentos.

Estes acontecimentos ainda estão sendo avaliados e têm deixado lideranças políticas, estudiosos da sociedade e religiosos perplexos e com poucas palavras explicativas deste momento. Há quem valorize o momento, em especial depois que prefeituras de grandes cidades atenderam às reivindicações pela redução do preço das passagens de ônibus, ressaltando o lugar do exercício da cidadania e de expressão popular por direitos. Há também quem denuncie as ações oportunistas de políticos e movimentos de direita e extrema direita que viram nas manifestações um espaço para criar e/ou manipular fragilidades do governo federal. Neste último aspecto há uma contribuição da cobertura das mídias noticiosas que tem ressaltado um clima de descontrole social.

E as religiões neste contexto?

As redes sociais eletrônicas como o Facebook e o Twitter têm exposto a presença e o apoio de muitos evangélicos e católicos nas manifestações em curso. Cartazes como "Sou protestante, venho para a rua",

Lideranças evangélicas identificadas como "de esquerda" ou "socialmente engajadas" manifestaram-se publicamente em curto espaço de tempo. Após a marcante ação violenta violenta da Polícia nos protestos em São Paulo no dia 13 de junho, no dia que ficou conhecido como a Revolta do Vinagre, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) divulgou nota em que denuncia que “a cultura autoritária segue sendo uma característica do Estado brasileiro”, fazendo referência à repressão exagerada comum aos anos do Regime Militar, que recentemente atingiu indígenas também em manifestação. A crítica na nota se estende aos eventos esportivos que estão sendo organizados no Brasil: “Não queremos apenas circo. Queremos também pão, fruto da justiça social. Reivindicamos o cumprimento das convenções internacionais de direitos humanos. Nosso desejo é que a população seja respeitada e que políticas capazes de transformar as estruturas sociais e econômicas responsáveis pela exclusão social tornem-se reais”, resume a nota. Veja a íntegra da nota em http://www.conic.org.br/cms/noticias/416-em-nota-conic-condena-brutalidade-policial-e-estatal

A Igreja Metodista em São Paulo divulgou carta dirigida ao governador Geraldo Alckmin, assinada pelo seu bispo presidente José Carlos Peres, apoiando as manifestações e a redução da tarifa do transporte público mas lamentando o fato de as manifestações populares estarem vulneráveis a manipulações de interesses partidários. O texto condena as cenas de violência protagonizadas pela polícia e cobra do governador que cuide do povo com o mesmo empenho quando faz busca por votos. A íntegra da carta pode ser lida em http://www.metodista.br/fateo/noticias/carta-do-bispo-peres-ao-governador-de-sp

O fato de a adesão das igrejas ainda ser bastante insipiente, levou o pastor Carlos C. Fernandes a publicar em seu blog Cristianismo Subversivo um artigo em que critica a inércia, afirmando ser essa postura contraditória com a história do protestantismo. “Que vergonha! Fomos adestrados pelo sistema. Vendidos ao capital. Transformados em lubrificante das engrenagens políticas. Somos qualquer coisa, menos protestantes. Nem sei se somos realmente cristãos. Em vez de subversivos, tornamo-nos subservientes. Afinal, dizem os porta-vozes da ‘ordem’, temos que nos submeter às autoridades”, lamentou.

Fernandes reclama das lideranças evangélicas que não incentivam as manifestações ou que se posicionam contra: “Se dependesse desses ‘protestantes’, os discípulos de Jesus jamais seriam conhecidos como ‘aqueles que subvertem o mundo’; Jesus nunca teria ‘vandalizado’ o templo em Jerusalém, derrubando mesas, soltando os bichos engaiolados, e tudo isso, munido de chicote; Lutero jamais teria ‘vandalizado’ o castelo de Wittemberg com suas 95 teses, insurgindo-se contra a autoridade papal; William Wilberforce nunca teria desafiado o regime escravagista inglês, provocando um efeito dominó que culminaria na libertação dos escravos nos Estados Unidos, no Brasil e no resto do mundo; Dietrich Bonhoeffer não teria desafiado o nazismo (ou Hitler não era uma autoridade?)”, diz, citando eventos históricos promovidos por protestantes. “A ausência da igreja cristã nos protestos, o silêncio de sua liderança, ou mesmo, as duras críticas que alguns têm feito ao movimento, causam-me profunda tristeza”, resumiu o reverendo.

Outro líder evangélico que comentou as ações populares foi o pastor Ariovaldo Ramos: “O povo brasileiro está nas ruas. O povo não quer ficar à deriva do poder, quer direcionar o poder. O governo, como o fez a Presidenta, tem de admitir: o bem comum está sendo mal administrado. O Estado tem de se abrir para o controle social. Como? Isso tem de ser buscado. Uma forma deve haver. O povo está certo: quem tem de estabelecer as prioridades é a população. E mais, quem tem de ter controle sobre os gastos é a população, tudo tem de passar por controle social”, afirmou.

Para Ramos, Dilma Rousseff tem nas mãos a tarefa de conduzir o país rumo às mudanças necessárias para que a sociedade seja menos desigual: “Se a Presidenta souber ler este mover popular, saberá que, agora, é a hora de fazer todas as reformas que todos sabemos que precisam ser feitas: política, tributária, jurídica, partidária, eleitoral. O movimento não é contra alguém, o movimento é a favor do Brasil. Não pode mais haver espaço para a corrupção, para a exploração, para que o bem seja de poucos, em detrimento da maioria”, conceituou.

As primeiras manifestações de lideranças ligadas à Frente Parlamentar Evangélica, como do Pastor Silas Malafaia, mantiveram a linha da competição por espaço político seguida após a manifestação dos evangélicos em Brasília no dia 5 de junho:

Dois dias depois, em 20 de junho, o mesmo pastor expressou-se de forma diferente. De acordo com o líder religioso, o caráter não centralizado que vêm marcando tais manifestações, e também sua duração indeterminada, por fazer com que as multidões sejam usadas por grupos mesquinhos para atingir seus objetivos. "O perigo de manifestações incontroláveis – e a história já tem nos mostrado – é se tornar uma verdadeira 'caça às bruxas' de gente perversa que usa multidões para conseguir atingir seus objetivos inescrupulosos".

Silas Malafaia afirma que os evangélicos são sim a favor de manifestações pacíficas, mas que a falta de liderança dos protestos pode submeter os protestos a manipulação ideológica e à incitação de violência, causando ainda mais problemas ao país. "No Brasil o perigo são os esquerdopatas ultrarradicais que pregam baderna, vandalismo, derramamento de sangue, para que possa haver uma verdadeira revolução. A sociedade não pode ficar a mercê de grupos que convocam o povo com pretexto de alguma revolta popular, parar o país e causar problemas mais profundos para a nação".

O pastor finaliza afirmando ser a favor de manifestações, mas desde que pacíficas e que durem um tempo determinado, que ele não especifica qual seria. O pastor diz ainda que os evangélicos já deram o exemplo de como se fazer uma manifestação pacífica com mais de 70 mil pessoas, citando o protesto organizado por ele em Brasília no último dia 5. Silas Malafaia não deixou de criticar o PT: ele afirma que o partido "tentou nos últimos anos ampliar seu controle sobre entidades da sociedade civil organizada, mas esqueceu dos movimentos horizontais".

Até o momento não há registros de pronunciamentos de lideranças da Igreja Católica Romana.

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