Ferramentas Pessoais

Você está aqui: Página Inicial / Fateo / Notícias / Professor da Candler ministra palestra na FaTeo sobre Perfeição Cristã. Veja como foi

Professor da Candler ministra palestra na FaTeo sobre Perfeição Cristã. Veja como foi

29/05/2013 13h25 - última modificação 06/06/2013 13h55

 

No próximo dia 8 de Junho a FaTeo despede-se do professor Rex Matthews, docente da Candler School of Theology da Universidade Emory, em Atlanta, Georgia,  que veio no dia  17 de maio  como participante de um programa de intercâmbio com a Faculdade de Teologia da Universidade Metodista.

Especialista em História do Metodismo, Rex Mathews concentra suas pesquisas na vida e pensamento de John Wesley e no desenvolvimento histórico e teológico do metodismo na Inglaterra e América. Ele é editor da revista acadêmica Methodist Review: A Journal of Wesleyan and Methodist Studies, e também atua como co-presidente do Grupo de Estudos Wesleyanos da Academia Americana de Religião. No Brasil, o professor Matthews participou de encontros com docentes e estudantes, assistiu às palestras e oficinas da Semana Wesleyana e proferiu palestra com o tema “Repensando a ideia de John Wesley sobre Perfeição Cristã”, um dos conceitos centrais da teologia wesleyana.   

Perfeição em processo:  o conceito wesleyano



Na palestra proferida na quarta-feira, dia 4 de junho, o professor Mathews lembrou que, ainda hoje, seguindo uma tradição que começou nos tempos de Wesley, os/as candidatos/as à ordenação da Igreja Metodista Unida, dos Estados Unidos, devem responder às seguintes perguntas: 1) Você tem fé em Jesus? ; 2) Você avança em direção à perfeição?;  3) Você espera se tornar perfeito em amor nesta vida?;  4)Você busca isto com afinco?  Espera-se dos/das candidatos/as à ordenação que respondam “sim” a todas estas perguntas… Contudo, destacou o professor, aprendemos da psicologia moderna que os seres humanos distam de serem “perfeitos”. Assim, desconfiamos de qualquer ideia de perfeição relacionada a indivíduos ou instituições.

Como lidar com essa disparidade? Para o professor, é preciso retomar ao conceito original. Segundo ele, o movimento de Santidade do século XIX, primeiro nos EUA e depois em outras partes do mundo, distorceu ensinamentos de Wesley sobre a perfeição cristã. “O próprio Wesley não gostava, nem empregava, o termo ´perfeição sem pecado´”, disse ele. No entanto, esta ideia – compreendida simplisticamente como o poder de não cometer atos pecaminosos – se enraizou no movimento de santidade. O discurso wesleyano, afirmou o professor, foi reduzido a uma cartilha moralista e legalista.  O cristão “perfeito” seria aquele que se abstém de certas ações consideradas pecaminosas, com beber, fumar, jogar ou praticar sexo extraconjugal.

Segundo o professor Matthews, ao simplificar o conceito de perfeição, o movimento de santidade transferiu a ênfase de uma noção de “perfeição em aperfeiçoamento” para uma noção de “perfeição aperfeiçoada” que, muitos metodistas históricos rejeitaram e, por isso, acabaram abandonando um dos conceitos mais importantes da teologia wesleyana. “Jogaram fora o bebê junto com a água da banheira”, brincou o professor.

Retomando alguns textos clássicos de Wesley, Rex Matthews chegou à conclusão de que Wesley considerava a possibilidade (através da Graça de Deus) da experiência imediata da perfeição cristã , ou seja, o alcance do “perfeito amor” (1Jo 4. 18). Não o entendia, contudo, com uma perfeição “absoluta”. “A perfeição absoluta não pertence aos seres humanos, tampouco aos anjos, mas somente a Deus” . A perfeição cristã seria uma experiência precedida e seguida por uma obra gradual que pode, portanto, ser melhorada, como também pode ser perdida. 

Analisando as traduções testamentárias, o professor concluiu que nossa concepção de perfeição é influenciada pela tradução latina, cuja palavra perfectus origina-se do verbo facere (fazer) acrescida do prefixo per (completamente). Seria o “feito por completo”.  Na tradução grega, porém, perfeito é teleios, que provém de telos, cujo significado é  fim, meta, objetivo, destino.


Para o professor, uma maneira de resgatar uma compreensão mais completa da perfeição cristã de Wesley seria pensar nos termos integralidade e maturidade como traduções que completam o sentido do texto, o que já tem sido feito em algumas traduções bíblicas.

Veja a diferença em Hebreus 6.1:


•    English (tradução King James): Therefore leaving the principles of the doctrine of Christ, let us go on unto perfection (na tradução Almeida: Pelo que deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição).
•   Contemporary English Version (1995): We must try to become mature and start thinking about more than just the basic things we were taught about Christ. (perfeição como maturidade)
•    Bible in Basic English (2011): For this reason let us go on from the first things about Christ to full growth (perfeição como pleno crescimento)
•    Nova Versão Internacional (1999): Portanto, deixemos os ensinos elementares a respeito de Cristo e avancemos para a maturidade.


Nesta vida, os/as cristãos/as “perfeitos/as” de Wesley, na verdade,  tornam-se cada vez mais cientes de suas fraquezas físicas, morais, psicológicas, emocionais e intelectuais, e cada vez mais cônscios/as de sua total dependência da graça e misericórdia de Deus, disse Matthews. “Talvez se focarmos menos em tentarmos nos tornar “perfeitos” e procurarmos nos abrir mais completamente para sermos preenchidos pela presença e pela graça de Deus poderemos crescer rumo à maior maturidade como cristãos/ãs”, concluiu o professor.


CLIQUE AQUI PARA OBTER A APRESENTAÇÃO NA ÍNTEGRA (em PPT)

 

LEIA TAMBÉM:

Os próximos passos do intercâmbio Candler/FaTeo

Uma entrevista com  o professor  Rex Matthews

1)    É a primeira vez que você vem ao Brasil? O que achou da viagem?

Sim, é minha primeira viagem ao Brasil, e tem sido uma experiência maravilhosa. Todos na universidade foram maravilhosamente prestativos, especialmente a professora Magali e Demétrio (respectivamente, coordenadora e assistente do Programa de Relações Institucionais), Dr. Paulo Garcia e outros professores que conheci, todos muito generosos e hospitaleiros.

2)    Quais são os principais benefícios desse programa de intercâmbio entre a Candler e a FaTeo?
Minha primeira expectativa para a viagem era explorar possíveis meios pelos quais minha faculdade pudesse desenvolver um relacionamento mais próximo com a Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo. Nós estabelecemos um programa de intercâmbio com professores: a professora Margarida Ribeiro esteve conosco na Candler em janeiro; eu estou aqui agora por três semanas e o Prof. Dr. Paulo Garcia estará conosco na Candler em setembro. Nós também estabelecemos um intercâmbio de estudantes e, embora apenas um estudante de cada instituição tenha viajado até agora, eu espero que no futuro mais estudantes possam participar do programa.
O desenvolvimento de relacionamentos pessoais entre professores e estudantes de nossas respectivas faculdades é parte importante de um processo de aproximação programática e institucional.  Isso torna possível para cada instituição ter uma compreensão mais clara da situação e dos programas da outra e estabelecer diálogos acerca das formas nas quais uma cooperação mais próxima possa ser benéfica a ambas as instituições e seus estudantes.

3)    Em 2010 e 2012 você recebeu alguns prêmios por excelência no ensino, incluindo o Prêmio Ensino Exemplar da Junta Geral de Educação Superior e Ministério. Em sua opinião, que características fazem de alguém um bom professor?
Acho que perguntar o que torna alguém bom professor é o mesmo que perguntar o que torna alguém um bom cozinheiro. Em ambos os casos, certa gama de conhecimento é necessária, pois se trata de um domínio de (ou pelo menos familiaridade com) uma variedade de habilidades e técnicas. O cozinheiro pode ter uma receita básica para seguir, mas o bom cozinheiro sabe como adaptar tanto as técnicas quanto os ingredientes que possam ser necessários para produzir os efeitos desejados em uma situação particular - mais ou menos farinha, maior ou menor tempo de cozimento, temperatura mais elevada ou mais baixa, e assim por diante. De maneira similar um bom professor sabe o conteúdo que se espera de uma aula, mas tem a habilidade e a flexibilidade necessárias para fazer alterações de última hora a fim de ajudar os alunos a chegar aonde necessitam, ao final da aula. Ainda utilizando essa metáfora, assim como não há dois pães idênticos, mesmo sendo feitos a partir da mesma receita, porque os ingredientes e as condições nunca são exatamente as mesmas, também não há duas aulas exatamente iguais, porque os estudantes nunca são os mesmos ou estão da mesma maneira.

Minha opinião é que o verdadeiro aprendizado acontece como o resultado de uma interação criativa do professor com o grupo de estudantes motivados em torno de um tema que todos entendem ser importante. Às vezes eu penso que minha função é, principalmente, a de contador de histórias. Nossas histórias familiares são importantes, elas nos identificam e nos unem como família. Eu realmente quero que meus estudantes conheçam suas histórias familiares – em um nível mais amplo, que é a história da família cristã, mas mais particularmente, para os estudantes a quem leciono, a história da Igreja Metodista Unida, ou seja,  a história de nossa tradição wesleyana dentro dessa história maior.  Eu adoro apresentar o Sr. Wesley a meus alunos, ajudá-los a conhecê-lo, estimular uma boa conversa entre eles e, então, sair de cena. Um dos melhores conselhos que recebi como um estudante do seminário foi o de buscar pelo menos um parceiro de conversa teológica que tenha vivido num tempo e num lugar muito diferente do meu.  As pessoas têm tido todos os tipos de interlocutores teológicos - Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero, Calvino, Barth, e tantos outros. Wesley tem sido o “parceiro de conversa” para mim, e espero que ele também se torne um bom companheiro para os meus alunos.

Fotos: Candler e Luciana de Santana

Comunicar erros


Leia mais notícias sobre:

Receba informações de oferecimento sobre esse curso: